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 28 de outubro de 2008

Ao fim das eleições


Dia seguinte à eleição municipal é quase lei: abra um jornal e você encontrará um analista comentado como a disputa ajudou a montar o quebra-cabeça (ou jogo de xadrez, a metáfora varia) das próximas eleições gerais. Percorra o jornal mais um pouco e você vai se deparar com um inevitável quadro com a lista de vencedores e perdedores do pleito. O espírito é o mesmo: apontar para a disputa de 2010.

Desde 1996 aprendi a olhar esses prognósticos com um certo cuidado. Naquele ano, os então prefeitos do Rio de Janeiro, Cesar Maia, e de São Paulo, Paulo Maluf,  encabeçavam a lista de vitoriosos. Eles tinham eleito dois nomes absolutamente desconhecidos (Luiz Paulo Conde e Celso Pitta) como seus sucessores. Os prognósticos apontavam Maia e Maluf como nomes fortes na disputa presidencial de 1998. Mas a história não confirmou as previsões. Os prefeitos eleitos brigaram com os seus “padrinhos”; a emenda da reeleição aprovada em 1997 (não prevista pelos analistas de 1996) permitiu a recandidatura de Fernando Henrique Cardoso em 1998; Cesar Maia e Paulo Maluf acabaram concorrendo para governador em seus estados, sendo derrotados respectivamente por Anthony Garotinho e Mário Covas.

Dois anos representam um tempo muito longo na instável política partidária brasileira. E fatores externos freqüentemente afetam as previsões feitas na segunda-feira pós-eleitoral. Alguns desses podem ser imaginados (uma reforma política; os efeitos da crise econômica no próximo ano; os inevitáveis conflitos intra-partidários). Mas outros fatores são impossíveis de prever.

Correlação de Pearson

Para avaliar se a votação dos partidos na disputa municipal estava associada aos resultados de dois anos depois, fiz um teste estatístico (conhecido como correlação de Pearson), com dados de eleições anteriores. Para minha surpresa, descobri que a votação de Lula em 2006 tem correlação zero com a votação que o PT obteve para prefeito dois anos antes. A correlação dos votos do PSDB para prefeito e os votos de Alckmin em 2008 também são insignificantes.

As únicas associações estatísticas significativas foram encontradas nas eleições proporcionais. Existe uma correlação moderada entre os votos dos partidos para as Câmaras dos Vereadores e os votos destes para a Assembléia Legislativa e Câmara dos Deputados dois anos depois. Sabemos que os vereadores são fundamentais na rede de apoio montadas pelos candidatos a deputado federal e estadual. E os números  confirmam essa associação.

Uma observação das eleições para vereadores já oferece um primeiro indicativo da próxima Câmara dos Deputados. Se o padrão de eleições anteriores se repetir, podemos dizer que, independentemente de quem seja o próximo presidente, a câmara deve continuar tão (ou mais) fragmentada como a atual. Três partidos (PMDB, PSDB e PT) terão bancadas maiores (entre 60 e 100 deputados) e um grande número de partidos terá bancadas menores.

Os estilos no Rio de Janeiro

No dia da eleição resolvi dar uma volta de carro pela cidade do Rio de Janeiro. Foi o suficiente para perceber a convivência de diferentes “estilos” de campanha na cidade. Na Zona Sul (bairros próximos do litoral) e na Zona Norte (bairros próximos do estádio do Engenhão), ambos territórios majoritariamente de classe média,  pude observar a campanha silenciosa e sem cartazes. O único diferencial era o grande número de eleitores que atenderam ao apelo da campanha de Fernando Gabeira e foram votar usando roupas e adereços de cor verde. Quanto mais pobre a área da cidade, mais apareciam os “sinais explícitos” de campanha. No caso, a de Eduardo Paes. Cabos eleitorais pagos (me certifiquei com alguns) abanando bandeira com o número 15, dezenas de carros de som circulando, chão chacoalhado de panfletos, retratos do candidato em cada esquina. De um lado, a campanha eleitoral mais espontânea que a cidade já viu; de outro, uma das maiores máquinas  eleitorais já organizadas.

As campanhas eleitorais, nas maiores cidades, estão cada dia mais profissionalizadas. A receita é mais ou menos a seguinte:

- Contrate uma boa equipe de marketing (acho a palavra “marqueteiro” horrível) para preparar o programa de rádio e televisão;

- Contrate uma empresa para fazer o seu material de campanha (de preferência mantendo o mesmo padrão estético no material);

- Escolha uma pessoa de confiança para arrecadar o máximo de recursos que puder;

- Contrate um instituto para fazer pesquisas quantitativas e qualitativas;

- Contrate o maior número possível de cabos eleitorais que o dinheiro arrecado permitir. Eles deverão abanar bandeiras, dirigir carros de som, distribuir panfletos, procurar casas para afixar placas e segurar cartazes dos candidatos em pontos de grande movimento;

E os partidos? Os partidos, em geral, têm sido uma organização a mais a ser conectada nesta rede. Seus quadros (boa parte deles vivendo da política, como funcionários dos partidos, parlamentares ou assessores) acabam se integrando nas atividades de rua da campanha.

Existem denúncias que, em muitas campanhas, a esta estrutura é acrescida um conjunto de práticas ilegais: cabos eleitorais contratados para difundir boatos; produção de material apócrifo; uso de violência e intimidação; arrecadação ilegal de recursos; uso da máquina administrativa; compra de voto. Quem acompanha de perto as campanhas no Brasil, sabe que, infelizmente, muitas campanhas se utilizam mesmo desses recursos

As campanhas profissionais

Até meados dos anos do 1990, o PT ainda não havia se convertido ao estilo da campanha profissional. O partido arrecadava recursos de seus militantes e contava com grande adesão para o trabalho voluntário. As campanhas vitoriosas de Lula em 2002 e 2006 seguiram muito mais o padrão das campanhas profissionalizadas do que a feita pelo PT nos anos 80.

