Em sessão esvaziada, Graça Foster volta a isentar Dilma

Em depoimento à CPI da Petrobras no Senado, presidente da estatal diz que compra da refinaria Pasadena poderia ter sido barrada se conselho tivesse conhecimento das cláusulas do contrato

Em depoimento à CPI da Petrobras, no Senado, a presidente da estatal, Graça Foster, voltou a defender nesta terça-feira as transações da empresa e disse que, apesar das controvérsias em relação à compra da refinaria de Pasadena, no Texas, não havia registros de que o complexo de refino nos Estados Unidos fosse uma “sucata velha” ou que estivesse em conflito com os planos de expansão da empresa. À CPI – esvaziada pela ausência da maioria dos integrantes, tanto governistas quanto de oposição -, Foster voltou a eximir a presidente Dilma Rousseff de responsabilidades pela operação Pasadena.

Graça Foster afirmou ainda que “é possível” que o Conselho de Administração da petroleira não tivesse aprovado a compra da refinaria se tivesse recebido informações adequadas sobre as cláusulas Put Option e Marlim. A cláusula Marlim garantia à Astra Oil, sócia da Petrobras em Pasadena, uma lucratividade de 6,9% ao ano independentemente das condições de mercado, e a Put Option obrigava a empresa brasileira a comprar a outra metade da refinaria caso os dois grupos se desentendessem.

“Minha posição é que elas [as cláusulas] certamente, se apresentadas, demandariam uma boa discussão. Acho que é possível que sim [que a compra de Pasadena não tivesse acontecido], é possível que talvez não tivéssemos feito a aquisição”, disse. Para ela, o fato de os conselheiros não saberem a existência da Put Option, que obrigava a compra da parte da Astra em caso de desentendimento, impediu uma discussão mais aprofundada sobre a viabilidade da aquisição da refinaria no Texas. “Meu entendimento e percepção com centenas ou dezenas de páginas que li sobre Pasadena são de que era importante que se dissesse que ‘se uma coisa tivesse dado errado, tínhamos que ter comprado 100%’. Uma boa discussão, com certeza, teríamos tido”, afirmou. O discurso da presidente da petroleira é semelhante à versão da presidente Dilma, que afirmara que a compra da refinaria nos Estados Unidos “seguramente não” seria aprovada pelo conselho de administração se houvesse conhecimento das cláusulas.

Foster defendeu a aquisição de Pasadena na época da transação, mas disse que com a crise econômica mundial e a descoberta do pré-sal, no Brasil, os interesses da petroleira se alteraram e a refinaria no Texas deixou de ser vantajosa. De acordo com ela, depois de amargar prejuízo de mais de 1 bilhão de dólares, a Petrobras avalia Pasadena como “um negócio de baixo potencial de retorno de investimentos que foram adicionados na refinaria”.

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“A avaliação à luz da situação atual que vivemos hoje, é fato, e os números mostram, hoje não foi um bom negócio. Num futuro próximo é possível que haja melhorias, mas não seria feito novamente com as projeções e estratégias atuais. Hoje, sabedores da venda de uma refinaria do porte de Pasadena (…) a Petrobras não faria aquela aquisição porque definitivamente não seria prioridade”, explicou. Na Câmara dos Deputados, em depoimento anterior, Foster afirmara que a compra da refinaria era “potencialmente boa”.

Ao longo do depoimento, o relator da CPI José Pimentel (PT-CE) insistiu em questionar, por mais de uma vez, a presidente da Petrobras sobre uma possível má-fé da empresa Astra na parceria com a petroleira brasileira em Pasadena. Pimentel quis saber se a Astra, ao se oferecer como parceira da Petrobras, estaria “blefando” ou “especulando” sobre a viabilidade da transação para impor eventuais prejuízos a companhia brasileira. Para Foster, porém, não há elementos para comprovar a tese.

“Se [Pasadena] é uma sucata velha? A gente não encontra relatos da área de Abastecimento ou da área Internacional dizendo que essa refinaria é sucata velha ou obsoleta”, disse Graça. “Essa refinaria precisava de investimentos, como precisa. Aportamos em torno de 620 milhões de dólares, uma média de 85 milhões de dólares por anos. O investimento é pesado na indústria de petróleo.”

Abreu e Lima – Questionada sobre os custos astronômicos da refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco, que passou de 2,4 bilhões de dólares, previstos em projeções, para 18,5 bilhões de dólares, a presidente da estatal afirmou que “não é trivial” e “não é simples” aprovar aditivos na refinaria Abreu e Lima e disse que, ao contrário de Pasadena, a unidade em Pernambuco “agrega valor ao conjunto de nossas refinarias e, no conjunto, ela é positiva para a Petrobras”. A Abreu e Lima têm atualmente 43 contratos em execução.

Graça Foster disse que o ex-diretor de Abastecimento da Petrobras Paulo Roberto Costa “cumpria suas funções” como presidente do Conselho da refinaria. Para a Justiça, porém, há vastos indícios da participação criminosa de Costa na Abreu e Lima. A Justiça Federal do Paraná, por exemplo, aceitou denúncia contra Costa e outras nove pessoas pelo crime de lavagem de dinheiro e indícios de um amplo esquema de desvio de divisas envolvendo a refinaria entre os anos de 2009 e 2014. Segundo a Polícia Federal, Costa utilizava políticos e prestadores de serviços da Petrobras em um consórcio criminoso montado para fraudar contratos na estatal, ampliar sua fortuna e financiar políticos e partidos. Como a responsabilidade por aprovar projetos técnicos para construção de refinarias da petroleira e fiscalizar sua execução, ele próprio conduzia o esquema de desvio de recursos.

O depoimento de Graça Foster à CPI foi acompanhado pelo atual diretor de Abastecimento da estatal José Carlos Cosenza, sucessor de Costa no cargo. Durante a Operação Lava-Jato, a PF interceptou uma troca de mensagens entre o doleiro Alberto Youssef e o deputado federal Luiz Argôlo (SDD-BA) para supostamente agendar uma reunião entre Youssef e Cosenza. O diretor nega conhecer Youssef e diz que não manteve contato com Argôlo. Apesar da presença do executivo, o episódio não foi discutido na CPI e nenhum congressista questionou Graça Foster sobre as denúncias.

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