1. Lembre-se que os candidatos não têm necessariamente o valor exato que aparece na pesquisa.
Infelizmente, a forma como as pesquisas são publicadas nos induz a acreditar que os candidatos têm realmente o percentual exato ao apresentado. Não é coincidência que a metáfora predileta dos jornalistas e dos ilustradores seja a da competição esportiva, com os números da pesquisa indicando as posições de cada um. Podemos ler na manchete da Folha de S. Paulo de sábado: "Kassab 24%, abre 4 pontos sobre Alckmin". Ou na manchete de O Globo de domingo: "Gabeira passa Jandira e está em 3º".
As pesquisas de opinião não oferecem esse grau de precisão. Por isso, a margem de erro é tão importante. No lugar de dizer: "Marta Suplicy tem 37 %", o correto é dizer: "Marta Suplicy lidera em São Paulo, e se a eleição fosse hoje, provavelmente, chegaria com um percentual entre 34% e 41% dos votos". Sei que uma manchete dessa não venderia jornais.
Para os que gostam de acompanhar pesquisas, lembre-se que elas não foram feitas para acertar o resultado, mas apenas para oferecer um intervalo de percentuais, no qual o candidato deve estar.
2. Fique atento para a margem de erro divulgada. Ela varia segundo o percentual de cada candidato.
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"Existem fórmulas para calcular a margem de erro para cada candidato" |
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Um candidato que está com 40% não tem a mesma margem de erro do que um que está com 2%. Não faz muito sentido dizer que o primeiro esteja com mais ou menos 3 pontos percentuais (entre 37% e 43%) e o segundo também (entre 5% e abaixo de zero!). Existem fórmulas para calcular a margem de erro para cada candidato. Em uma pesquisa com 1 000 eleitores, um candidato com 40% tem margem de erro de 3 pontos, enquanto o que está com 2% tem margem de erro de 0.9 (está entre 1.1% e 2.9%).
Para tornar as coisas mais simples os institutos só publicam a margem de erro máxima, que deve ser utilizada para o candidato que lidera as pesquisas. Como você não terá acesso a margem de erro calculada para cada candidato, lembre-se apenas que ela vai diminuído conforme o percentual do candidato diminui.
3. Não esqueça que os institutos de pesquisa acertam. Mas também erram.
Os principais institutos de pesquisa brasileiros têm muitas histórias de sucesso. Mas por uma série de razões, as pesquisas podem dar errado: amostras mal desenhadas; problemas no campo; dificuldades de entrevistar pessoas de um certo tipo; facilidade de entrevistar pessoas de outro tipo.
Por conta desses erros, é comum que alguns candidatos estejam com percentual de votos subestimados, enquanto outros estejam inflados. Os erros tendem a aumentar em uma eleição tão volátil (em algumas cidades) como a deste ano.
4. Fique atento à data em que a pesquisa foi a campo.
Mais importante do que saber o dia em que a pesquisa foi publicada é saber o dia que ela foi realizada. Soube que em algumas cidades os candidatos têm divulgado na televisão pesquisas feitas há muitas semanas atrás, simplesmente porque lhes favorece.
Alguns institutos levam muitos dias para fazer as entrevistas. Um simples detalhe como esse pode influenciar o resultado final. Se o número de entrevistados for semelhante, prefira as pesquisas feitas mais próximas ao dia das eleições.
5. Use a pesquisa apenas como um elemento a mais da escolha eleitoral.
Conheço muita gente que orientou seu voto pelas pesquisas e depois se frustrou. Sobretudo, os que resolveram fazer o voto útil (abandonar o seu candidato do coração por outro com mais chances) e depois descobriram que o seu candidato original obteve votação muito superior à indicada nas pesquisa eleitorais.
As pesquisas apenas compõem o quadro geral da disputa. Leve isso em conta, mas não se prenda aos números como se fossem acontecer no dia das eleições. Por todas as razões enumeradas acima, melhor mesmo é votar em quem você considera o melhor candidato.
Ibope ou Datafolha? Pelo menos um dos
dois está errando no Rio
Os dois institutos publicaram pesquisas que foram a campo praticamente nos mesmos dias (Ibope: 23-25 de setembro; Datafolha: 25 e 26 de setembro) e ouviram número semelhante de eleitores (Ibope: 1 204; Datafolha: 1 184).
Como pode ser visto na tabela abaixo, os dados dos dois institutos são muito discrepantes:
Candidato | Datafolha (25-26/9) | Ibope (23-25/09) |
| Eduardo Paes (PMDB) | 29 | 29 |
| Marcelo Crivella (PRB) | 18 | 24 |
| Fernando Gabeira (PV) | 15 | 10 |
| Jandira Feghali (PCdoB) | 13 | 10 |
| Alessandro Molon (PT) | 5 | 2 |
| Solange Amaral (DEM) | 4 | 3 |
| Chico Alencar (Psol) | 3 | 3 |
| Outros | 2 | 1 |
| Branco-nulo/Não Sabe | 12 | 19 |
Diferenças tão intensas não podem ser explicadas pela margem de erro. A distância entre Eduardo Paes (PMDB) e Marcelo Crivella (PRB) é de cinco pontos no Ibope e de 11 pontos no Datafolha. A diferença de Crivella para Fernando Gabeira (PV) é de 14 pontos no Ibope e de apenas 3 pontos no Datafolha. O que será que aconteceu? Para os dirigentes dos dois institutos não existe nenhum problema metodológico com as suas pesquisas.
Vamos aguardar. Os dois institutos podem estar errados. Mas os dois não podem acertar ao mesmo tempo.
Angela M. H. Rangel - Caro professor Jairo,Gostaria de destacar dois pontos em seu texto: 1. o papel político da metáfora esportiva usada pelos jornalistas e 2. o fato de que as pesquisas não têm, como você honestamente aponta, o grau de precisão insinuado pelos institutos e consolidado nas falas dos jornalistas. Do meu ponto de vista, a metáfora cumpre a finalidade de destituir a Política (com P maiúsculo) do já tão despolitizado processo eleitoral. Quanto a inexistência do "grau de precisão", é de se supor que os pesquisadoras sabem disso. Eles sabem e manipulam as informações duplamente: com metáforas ao estilo pão e circo e com informações que podem induzir o eleitor a uma interpretação equivocada. Como sempre, você muito didático, aqui está para nos esclarecer. Gostaria mesmo é que o universo de seus leitores fosse ampliado e nisso a Veja está a nos dever.
Anderson Schwaab - Perfeito. É incrível como é complicado chegar aos vereadores eleitos. Acredito que a melhor forma ainda será, em um futuro próximo, o voto que cada um receber não "sera transmitido" para legenda e coligação. Acho injusto este tipo de sistema, mas é o que está posto.
Maurílio - É claro que o IBOPE está sendo tendensioso com relação ao candidato Crivella, deve ter suas razões, não republicanas.