Desde a vitória do estilo das campanhas profissionais no Brasil não vejo algo tão surpreendente como a campanha de Fernando Gabeira. Três de suas decisões dificilmente serão seguidas por outros candidatos: não fazer nenhum ataque ao adversário; prometer não distribuir os postos de governo para os partidos que o apoiaram; não sujar a cidade com material de campanha.

Mas duas outras deveriam ser copiadas: a prestação de contas on-line e o uso intensivo da internet. O candidato divulgou, ao longo de toda a campanha, o nome dos doadores, os recursos recebidos e os gastos realizados. Em um país em que vários escândalos têm como origem o “caixa-dois” eleitoral, a prestação de contas on-line foi uma grande inovação.

A segunda novidade da campanha foi o uso intensivo da internet. No site do candidato foi possível assistir aos clipes transmitidos no Youtube, ler o programa, imprimir matéria de divulgação e contribuir com idéias para a cidade. Segundo dados divulgados semana passada, o site foi visitado por 1,5 milhões de pessoas durante a campanha.

Minha despedida

Com esse texto me despeço dos leitores de VEJA.com.  Para mim, que sou professor e escritor de textos acadêmicos, ocupar este espaço foi um desafio e tanto. Agradeço a todos que deixaram seus comentários. Procurei responder a diversas dúvidas, mas a exigüidade do tempo, não me permitiu a totalidade, como gostaria. Fico por aqui, deixando um abraço aos meus eventuais leitores e leitoras e meu agradecimento à equipe de VEJA.com, que cuidou muito bem deste espaço.



Por Jairo Nicolau - 09:00 | Enviar Comentário | Ler Comentários (8)

 22 de outubro de 2008

Os fatores que influenciam o voto dos eleitores


Para quem estuda eleições, o maior desafio é tentar responder a uma pergunta aparente simples: o que explica o voto dos eleitores? Todos os que se dedicam a fazer ou a estudar as campanhas eleitorais têm procurado responder a esta pergunta.

A cada momento de campanha sou procurado por jornalistas desejosos de saber se uma declaração, uma denúncia, uma pesquisa, um apoio influenciam a escolha dos eleitores.

"Minha desconfiança é que um reduzido contingente de eleitores decida seu voto baseado em pesquisas."
Existem muitos estudos sobre comportamento eleitoral no Brasil, mas ainda estamos longe de compreender as razões que levam os eleitores a preferirem certos candidatos em detrimento de outros. Acreditamos na influência de diversos fatores, mas precisamos de mais pesquisas para tentar responder algumas perguntas: Será que as diferenças sociais (renda, gênero, religião, lugar de moradia, escolaridade) influenciam na escolha? A ideologia e o partido ainda são importantes? A cobertura da mídia influencia? Como as "ondas eleitorais" se propagam? Os debates são decisivos?

Se pensarmos com cuidado veremos que tentar decifrar o "mistério da escolha eleitoral" não é mesmo um tarefa das mais simples. Milhões de pessoas escolhem um candidato em um determinado domingo de outubro. As razões apresentadas vão das mais prosaicas às mais sofisticadas. E cabe a nós, os analistas eleitorais, encontrar neste cipoal uma lista de possíveis fatores que influenciam o voto.

É impossível discutir aqui as principais teorias e modelos que buscaram explicar o voto nas democracias modernas. Minha tarefa será mais modesta. Apresento uma breve reflexão sobre a possível influência de apenas três fatores, que para muitos tem sido decisivos nas eleições brasileiras.

1. As pesquisas

Tenho recebido algumas mensagens sugerindo que a divulgação de pesquisas seja proibida Brasil. O argumento é que as pesquisas influenciariam negativamente os eleitores, sobretudo por conta do fenômeno conhecido como voto útil (os eleitores trocam o seu candidato, em má posição na disputa, por outro, melhor situado nas pesquisas). É bom lembrar que nas eleições municipais as pesquisas são publicadas com regularidade nas maiores cidades, mas em um número expressivo de cidades as pesquisas sequer são realizadas ou divulgadas.

Sabemos que as pesquisas influenciam os doadores de campanha, sabemos que elas afetam o moral dos candidatos e militantes, mas não sabemos o volume de eleitores que decidem seu voto baseado em pesquisas.

Minha desconfiança é que um reduzido contingente de eleitores decida seu voto baseado em pesquisas. Se tivesse que dar um palpite, diria que não mais do que 5%. Mas precisamos de estudos sobre o tema.

2. O horário eleitoral gratuito

No Brasil, os candidatos têm acesso ao mais generoso tempo de rádio e televisão do planeta. Hoje, os gastos mais expressivos dos candidatos estão associados à produção dos programas. Mas, afinal, os eleitores assistem ao horário? A propaganda tem sido decisiva para o eleitor?

É fundamental distinguir a propaganda em cadeia, que é divulgada duas vezes por dia, dos comerciais de 30 segundos divulgados no meio do horário regular de programação. O número de telespectadores e de ouvintes do programa em cadeia tem caído, comparativamente aos das campanhas das décadas de 1980 e 1990. Uma das razões é o crescimento de fontes alternativas de informação e lazer, tais como os canais a cabo e a internet.

Já os comerciais de 30 segundos são vistos e ouvidos por todos que estão conectados aos canais comerciais de rádio e televisão. Isto é, a grande maioria da população. Os comerciais têm se tornado a principal fonte de informação para os eleitores. Não conheço estudos sobre os efeitos dos comerciais, mas apostaria que hoje eles têm sido mais decisivos na campanha do que os programas em cadeia.

