Erenice, fabricante de dossiês e braço-direito de Dilma: da burocracia ao poder

Ao deixar o cargo para disputar a Presidência, em 31 de março, Dilma indicou Erenice como sucessora. Lula deu aval

Até assumir o comando da Casa Civil, em abril de 2010, Erenice Guerra atuava em cargos da burocracia estatal e nos bastidores da política em Brasília – com especial talento para a confecção de dossiês. Formada em Direito, começou na liderança do PT na Câmara, organizando e divulgando informações contra adversários, como os ex-presidentes Fernando Collor de Mello e Itamar Franco.

Filiada ao PT desde 1981, Erenice foi secretária de Segurança Pública do Distrito Federal no governo Cristovam Buarque. Na época, abriu uma empresa privada de investigação, segurança e vigilância, suspeita também de atuar na feitura de dossiês.

Com a chegada de Luiz Inácio Lula da Silva à Presidência, em 2002, aproximou-se da então ministra de Minas e Energia, Dilma Rousseff. Parecidas em gostos e personalidade, as duas se tornaram próximas. Erenice atuou como consultora jurídica do ministério, enquanto acumulava uma cadeira no Conselho Administrativo da Eletronorte. Quando Dilma foi alçada à Casa Civil, em 2005, levou junto Erenice, como secretária-executiva.

Foi de dentro da Casa Civil que, em 2008, Erenice coordenou a confecção de um dossiê com gastos pessoais do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e da ex-primeira-dama Ruth Cardoso. O documento seria usado para chantagear políticos da oposição, em revanche às revelações de gastos de ministros de Lula feitas pela CPI dos Cartões Corporativos. Blindada, a número 2 da Casa Civil sequer foi citada na sindicância interna sobre o caso.

Ao deixar o cargo para disputar a Presidência, em 31 de março, Dilma indicou Erenice como sucessora. Lula deu aval – apesar dela nunca ter sido a preferência do presidente para a Casa Civil. Ele pretendia dar o cargo a Miriam Belchior, hoje coordenadora do Programa de Aceleração do Crescimento, mas foi convencido por Dilma Rousseff a indicar Erenice Guerra. Em seis meses surgiu o primeiro escândalo. A edição VEJA desta semana revelou um esquema de lobby e cobrança de propina chefiado pelo filho de Erenice, Israel Guerra, com conhecimento e anuência da ministra.

Família – Além de comandar o esquema, Israel é servidor comissionado da Terracap, empresa vinculada ao Governo do Distrito Federal. Apesar do salário de 6.800 reais, ele não costuma ser visto na empresa. Israel já ocupou cargos na Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) e no Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT).

O marido de Erenice, o engenheiro José Roberto Camargo Campos, também beneficiou-se da influência da ministra. Quando ela integrava o Conselho Administrativo da Eletronorte, em 2003, Campos foi contratado para prestar serviço à estatal. Recebeu, entre fevereiro de 2003 e junho de 2004, 120.000 reais.