Costa, sobre desvios: ‘Responsabilidade é da diretoria da Petrobras’

Delator depôs nesta terça no Paraná e afirmou que a responsabilidade sobre o esquema criminoso instaurado na estatal não cabe apenas a ele e Renato Duque

O ex-diretor de Abastecimento da Petrobras Paulo Roberto Costa afirmou à Justiça Federal nesta terça feira que a responsabilidade sobre o esquema de corrupção ‘é da diretoria da Petrobras’. Ao falar sobre o esquema cartelizado de empreiteiras e situações que deram margem a desvios, Costa foi categórico. “Eu vejo na imprensa, às vezes, que toda responsabilidade é de Paulo Roberto Costa e de Renato Duque (ex-diretor de Serviços da estatal). Não é. A responsabilidade é da diretoria da Petrobras. Porque a Petrobras tem uma diretoria. A responsabilidade é da diretoria que aprovava isso tudo.”

Embora não tenha apresentado provas ou nomes, ele disse que ter “certeza absoluta” de que também eram desviados recursos de projetos das diretorias de Exploração e Produção e Gás e Energia. “No depoimento anterior, eu coloquei que não tinha conhecimento de outras áreas. Mas com certeza absoluta tinha na área de Exploração e

Produção, que era o maior orçamento. A área de Abastecimento é a ponta do iceberg. Não posso dizer que diretores de Gás e Energia eram participantes. Mas

isso tudo (licitações) era conduzido pela diretoria de Serviços desde 2003″, afirmou.

Paulo Roberto Costa está preso em regime domiciliar. Ele depôs nos processos da Operação Lava Jato contra executivos de empreiteiras, em que também é réu. Ele foi o primeiro delator do caso. Revelou repasses de porcentuais sobre contratos para partidos políticos e admitiu ter recebido valores desviados de contratos bilionários da Petrobras. Como delator, é obrigado a depor em todas as ações decorrentes da Lava Jato.

Desta vez, Costa teve de reiterar diversas acusações feitas em depoimentos de delação premiada. Confirmou conversas com executivos réus nos processos para tratar do pagamento de propina. Mas chegou a dizer que tentou interromper o funcionamento do cartel, porque as empresas estavam cobrando caro demais pelos serviços e estava difícil justificar tais orçamentos. Mas alegou que o esquema era como “areia movediça”.

“É como areia movediça. Você vai entrando e depois é quase impossível sair. Tive algumas reuniões com Odebrecht e UTC, dizendo que estava impossível continuar daquele jeito. E que eu ia fazer uma quebra do cartel, porque eu estava enojado com aquilo. Eles me falaram que eu ia quebrar a cara, porque eu ia contratar empresas que não iam dar conta do contrato”, afirmou Costa.

Em um trecho de seu novo depoimento, na Justiça Federal em Curitiba, base da Lava Jato, ele afirmou que as empreiteiras UTC Engenharia e Odebrecht lhe “apresentaram sistemática de cartel na Petrobras”. Segundo ele, representantes da Odebrecht e da UTC Engenharia “fizeram o primeiro contato do cartel de empreiteiras em sua área”.

“A partir da entrada de mais obras e mais empreendimentos essas empresas começaram a me procurar e eu tomei conhecimento com mais detalhe dessa sistemática do cartel dentro da Petrobras”, declarou Costa, ouvido em cinco processos criminais envolvendo as empreiteiras Camargo Corrêa, OAS, UTC, Galvão Engenharia, Mendes Júnior e Engevix. “Foi a partir do final de 2006, início de 2007, que eu tive mais aproximação e mais contato com essas empresas e fiquei conhecendo com mais detalhes esse processo todo, que eu não tinha conhecimento no início da minha gestão (2004), por não ter obra.”

Em suas delações, o ex-diretor confessou que recebeu 23 milhões de dólares na Suíça, por indicação dos executivos da Odebrecht. Neste depoimento, Costa chegou a dizer que todos os pagamentos de propina que recebeu no exterior foram ordenados pela Odebrecht. Ao ser indagado sobre sua nomeação para a Diretoria de Abastecimento da Petrobras, no início do primeiro governo Lula, o delator detalhou que foram os ex-deputados do PP José Janene (PR, morto em 2010) e Pedro Corrêa (PE, preso em Curitiba) que fizeram a primeira reunião para indicação de seu nome ao cargo. A negociação, segundo ele, durou quatro meses e foi aprovada não só pelo Ministério de Minas e Energia como pela Presidência da República.

Consultoria – Depois que saiu da Petrobras, Costa abriu uma consultoria, a Costa Global, que também serviu para disfarçar pagamentos de propina. Ele relatou que entre as principais empresas do cartel que fecharam contratos de consultoria para liberar parcelas de suborno atrasadas estavam Camargo Corrêa, Queiroz Galvão, Engevix e Iesa. “Foram fechados contratos com algumas empresas, como se fossem consultorias, para zerarem essas pendências. Eram compromissos assumidos anteriormente, mas podiam não honrar”, afirmou.

(Com Estadão Conteúdo)