3. Os apoios

Um dos mitos desta eleição foi que o apoio do presidente Lula seria decisivo para os candidatos. Alguns candidatos da base governista quase se engalfinharam para obter o apoio presidencial. Ter sido apoiado pelo presidente pode ter dado alguns pontinhos extras para um ou outro candidato. Mas esteve longe de ter sido decisivo.

A razão é simples: as eleições municipais têm se organizado basicamente em torno dos temas locais, com diferentes contornos: a avaliação sobre um determinado prefeito (ou seu candidato); os tradicionais conflitos entre famílias e lideranças locais; a discussão dos problemas que afetam a cidade.

A escolha dos eleitores se dá basicamente tentando encontrar o nome mais adequado para enfrentar os desafios vividos por sua cidade. Por isso, a influência de atores externos à corrida eleitoral municipal (presidente, governadores, senadores, secretários estaduais, ministros) no voto, não tem sido, na maioria dos casos, decisiva.



Por Jairo Nicolau - 14:28 | Enviar Comentário | Ler Comentários (1)

 16 de outubro de 2008

Como avaliar quem saiu vencedor nas eleições municipais


Eleições municipais no Brasil têm sempre muitos vencedores e quase nunca perdedores. Contados os votos, os dirigentes partidários sempre arrumam um jeito de fazer com que sua legenda saia bem das urnas. E não é difícil que isso aconteça. Basta escolher a estatística eleitoral que lhe favoreça. As opções são diversas: número de prefeitos eleitos, votação para prefeito e número de vereadores eleitos. Sem contar nas diversas agregações por tipo de cidade: capitais; cidades com dois turnos; cidades acima de 150 mil habitantes.

"O melhor indicador para avaliar o poder dos partidos pelo país é a votação para vereador."

Se quisermos avaliar a força dos partidos pelo território nacional a simples contagem de prefeituras não é um bom caminho. A razão é simples: as cidades brasileiras variam significativamente em termos de população e importância política. Se somarmos a população dos 1 362 municípios brasileiros abaixo de 5 mil moradores chegaremos a 4,6 milhões. Menos do que a população da cidade do Rio de Janeiro (6,1 milhões). O que importa, então, sabermos quantas prefeituras um partido conquistou se não soubermos nada sobre a natureza dessas cidades?

Outro problema de considerar as prefeituras obtidas como critério é que em muitas cidades os partidos não apresentam candidatos próprios, preferindo apoiar o de outras legendas. O PT não apresentou candidato próprio em Belo Horizonte. O PSDB apoiou Gabeira no Rio de Janeiro e não apresentou candidato em Belo Horizonte. Os exemplos vão se multiplicando pelos 5 665 municípios brasileiros.

Por isso, o melhor indicador para avaliar o poder dos partidos pelo país é a votação para vereador. Se um partido tem um mínimo de organização em uma determinada cidade, ele apresenta pelo menos um candidato na disputa para a Câmara Municipal. O partido pode não lançar candidato à prefeitura, pode não participar de coligações, mas certamente concorrerá com pelo menos um nome à vereança. Por isso, quando somamos os milhares de esforços dos militantes dos partidos por todo o país temos um bom quadro da real inserção do partido.

A tabela abaixo apresenta a votação final obtida pelos principais partidos brasileiros na disputa para as Câmaras Municipais nas três eleições realizadas nesta década.


Percentual de votos para vereador:
eleições de 2000, 2004 e 2008

 

Partido
2000
2004
2008
PMDB
13,4
11,4
11,8
PT
9,4
10,7
10,3
PSDB
11,4
11,3
10,5
DEM
12,0
9,5
7,9
PP
9,2
7,5
7,1
PDT
6,8
6,3
6,6
PTB
8,0
7,0
6,2
PSB
4,2
4,6
5,9
PR
5,1
6,3
5,3
PPS
4,8
5,4
4,3
PV
1,3
3,0
3,9
PCdoB
0,7
1,3
2,1
Outros
13,7
15,7
18,1


Os números mostram que a votação dos partidos sofre pequenas alterações de uma eleição para outra. Nenhum dos partidos listados perdeu ou ganhou mais de três pontos percentuais entre duas eleições, o que revela uma grande estabilidade na política local, base que sustenta o sistema partidário.

Ao longo da década, os três principais partidos (PMDB, PT e PSDB) mantiveram-se relativamente estáveis. Alguns partidos tiveram pequenos crescimentos (PSB, PC do B e PV), enquanto outros tiveram pequenos decréscimos (PP, PTB, PR).

A mudança mais acentuada aconteceu com o DEM (antigo PFL). O partido era o segundo mais votado em 2000 e agora é o quarto. Seu encolhimento nesta eleição o afasta dos três maiores e o aproxima dos partidos médios. Em resumo: a nova sigla (DEM) não consegui deter a tendência de declínio já vivida pelo PFL.

Muitos analistas sempre buscam encontrar os abalos sísmicos produzidos por uma eleição: Quem ganhou? Quem perdeu? Que forças desapareceram? Que lideranças emergiram? Os dados acima mostram que, pelo menos no âmbito municipal, a metáfora do terremoto não é a mais apropriada. As eleições deste ano, mais uma vez, produziram apenas pequenos movimentos nas placas tectônicas do sistema partidário brasileiro.



