Por que nada mudou na corrida eleitoral carioca, embora as manchetes tenham dito que sim?
A última pesquisa do Ibope feita na cidade do Rio de Janeiro foi divulgada no dia 15 de agosto. Os dados foram comparados com uma pesquisa anterior do mesmo instituto divulgada em 15 de julho. Os resultados mostram um aparente crescimento de Marcelo Crivella (PRB), que passou de 23% para 28% das intenções. Outro dado destacado foi o crescimento de Eduardo Paes (que teria passado de 8% para 12%) e o declínio de Jandira Feghali (de 14% para 11%). É claro que o candidato Crivella aproveitou para dizer que " o resultado da pesquisa se deve à generosidade do povo".
Em uma coluna anterior afirmei que as pesquisas por amostragem não permitem apontar o resultado exato de um candidato. Sabemos que a margem de erro máxima da pesquisa é de 3 pontos percentuais. Então, o correto seria dizer: Marcelo Crivella tem hoje algo entre 25% e 31% da preferência dos eleitores. Como a margem de erro da pesquisa de julho foi a mesma, o correto seria: "Crivella tinha algo entre 20% e 26% das preferências". Repare que existe uma interseção de alguns valores quando comparamos as duas pesquisas. O candidato do PRB poderia estar com 26% na pesquisa de julho e continuar com o mesmo patamar na pesquisa de agosto. Ou seja, tudo continuaria na mesma, com aparência de mudança.
O mesmo raciocínio deve ser aplicado para os outros candidatos. Estatisticamente não é possível falar com segurança que qualquer um deles tenha crescido ou declinado. Somente a próxima pesquisa do Ibope permitirá verificar de maneira mais segura a existência de qualquer tendência.
Além desse cuidado de observar os percentuais de uma pesquisa sempre levando em conta a margem de erro, não custa o eleitor se perguntar: Por que teriam acontecido mudanças tão acentuadas na preferência por um determinado candidato? No caso da cidade do Rio de Janeiro, creio que o que tenho visto se coadune com a interpretação dos resultados apresentada acima. Como não soube de evento importante que pudesse ter mudado a opção dos eleitores, prefiro acreditar que tudo deve estar na mesma.
A Pesquisa Vox/ AMB sobre corrupção e avaliação dos politicos
A Associação de Magistrados do Brasil (AMB) encomendou uma pesquisa ao Instituto Vox Populi com o intuito de investigar a opinião dos brasileiros sobre política, particularmente, a corrupção. A pesquisa ouviu 1502 pessoas (maiores de 16 anos), em todo território nacional, entre os dias 27 de junho e 6 de julho, e foi divulgada na semana passada. A margem de erro máxima é de 2,5 pontos percentuais.
Tive acesso ao relatório final, mas infelizmente não consegui obter o questionário. Para minha surpresa as entrevistas da pesquisa AMB/ Vox Populi foram feitas por telefone. Sempre temo pelos resultados de pesquisas telefônicas, que utilizam questionários longos e perguntas que exigem uma certa reflexão para serem respondidas. O que é o caso. Não é trivial atender o telefone e ter que responder a indagações como: O sr considera que as eleições no Brasil são limpas?"; "O sr. tem conhecimento da compra de votos?. Também não é banal ser submetido a uma lista de nove possíveis atividades de um vereador (de discutir projetos de lei a patrocinar festas de formatura) e ter que dizer se considera que: é obrigação do vereador realizar tal atividade; não é obrigação, mas deveria ser; não deveria fazer isso de jeito nenhum. E a seguir, ainda ser convidado a responder mais nove itens sobre as atividades dos prefeitos. Ufa!
É muito difícil extrair uma conclusão geral sobre o comportamento político dos brasileiros a partir da pesquisa AMB/Vox Populi. Mas uma busca rápida no Google mostra que os principais sites que divulgaram a pesquisa não tiveram a mesma dificuldade. A maioria deles preferiu enfatizar os três dados mais negativos da pesquisa: 85% dos entrevistados concorda que, de modo geral, a política é uma atividade que os políticos são beneficiados e não o povo; 82% concorda que os políticos eleitos durante a campanha não cumprem suas promessas; 52% discordam que as eleições no Brasil sejam feitas de maneira limpa, sem fraudes e tenham resultados confiáveis.
Para minha surpresa, encontrei no relatório uma série de respostas que mostram uma opinião menos sombria da política brasileira: 94% consideram que é importante conhecer a proposta do candidato no momento da escolha eleitoral; 94% consideram que é obrigação do vereador discutir projeto de lei; 89% consideram que não é certo receber ajuda de um candidato em troca de voto; 69% não conhecem casos de compra de voto; 72% conhecem a lei contra compra de votos.
O caso mais interessante é o da pergunta que avalia a obrigatoriedade de voto (se o voto não fosse obrigatório, o sr. (a) iria votar?). A maioria das reportagens sobre a pesquisa destacou o percentual dos que disseram que não iriam votar (38%), em vez de assinalar o número maior dos que disseram que iriam votar (61%). É interessante não esquecer que nas eleições realizadas recentemente o número de eleitores que não comparece para votar tem oscilado entre 15% e 20% dos inscritos.
