Durante a campanha me chegaram várias histórias de que em algumas cidades os institutos estariam manipulando os resultados das pesquisas para favorecer um determinado candidato. Como nunca nada disso foi provado (e não é mesmo fácil), e acredito que algumas pesquisas podem mesmo errar, o mais prudente é não seguir esse caminho de argumentação.
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"Os institutos não estão preparados para lidar com os candidatos que crescem na última semana, as 'ondas de opinião'". |
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Contra essas especulações sobre a manipulação dos resultados só existe um antídoto: mais pesquisas, mais institutos. Quando diversas instituições apresentam seus resultados, fica logo patente quando o de um delas é muito diferente dos demais. Infelizmente, nestas eleições, na maioria das cidades, apenas um instituto divulgou os seus resultados. Mesmo nas maiores cidades as pesquisas divulgadas foram feitas por apenas dois institutos (Ibope e Datafolha).
A exemplo do que acontece nos Estados Unidos, talvez seja hora de os grupos de comunicação do país criarem os seus próprios institutos de pesquisa. Em resumo: o monopólio (ou duopólio) é péssimo para os eleitores. Precisamos de mais pesquisas divulgadas.
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Ao longo de toda a campanha chamei a atenção para o fato de que as pesquisas de opinião não foram feitas para acertar o percentual que cada candidato obterá nas urnas. Por isso, para avaliarmos o grau de precisão dos institutos precisamos comparar os resultados das urnas com os da última pesquisa publicada, levando em conta a margem de erro.
Uma análise cuidadosa leva tempo e deve incluir todas as cidades onde foram feitas pesquisas na última semana de campanha. Vou me concentrar aqui apenas na análise dos resultados de cinco grandes capitais, onde as eleições foram altamente competitivas: São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Salvador e Porto Alegre. Comparei os votos válidos (sem nulos e votos em branco) obtidos pelos candidatos com o resultado da última pesquisa feita pelo Ibope e Datafolha. Nas tabelas abaixo, os números em negrito indicam que o resultado está fora da margem de erro esperada (3 pontos percentuais no Ibope; 2 pontos percentuais no Datafolha).
Em São Paulo os dois institutos superdimensionaram a votação de Marta Suplicy e subestimaram a do prefeito Gilberto Kassab. Uma hipótese pouco provável é que Kassab tirou votos de Marta no dia da eleição. A outra hipótese, mais plausível, é a de que houve algum problema de campo, particularmente com a forte superestimação dos votos de Marta pelo Ibope; é interessante observar que o instituto errou a boca-de-urna na mesma direção, apontando que a candidata teria 36% dos votos válidos.
São Paulo: Comparação entre votos válidos
e última pesquisa Datafolha e Ibope
Candidato | Eleições | Datafolha (3-4 /10) | Ibope (2-4/10) |
| Kassab (DEM) | 33 | 30 | 30 |
| Marta Suplicy (PT) | 33 | 36 | 38 |
| Alckmin (PSDB) | 22 | 21 | 19 |
| Maluf (PP) | 6 | 7 | 7 |
| Soninha | 4 | 5 | 5 |
| Outros | 1 | 1 | 1 |
No Rio de Janeiro, o Datafolha e o Ibope erraram a votação final obtida por Fernando Gabeira. Uma parte do erro deve-se ao crescimento da "onda Gabeira" nos últimos dias da campanha.
Ao longo da campanha, Gabeira sempre apareceu na pesquisa Ibope abaixo do que aparecia na do Datafolha. Há duas semanas do pleito, Gabeira obteve 10% no Ibope e 15% no Datafolha. Mesmo na boca-de-urna, o Ibope subestimou a votação do candidato verde (23%). Observando erros apresentados pelo instituto em outras disputas, minha pergunta é: será que a amostra do Ibope na cidade do Rio de Janeiro não estaria subestimando os eleitores mais escolarizados?