Por Jairo Nicolau - 14:43 | Enviar Comentário | Ler Comentários (7)

 09 de outubro de 2008

As pesquisas de intenção de voto e os resultados das urnas

Durante a campanha me chegaram várias histórias de que em algumas cidades os institutos estariam manipulando os resultados das pesquisas para favorecer um determinado candidato. Como nunca nada disso foi provado (e não é mesmo fácil), e acredito que algumas pesquisas podem mesmo errar, o mais prudente é não seguir esse caminho de argumentação.

"Os institutos não
estão preparados para
lidar com os candidatos
que crescem na última
semana, as 'ondas
de opinião'".

Contra essas especulações sobre a manipulação dos resultados só existe um antídoto: mais pesquisas, mais institutos. Quando diversas instituições apresentam seus resultados, fica logo patente quando o de um delas é muito diferente dos demais. Infelizmente, nestas eleições, na maioria das cidades, apenas um instituto divulgou os seus resultados. Mesmo nas maiores cidades as pesquisas divulgadas foram feitas por apenas dois institutos (Ibope e Datafolha).

A exemplo do que acontece nos Estados Unidos, talvez seja hora de os grupos de comunicação do país criarem os seus próprios institutos de pesquisa. Em resumo: o monopólio (ou duopólio) é péssimo para os eleitores. Precisamos de mais pesquisas divulgadas.

* * *

Ao longo de toda a campanha chamei a atenção para o fato de que as pesquisas de opinião não foram feitas para acertar o percentual que cada candidato obterá nas urnas. Por isso, para avaliarmos o grau de precisão dos institutos precisamos comparar os resultados das urnas com os da última pesquisa publicada, levando em conta a margem de erro.

Uma análise cuidadosa leva tempo e deve incluir todas as cidades onde foram feitas pesquisas na última semana de campanha. Vou me concentrar aqui apenas na análise dos resultados de cinco grandes capitais, onde as eleições foram altamente competitivas: São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Salvador e Porto Alegre. Comparei os votos válidos (sem nulos e votos em branco) obtidos pelos candidatos com o resultado da última pesquisa feita pelo Ibope e Datafolha. Nas tabelas abaixo, os números em negrito indicam que o resultado está fora da margem de erro esperada (3 pontos percentuais no Ibope; 2 pontos percentuais no Datafolha).

Em São Paulo os dois institutos superdimensionaram a votação de Marta Suplicy e subestimaram a do prefeito Gilberto Kassab. Uma hipótese pouco provável é que Kassab tirou votos de Marta no dia da eleição. A outra hipótese, mais plausível, é a de que houve algum problema de campo, particularmente com a forte superestimação dos votos de Marta pelo Ibope; é interessante observar que o instituto errou a boca-de-urna na mesma direção, apontando que a candidata teria 36% dos votos válidos.


São Paulo: Comparação entre votos válidos
e última pesquisa Datafolha e Ibope

 

Candidato
Eleições
Datafolha (3-4 /10)
Ibope (2-4/10)
Kassab (DEM)
33
30
30
Marta Suplicy (PT)
33
36
38
Alckmin (PSDB)
22
21
19
Maluf (PP)
6
7
7
Soninha
4
5
5
Outros
1
1
1


No Rio de Janeiro, o Datafolha e o Ibope erraram a votação final obtida por Fernando Gabeira. Uma parte do erro deve-se ao crescimento da "onda Gabeira" nos últimos dias da campanha.

Ao longo da campanha, Gabeira sempre apareceu na pesquisa Ibope abaixo do que aparecia na do Datafolha. Há duas semanas do pleito, Gabeira obteve 10% no Ibope e 15% no Datafolha. Mesmo na boca-de-urna, o Ibope subestimou a votação do candidato verde (23%). Observando erros apresentados pelo instituto em outras disputas, minha pergunta é: será que a amostra do Ibope na cidade do Rio de Janeiro não estaria subestimando os eleitores mais escolarizados?


Rio de Janeiro: Comparação entre votos
válidos e última pesquisa Datafolha e Ibope

 

Candidato
Eleições
Datafolha (3-4 /10)
Ibope (2-4/10)
Paes (PMDB)
32
33
35
Gabeira (PV)
26
20
19
Crivella (PRB)
19
19
21
Jandira (PCdoB)
10
13
11
Molon (PT)
5
6
5
Solange
4
4
4
Outros
5
5
4


Em Belo Horizonte, os dois institutos subestimaram a votação obtida por Leonardo Quintão. Mas superestimaram a de candidatos diferentes: O Datafolha aumentou a do candidato Lacerda do PSB, enquanto o Ibope a da candidata Jô Moraes do PCdoB.

Para mim, a disputa em Belo Horizonte foi a mais surpreendente das capitais. Não conheço um analista que tenha dito no começo da campanha que Lacerda não venceria sem dificuldades já no primeiro turno. O erro acentuado em Belo Horizonte é mais uma evidência das dificuldades que os institutos estão tendo para lidar com as "ondas eleitorais", cada vez mais freqüentes nas eleições brasileiras.


Belo Horizonte: Comparação entre votos válidos
e última pesquisa Datafolha e Ibope

 

Candidato
Eleições
Datafolha (3-4 /10)
Ibope (2-4/10)
Lacerda (PSB)
44
48
45
Quintão (PMDB)
41
35
36
Jô Moraes (PCdoB)
9
10
14
Outros
6
7
5


Em Salvador, os números do Ibope ficaram dentro da margem de erro, mas o resultado do Datafolha superestimou a votação de Imbassahy (PSDB) e apresentou o candidato Walter Pinheiro (PT) com apenas 24%, bem abaixo dos 30% a que ele chegou. Não tenho detalhes sobre a migração de votos, mas não creio que a transferência de votos tenha sido direta, do PT para o PSDB. O mais provável é que o Datafolha tenha tido problemas com o campo.