Em resumo: os números da pesquisa AMB/Vox Populi mostram um quadro muito mais matizado do que o apresentado nas matérias da imprensa e dos sites de informação.
Uma pergunta, em particular talvez pudesse ser melhor explorada pela pesquisa. Os entrevistados foram questionados sobre o grau de concordância com seguinte afirmação: De modo geral, as eleições no Brasil são feitas de maneira limpa, sem fraudes e têm resultados confiáveis. Apenas 30% concordaram com a afirmação. Creio que melhor teria sido avaliar separadamente diferentes aspectos do processo eleitoral. Fiquei curioso para saber a opinião dos eleitores sobre a urna eletrônica, instrumento que deu cabo das fraudes no processo de votação e apuração. Também teria sido interessante ouvir a opinião dos eleitores sobre a Justiça Eleitoral, órgão que tem sido fundamental na regulação das eleições brasileiras. Só assim creio que teríamos um resultado mais completo do grau de confiança no processo eleitoral brasileiro.
Rogério - Olá professor. Poderia nos explicar o de fato aconteceu no estado de Alagoas, como o candidato João Lyra, vencendo em todas as pesquisas de opinião publica pede no primeiro turno. Denucncia que ouve fraude com as urnas eletronicas e em seguida retira a denuncia.
Conrado Duarte - Olá professor.Aprecio sua coluna. Você é "o cara" didático.Deveria dar aula para jornalista, âncora essa gente que 'pensa' que informa o povo. Não aguentam um minuto debatendo sério com gente como você.Bom, vamos ao que me interessa saber hoje: Eu acho que as pesquisas de opinião deveriam ser proibidas 20 dias antes das eleições, porque elas influenciam mal o eleitorado; e não concordo com o voto obrigatório. Em minha família, tem gente que viaja só para não votar, dependendo da ocasião. Eu queri
Angela MH Rangel - Caro Professor Jairo.O Sr. afirma que "a urna eletrônica deu cabo das fraudes no processo de votação e apuração". Poderia explicar, relembrando aos leitores, o que foi o caso PROCONSULT? Já existia urna eletrônica? Foi a urna ou a mídia que armou um golpe? Faço esta pergunta, pois tenho cá minhas dúvidas acerca da impossibilidade de fraude pelo uso da urna eletrônica. Quais são as democracias que adototam a urna eletrônica e se vangloriam de sua inefabilidade? Gostaria de uma explicação bem detalhada, como é seu estilo (raridade na mídia), sobre urna eletrônica e a tal segurança. Já assisti um filme italiano, lamento tanto não lembrar agora o nome, mas tratava exatamente de uma fraude com o uso de urnas eletrônicas. A fraude se dava no momento da transposição dos mapas para o computatos - algo mais ou menos assim.Grata pela sua resposta.
Angelica - Gostaria de prosseguir o debate sobre a obrigatoriedade do voto. Concordo que direitos não devem ser impostos, mas esta é uma premissa filosófica que precisa ser adequada ao mundo da vida. E isso significa ver como as democracias reais - e não as que ainda construiremos ou as que existem em nossas mentes - vivenciam a experiência do voto compulsório e do facultativo. O exemplo marcante é dos EUA, onde há claramente um viés de classe, que acaba por favorecer quem tem mais informação e controle da política. Uma democracia com resultados elitistas. Considero que votar é um aprendizado que começa no ato de comparecer 1 dia ou 2 a uma sessão eleitoral e observar o resultado disto por 4 anos. Depois repetir ou não o mesmo gesto, mantendo ou modificando nossas preferências originais. Acho mesmo que este direito é também um dever cívico de responsabilidade social e política.
Lysandra Kathleen - Meu argumento contras a obrigatoriedade do voto é muito simples. Se estamos numa domocracia o cidadão tem o direito de votar. Ora, se o voto é obrigatório, sai de sua condição de direito e passa a ser um dever. O ato de votar não deve ser imposto pela lei, sim, pela consciência de cada cidadão. Não adinata votar porque é obrigado, mas tem que ter consciência de que o que está sendo feito é importante. Além disso, as pessoas que realmente não querem votar, por alguma razão(como não acreditar que seu voto mudaria alguma coisa), acabam por votar em qualquer candidato(seja naquele que está ganhando nas pesquisas ou aqueles que tem músicas e slogans divertidos em suas campanhas), não ajudando na formação da sociedade em que vivem.
Angélica - Professor Jairo, permita-me enfatizar 2 aspectos comentados por ti: pesquisa por telefone. Como se garante uma amostra representativa neste caso? O indice de rejeição de abordagens deste tipo não seria maior do que em abordagens ao vivo? E a outra questão: enfatizar que "A maioria das reportagens sobre a pesquisa destacou o percentual dos que disseram que não iriam votar" não lhe parece uma estratégia indireta de defesa do voto facultativo, que é sem dúvida uma forma equivocada de defender a liberdade de expressão, já que a exeriência mostra que tal prática favorece os grupos dominantes em detrimento dos mais vulneráveis. Que lhe parece?