Rio de Janeiro: Comparação entre votos
válidos e última pesquisa Datafolha e Ibope
Candidato | Eleições | Datafolha (3-4 /10) | Ibope (2-4/10) |
| Paes (PMDB) | 32 | 33 | 35 |
| Gabeira (PV) | 26 | 20 | 19 |
| Crivella (PRB) | 19 | 19 | 21 |
| Jandira (PCdoB) | 10 | 13 | 11 |
| Molon (PT) | 5 | 6 | 5 |
| Solange | 4 | 4 | 4 |
| Outros | 5 | 5 | 4 |
Em Belo Horizonte, os dois institutos subestimaram a votação obtida por Leonardo Quintão. Mas superestimaram a de candidatos diferentes: O Datafolha aumentou a do candidato Lacerda do PSB, enquanto o Ibope a da candidata Jô Moraes do PCdoB.
Para mim, a disputa em Belo Horizonte foi a mais surpreendente das capitais. Não conheço um analista que tenha dito no começo da campanha que Lacerda não venceria sem dificuldades já no primeiro turno. O erro acentuado em Belo Horizonte é mais uma evidência das dificuldades que os institutos estão tendo para lidar com as "ondas eleitorais", cada vez mais freqüentes nas eleições brasileiras.
Belo Horizonte: Comparação entre votos válidos
e última pesquisa Datafolha e Ibope
Candidato | Eleições | Datafolha (3-4 /10) | Ibope (2-4/10) |
| Lacerda (PSB) | 44 | 48 | 45 |
| Quintão (PMDB) | 41 | 35 | 36 |
| Jô Moraes (PCdoB) | 9 | 10 | 14 |
| Outros | 6 | 7 | 5 |
Em Salvador, os números do Ibope ficaram dentro da margem de erro, mas o resultado do Datafolha superestimou a votação de Imbassahy (PSDB) e apresentou o candidato Walter Pinheiro (PT) com apenas 24%, bem abaixo dos 30% a que ele chegou. Não tenho detalhes sobre a migração de votos, mas não creio que a transferência de votos tenha sido direta, do PT para o PSDB. O mais provável é que o Datafolha tenha tido problemas com o campo.
Salvador: Comparação entre votos válidos
e última pesquisa Datafolha e Ibope
Candidato | Eleições | Datafolha (3-4 /10) | Ibope (2-4/10) |
| João Henrique (PMDB) | 31 | 33 | 29 |
| Walter Pinheiro (PT) | 30 | 24 | 29 |
| ACM Neto (DEM) | 27 | 27 | 29 |
| Imbassahy (PSDB) | 8 | 11 | 9 |
| Outros | 4 | 5 | 4 |
Das cidades analisadas, Porto Alegre foi aquela em que os institutos tiveram a melhor performance. Os dois institutos só erraram a posição de um único candidato. No Datafolha o prefeito Fogaça apareceu em um patamar abaixo do que ele obteve nas urnas. Já o Ibope superestimou a votação da candidata comunista, Manuela D'ávila.
Porto Alegre: Comparação entre votos válidos
e última pesquisa Datafolha e Ibope
Candidato | Eleições | Datafolha (3-4 /10) | Ibope (2-4/10) |
| Fogaça (PPS) | 44 | 41 | 41 |
| Rosário (PT) | 23 | 21 | 21 |
| Manuela (PCdoB) | 15 | 17 | 21 |
| Luciana (PSOL) | 9 | 9 | 9 |
| Onyx (DEM) | 5 | 7 | 5 |
| Outros | 4 | 5 | 3 |
Como disse anteriormente, precisaríamos de um estudo mais amplo para avaliar com mais cuidado a performance dos institutos. Nos cinco municípios analisados o Datafolha errou pelo menos o desempenho de um dos candidatos. O Ibope errou em quatro cidades e acertou em Salvador. Creio que alguns desses erros devem-se a problemas metodológicos, tais como o desenho da amostra, tipo de quota, e dificuldade de acesso a certas áreas da cidade. O erro da pesquisa de boca-de-urna do Ibope no Rio e em São Paulo, ouvindo 6 mil eleitores, são claramente erros metodológicos.
Esses casos revelaram que os institutos não estão preparados para lidar com os candidatos que crescem na última semana, as "ondas de opinião". Como elas têm acontecido com muita freqüência, os institutos terão que repensar a forma de realizar as suas pesquisas, ou continuarão errando.
É um clichê dizer que as pesquisas são um termômetro da opinião pública. Mas, afinal, qual é a serventia de um termômetro que consegue captar a temperatura normal e não a das febres súbitas?