Salvador: Comparação entre votos válidos
e última pesquisa Datafolha e Ibope

 

Candidato
Eleições
Datafolha (3-4 /10)
Ibope (2-4/10)
João Henrique (PMDB)
31
33
29
Walter Pinheiro (PT)
30
24
29
ACM Neto (DEM)
27
27
29
Imbassahy (PSDB)
8
11
9
Outros
4
5
4


Das cidades analisadas, Porto Alegre foi aquela em que os institutos tiveram a melhor performance. Os dois institutos só erraram a posição de um único candidato. No Datafolha o prefeito Fogaça apareceu em um patamar abaixo do que ele obteve nas urnas. Já o Ibope superestimou a votação da candidata comunista, Manuela D'ávila.


Porto Alegre: Comparação entre votos válidos
e última pesquisa Datafolha e Ibope

 

Candidato
Eleições
Datafolha (3-4 /10)
Ibope (2-4/10)
Fogaça (PPS)
44
41
41
Rosário (PT)
23
21
21
Manuela (PCdoB)
15
17
21
Luciana (PSOL)
9
9
9
Onyx (DEM)
5
7
5
Outros
4
5
3


Como disse anteriormente, precisaríamos de um estudo mais amplo para avaliar com mais cuidado a performance dos institutos. Nos cinco municípios analisados o Datafolha errou pelo menos o desempenho de um dos candidatos. O Ibope errou em quatro cidades e acertou em Salvador. Creio que alguns desses erros devem-se a problemas metodológicos, tais como o desenho da amostra, tipo de quota, e dificuldade de acesso a certas áreas da cidade. O erro da pesquisa de boca-de-urna do Ibope no Rio e em São Paulo, ouvindo 6 mil eleitores, são claramente erros metodológicos.

Esses casos revelaram que os institutos não estão preparados para lidar com os candidatos que crescem na última semana, as "ondas de opinião". Como elas têm acontecido com muita freqüência, os institutos terão que repensar a forma de realizar as suas pesquisas, ou continuarão errando.

É um clichê dizer que as pesquisas são um termômetro da opinião pública. Mas, afinal, qual é a serventia de um termômetro que consegue captar a temperatura normal e não a das febres súbitas?



Por Jairo Nicolau - 18:13 | Enviar Comentário | Ler Comentários (1)

 05 de outubro de 2008

Primeiras impressões dos resultados das eleições


As pesquisas e seus erros

Na próxima coluna vou analisar cuidadosamente os erros e acertos dos institutos de pesquisa nas principais cidades do Brasil. Mas uma rápida comparação entre as pesquisas publicadas no domingo da eleição e os resultados das urnas em algumas cidades já revela alguns erros dos institutos. Por exemplo, eles subestimaram a votação de Gabeira no Rio, de Kassab em São Paulo e Quintão em Belo Horizonte.

A justificativa dos institutos para esses erros é sempre a mesma. O trabalho de campo termina no sábado e, por isso, não é possível capturar as ondas eleitorais que acontecem entre sábado e domingo.

O problema é que como as ondas tem acontecido sempre nas grandes cidades, a última pesquisa tem sido uma péssima preditora do que vai acontecer nas urnas.

Precisamos lembrar os eleitores desses detalhes na próxima eleição.

A onda que se ergueu do mar

Falta ver o mapa da impressionante votação de Fernando Gabeira. Ao contrário dos comentaristas de televisão de outros estados imaginam, a votação de Gabeira não foi uma grande surpresa para os cariocas. Ele vinha subindo lentamente desde o começo do horário eleitoral gratuito. A onda começou da zona sul, área mais rica da cidade e se espraiou para os subúrbios da cidade. Sua votação entre os jovens foi impressionante.

O que Alckmin não entendeu

Todo mundo quer saber se 2008 ajuda a explicar 2010. Ninguém se perguntou se 2006 poderia explicar 2008. O candidato do PSDB em São Paulo aprendeu uma dura lição: no Brasil, cada eleição tem as suas circunstâncias. Dois anos depois de seu belo desempenho eleitoral na cidade de São Paulo, viu seus votos reduzirem-se a menos da metade.

Pouca gente lembra, mas o ex-governador Leonel Brizola concorreu a prefeito na cidade do Rio de Janeiro em 2000. Chegou em quarto lugar com apenas 9% dos votos.

A melancólica estréia do DEM

Depois de um resultado ruim nas eleições de 2004 e 2006, o PFL trocou de nome e renovou seus postos de comando. Decidiu apresentar candidatos no maior número de municípios possível. Ainda é cedo para um balanço minucioso do desempenho do partido. Excluindo a cidade de São Paulo, o desempenho do partido nas capitais foi bem abaixo do esperado. No Rio de Janeiro, a candidata do prefeito César Maia, Solange Amaral, chegou em sexto lugar com 4% dos votos. Em Salvador, Antonio Carlos Magalhães Neto ficou de fora do segundo turno. No Recife, Mendonça Filho perdeu já no primeiro turno. Em Belém e Porto Alegre, dois de seus jovens líderes chegaram muito mal.

O PFL vinha encolhendo eleição após eleição e a "reformatação" da legenda parece não ter revertido essa tendência.

A logística das eleições

Não me canso de dizer: os sistemas de votação e apuração inventados no Brasil são um sucesso. Não conheço nada do gênero em nenhum lugar do mundo. Mais de 100 milhões de brasileiros votando em nove horas (de 8h às 17h). Cinco horas depois, mais de 100 milhões de votos apurados.



