CPI: gerente da Petrobras foi punido ao denunciar fraudes

'O que foi feito é um crime de lesa-pátria', disse Fernando de Castro Sá aos parlamentares. Ele perdeu cargo ao elaborar dossiê sobre irregularidades

A CPI da Petrobras ouviu nesta terça-feira um ex-gerente jurídico da estatal que foi perseguido por denunciar irregularidades em contratos da empresa. Fernando de Castro Sá, que hoje é gerente de informação técnica da empresa, contou aos parlamentares que começou a notar os problemas ainda em 2005.

“O que foi feito pela Petrobras foi um crime de lesa-pátria”, disse ele, ao comentar o caso. Segundo Sá, havia uma ingerência da Associação Brasileira de Empresas de Engenharia Industrial (Abemi) na elaboração de contratos da petroleira. A entidade reúne empresas investigadas na Lava Jato e foi chefiada por Ricardo Pessoa, sócio da UTC e uma espécie de porta-voz do clube do bilhão.

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De acordo com o depoente, as empresas participavam da elaboração dos termos de contratos. “Fiquei assustado com o que eu vi. Havia participação de pessoas do jurídico (da Petrobras) em reuniões da Abemi”, afirmou. No mesmo período, houve uma mudança interna que reduziu a autonomia da área jurídica para elaborar pareceres sobre contratos. “Começou a pressão de que eu deveria ratificar alguns pareceres que eram dados para a área de Serviço”, explicou.

Fernando de Castro Sá também relatou um caso de pagamento por serviço não prestado. “Houve uma greve na refinaria de Duque de Caxias e fui consultado sobre efetuar um pagamento antecipado em serviços não realizados, porque com a greve a empresa estava com problemas de caixa”, afirmou. Ele explicou que o procedimento desrespeita a lei e as regras internas da empresa.

O gerente contou à CPI que elaborou um dossiê de 600 páginas sobre os problemas, mas, na hora de entregá-lo, em julho de 2009, foi informado de que estava afastado do cargo, por decisão tomada com a participação do então presidente da empresa José Sérgio Gabrielli. A notícia foi dada pelo outro gerente jurídico da estatal à época, Eduardo Jorge Albuquerque – inicialmente ele havia concordado com a elaboração do dossiê, mas depois se recusou a receber o documento.

Como é concursado, Fernando permaneceu nos quadros da empresa. Mas passou seis meses tendo de dar expediente sozinho em uma sala pequena, sem computador. Durante todo esse período, ele não recebeu nenhum trabalho para fazer. O salário foi cortado em mais de 50%. O gerente conta que, por causa da situação-limite, teve um infarto. De lá para cá, mesmo tendo sido alçado a outra gerência, ele ainda ocupa um cargo hierarquicamente inferior ao da época.

Sá também disse à CPI que, após a perseguição ter início, procurou o então diretor de Abastecimento, Paulo Roberto Costa, que lhe ofereceu um cargo na filial da empresa em Londres. A oferta foi recusada.