Por Jairo Nicolau - 22:44 | Enviar Comentário | Ler Comentários (2)

 30 de setembro de 2008

Cinco dicas para acompanhar as pesquisas de opinião na última semana de campanha



1. Lembre-se que os candidatos não têm necessariamente o valor exato que aparece na pesquisa.

Infelizmente, a forma como as pesquisas são publicadas nos induz a acreditar que os candidatos têm realmente o percentual exato ao apresentado. Não é coincidência que a metáfora predileta dos jornalistas e dos ilustradores seja a da competição esportiva, com os números da pesquisa indicando as posições de cada um. Podemos ler na manchete da Folha de S. Paulo de sábado: "Kassab 24%, abre 4 pontos sobre Alckmin". Ou na manchete de O Globo de domingo: "Gabeira passa Jandira e está em 3º".

As pesquisas de opinião não oferecem esse grau de precisão. Por isso, a margem de erro é tão importante. No lugar de dizer: "Marta Suplicy tem 37 %", o correto é dizer: "Marta Suplicy lidera em São Paulo, e se a eleição fosse hoje, provavelmente, chegaria com um percentual entre 34% e 41% dos votos". Sei que uma manchete dessa não venderia jornais.

Para os que gostam de acompanhar pesquisas, lembre-se que elas não foram feitas para acertar o resultado, mas apenas para oferecer um intervalo de percentuais, no qual o candidato deve estar.


2. Fique atento para a margem de erro divulgada. Ela varia segundo o percentual de cada candidato.

"Existem fórmulas
para calcular a
margem de erro para
cada candidato"

Um candidato que está com 40% não tem a mesma margem de erro do que um que está com 2%. Não faz muito sentido dizer que o primeiro esteja com mais ou menos 3 pontos percentuais (entre 37% e 43%) e o segundo também (entre 5% e abaixo de zero!). Existem fórmulas para calcular a margem de erro para cada candidato. Em uma pesquisa com 1 000 eleitores, um candidato com 40% tem margem de erro de 3 pontos, enquanto o que está com 2% tem margem de erro de 0.9 (está entre 1.1% e 2.9%).

Para tornar as coisas mais simples os institutos só publicam a margem de erro máxima, que deve ser utilizada para o candidato que lidera as pesquisas. Como você não terá acesso a margem de erro calculada para cada candidato, lembre-se apenas que ela vai diminuído conforme o percentual do candidato diminui.


3. Não esqueça que os institutos de pesquisa acertam. Mas também erram.

Os principais institutos de pesquisa brasileiros têm muitas histórias de sucesso. Mas por uma série de razões, as pesquisas podem dar errado: amostras mal desenhadas; problemas no campo; dificuldades de entrevistar pessoas de um certo tipo; facilidade de entrevistar pessoas de outro tipo.

Por conta desses erros, é comum que alguns candidatos estejam com percentual de votos subestimados, enquanto outros estejam inflados. Os erros tendem a aumentar em uma eleição tão volátil (em algumas cidades) como a deste ano.


4. Fique atento à data em que a pesquisa foi a campo.

Mais importante do que saber o dia em que a pesquisa foi publicada é saber o dia que ela foi realizada. Soube que em algumas cidades os candidatos têm divulgado na televisão pesquisas feitas há muitas semanas atrás, simplesmente porque lhes favorece.

Alguns institutos levam muitos dias para fazer as entrevistas. Um simples detalhe como esse pode influenciar o resultado final. Se o número de entrevistados for semelhante, prefira as pesquisas feitas mais próximas ao dia das eleições.


5. Use a pesquisa apenas como um elemento a mais da escolha eleitoral.

Conheço muita gente que orientou seu voto pelas pesquisas e depois se frustrou. Sobretudo, os que resolveram fazer o voto útil (abandonar o seu candidato do coração por outro com mais chances) e depois descobriram que o seu candidato original obteve votação muito superior à indicada nas pesquisa eleitorais.

As pesquisas apenas compõem o quadro geral da disputa. Leve isso em conta, mas não se prenda aos números como se fossem acontecer no dia das eleições. Por todas as razões enumeradas acima, melhor mesmo é votar em quem você considera o melhor candidato.


Ibope ou Datafolha? Pelo menos um dos
dois está errando no Rio

Os dois institutos publicaram pesquisas que foram a campo praticamente nos mesmos dias (Ibope: 23-25 de setembro; Datafolha: 25 e 26 de setembro) e ouviram número semelhante de eleitores (Ibope: 1 204; Datafolha: 1 184).

Como pode ser visto na tabela abaixo, os dados dos dois institutos são muito discrepantes:

Candidato
Datafolha (25-26/9)
Ibope (23-25/09)
Eduardo Paes (PMDB)
29
29
Marcelo Crivella (PRB)
18
24
Fernando Gabeira (PV)
15
10
Jandira Feghali (PCdoB)
13
10
Alessandro Molon (PT)
5
2
Solange Amaral (DEM)

4

3

Chico Alencar (Psol)
3
3
Outros
2
1
Branco-nulo/Não Sabe
12
19



Diferenças tão intensas não podem ser explicadas pela margem de erro. A distância entre Eduardo Paes (PMDB) e Marcelo Crivella (PRB) é de cinco pontos no Ibope e de 11 pontos no Datafolha. A diferença de Crivella para Fernando Gabeira (PV) é de 14 pontos no Ibope e de apenas 3 pontos no Datafolha. O que será que aconteceu? Para os dirigentes dos dois institutos não existe nenhum problema metodológico com as suas pesquisas.

Vamos aguardar. Os dois institutos podem estar errados. Mas os dois não podem acertar ao mesmo tempo.



Por Jairo Nicolau - 14:49 | Enviar Comentário | Ler Comentários (3)

 23 de setembro de 2008

Como os vereadores são eleitos


Nos últimos dias fiz uma pesquisa informal. Perguntei a diferentes pessoas se elas sabiam qual era a regra utilizada para distribuir as cadeiras das Câmaras dos Vereadores entre os candidatos. Como existem bem mais candidatos do que vagas alguma norma há de ter para que alguns sejam eleitos e outros fiquem de fora. Nove entre dez pessoas disseram que os eleitos são aqueles candidatos mais votados (independentemente dos partidos ao qual pertencem) na cidade. Se uma Câmara tem nove vereadores, os nove mais votados se elegem.

"O que poucos eleitores sabem é que o sistema eleitoral utilizado nas eleições para Câmara dos Vereadores é o proporcional"

Meus respondentes se surpreendem quando digo que esta não é a regra. Mas por que será que quase todos eles imaginam que seja assim? Minha impressão é que a lógica das eleições majoritárias para cargos do Executivo (prefeitos, governadores e presidente) acaba contaminando a visão dos eleitores. Se durante a campanha os vereadores pedem votos para si como os prefeitos, se no momento de votação na urna eletrônica os eleitores quase sempre votam em dois nomes (o do vereador e do prefeito) e assistem a seus retratos aparecerem na tela, é natural que tenhamos a impressão que o sistema é semelhante: o candidato mais votado para prefeito fica com a vaga; os mais votados para a Câmara dos Vereadores são eleitos.

O que poucos eleitores sabem é que o sistema eleitoral utilizado nas eleições para Câmara dos Vereadores é o proporcional. Neste sistema o mais importante é saber quantos votos cada partido (ou coligação) recebeu. Por isso, os votos de todos os candidatos que disputam por um partido (ou coligação) são somados e a eles são ainda acrescentados os votos de legenda.

Abaixo apresento um exemplo para que os leitores possam aprender como são eleitos os vereadores. O processo costuma confundir mesmo os que acompanham a política de perto, como jornalistas e militantes partidários. Sei que até políticos experientes às vezes se perdem nos seus detalhes. Por isso, para os que não tiverem paciência e interesse para ir adiante, o mais importante é entender que:

• Se você anula ou vota em branco seu voto não tem nenhuma serventia na distribuição das cadeiras.

• Se você vota em um determinado candidato, este será somado ao de outros candidatos do mesmo partido (ou coligação).

• Se você vota na legenda, seu voto é somado aos votos dos candidatos que pertencem àquela legenda. Caso o partido esteja coligado, entram na conta os votos dos candidatos e o voto de legenda de outros partidos.

• Se o partido que você votou não atingir um mínimo de voto (o quociente eleitoral) ele não pode receber nenhuma cadeira.

• Você pode votar em um candidato que recebeu muitos votos e ele pode não se eleger; enquanto outro com muito menos votos é eleito. E vice-versa.


As contas para a eleição de um vereador

Vou tentar mostrar como a distribuição das cadeiras da Câmara dos Vereadores é feita a partir de um exemplo hipotético. Imagine uma cidade com 60.000 eleitores que elege 10 vereadores. Cinco partidos apresentaram candidatos a vereador e tiveram as seguintes votações: PMDB (16.000 votos), PT (14.000 votos), DEM (11.000 votos) PSDB (7.500 votos), e PTB (1.500 votos). O número de eleitores que não foram votar é de 6.000 e dos que deixaram os votos em branco ou anularam é de 4.000.

Vou apresentar os passos para se calcular as cadeiras de cada partido. Os leitores (as) que desejarem podem obter os resultados de eleições de outras cidades e tentar seguir o mesmo roteiro:

1. Retire dos eleitores inscritos, aqueles que faltaram (abstenção). No nosso exemplo, faltaram 6.000 pessoas. Assim, ficamos com 54.000 eleitores que compareceram.

2. Retire dos que compareceram, os que votaram em branco e anularam o voto. No nosso exemplo o total de pessoas que votaram em branco ou anularam foi de 4.000. Ficamos com 50.000 votos válidos.

3. Divida os votos válidos (50.000) pelo número de cadeiras da Câmara dos Vereadores (10) e encontre o quociente eleitoral: 5.000 votos.

4. Observe que se um partido não atinge o quociente eleitoral ele não pode receber nenhuma cadeira. No nosso exemplo, o PTB obteve 1.500 votos, então ele não elegerá nenhum vereador.

5. Divida o total de votos de cada partido pelo quociente eleitoral. O resultado indicará o número de vereadores que cada partido elegerá:

Partido
Votos/Quociente eleitoral
Cadeiras
PMDB
16.000/5.000 = 3,2
3
PT
14.000/5.000 = 2,8
2
DEM
11.000/5.000 = 2,2
2
PSDB
7.500/5.000 = 1,5
1


6.
Observe que após a divisão acima oito cadeiras foram alocadas para os partidos. Ficaram, portanto, faltando duas. Essas são distribuídas por um método bem complicado, conhecido como o de maiores médias: o total de votos de cada partido é dividido pelas cadeiras que ele obteve mais uma. Depois da divisão, os que ficarem com os maiores médias elegem a próxima cadeira:

Partido
Votos/Quociente eleitoral
Médias
PMDB
16.000/ 3+1
4.000*
PT
14.000/2+1
4.666 *
DEM
11.000/2+1
3.600
PSDB
7500/1+1
3.250

 

As duas maiores médias foram do PMDB e do PT, por isso estes dois partidos receberam as duas cadeiras restantes.

7. O número final de vereadores eleitos pelos partidos é o seguinte: PMDB (4); PT (3); DEM (2); PSDB (1).

8. Os candidatos mais votados de cada partido ocupam as vagas obtidas.



Por Jairo Nicolau - 14:46 | Enviar Comentário | Ler Comentários (19)

 16 de setembro de 2008

As bizarrices do horário eleitoral gratuito


Costumo afirmar que por dever de ofício, mas também por gosto, assisto quase todos os dias o horário eleitoral na televisão. Não tenho os números da audiência, nem conheço pesquisas que tenham avaliado a real influência dos programas sobre a decisão do eleitor. Nesta coluna gostaria de comentar, particularmente, o programa para as Câmaras Municipais, veiculados três dias da semana (terças, quintas e sábados). Comento o programa da cidade onde moro, o Rio de Janeiro, mas pela amostra de outras cidades, creio que o padrão seja semelhante.

Comecemos pelo formato. Com o grande número de políticos apresentados, não tem outro jeito: na melhor das hipóteses um candidato a vereador terá alguns poucos minutos de aparição ao longo dos vários dias do horário eleitoral. Mas a maioria  aparece brevemente. Uma aparição típica dura 10 segundos. Tempo para apresentar o nome, um bordão e o número.

Este formato tem servido para quê? Para quase nada. O único ponto favorável é permitir que os eleitores conheçam  os nomes dos que estão concorrendo. Nenhuma idéia decente, nenhum projeto de atuação legislativa cabe nestes segundos. Esse formato do horário eleitoral gratuito para vereadores (também para deputados estaduais e federais) está esgotado. Precisamos pensar um novo modelo que permita maior esclarecimento e debate. Talvez mostrar apenas a propaganda partidária, ou quem sabe a presença de um número reduzido candidatos que apresentassem idéias para atuação da bancada.

Quanto ao conteúdo, três aspectos têm me chamado a atenção. O primeiro,  já visto em campanhas anteriores, é a bizarrice. Não sei de onde os candidatos tiraram a idéia de que criar um tipo para se destacar da maré de nomes dá votos. Bordões ridículos, fantasias, objetos estranhos, tudo é utilizado para chamar a atenção do eleitor. Nesta campanha, o campeão é um sujeito que sai do fundo da cena para primeiro plano, aos urros, apresentando seu bordão/nome/número. Em conversas com jovens tenho ouvido uma crítica generalizada em relação à qualidade da elite política, a partir do exemplo destes tipos bizarros.

Outro aspecto que chama a atenção é o público-alvo dos discursos dos candidatos. Com raras exceções,  os discursos se dirigem a segmentos muito específicos da sociedade. Tradicionalmente ouvimos os candidatos mobilizarem a idéia da representação territorial.  O propósito é se eleger por uma determinada área da cidade e virar um defensor dos interesses desta área na Câmara e junto à Prefeitura. A esses se somavam os candidatos  de opinião (representando posições mais doutrinárias) e os representantes de algumas organizações - sobretudo profissionais e religiosas. Mas já há algum tempo temos visto crescer o número de candidatos que se propõe a representar segmentos cada vez mais particulares da sociedade. Nesta campanha já ouvi o candidato dos porteiros, dos motoristas de vã, das merendeiras, dos camelôs. A política local tem virado o território da particularidade, do pequeno interesse. Daqui a pouco vamos estranhar quando algum candidato falar em plano diretor, em programa de desenvolvimento da cidade, em fiscalizar as ações do Executivo.


Uma última observação tem a ver com o papel dos partidos. Em um programa inteiro ouvi menos de uma dúzia de candidatos destacarem o partido em seu discurso. O partido não desapareceu de vez, somente por que ele serve de marcação para avisar que um programa acabou e outro começará. Por outro lado, estamos assistindo o nascimento da numerologia eleitoral. Por conta da urna eletrônica, mais importante do que o partido (e em alguns casos do que os nomes) é preciso fixar o número dos candidatos.  Convido o leitor a um teste: veja no horário eleitoral (e nas ruas) o tamanho que o número do candidato aparece em comparação à sigla do partido.

As Câmaras Municipais têm sofrido com a concentração da atribuições legislativas no Executivo e com a perda de interesse da população e da mídia em acompanhar suas atividades. Claro que as causas do esvaziamento do Poder Legislativo municipal estão para além do formato do horário eleitoral. Mas, infelizmente, o que temos assistido na televisão não tem ajudado. A combinação do apelo ao bizarro, o hiper-particularismo e o esvaziamento dos partidos só têm servido para reforçar o desinteresse do eleitor e a avaliação negativa da elite política.



Por Jairo Nicolau - 12:57 | Enviar Comentário | Ler Comentários (6)

 09 de setembro de 2008

As três fases da campanha eleitoral


A campanha eleitoral no Brasil dura oficialmente três meses. Ao logo deste período, o interesse dos eleitores e dos meios de comunicação varia e os candidatos criam diferentes estratégias para suas campanhas. A partir da experiência de outras eleições, considero que as campanhas eleitorais para os cargos do Executivo possam ser divididas em três fases distintas.

A primeira fase vai do começo de julho, quando as candidaturas são oficializadas, até meados de agosto, quando começa o horário eleitoral no rádio e televisão. Nessa fase, que dura aproximadamente seis semanas, surgem os primeiros sinais de campanha de rua, mas o interesse dos eleitores e dos meios de comunicação pela disputa ainda é reduzido. Lembre que essa fase coincide, ora com a Copa do Mundo, ora com as Olímpíadas. As pesquisas feitas durante esse período apresentam altíssimo contingente de indecisos e tendem a favorecer os nomes de candidatos mais conhecidos do eleitor.

"Nas três últimas semanas, cresce significativamente o interesse dos eleitores pela disputa."
A segunda fase começa com a propaganda no rádio e televisão e vai até meados de setembro. É o momento que a campanha começa para valer nas maiores cidades. O horário eleitoral e os comerciais de 30 segundos durante a programação ampliam o conhecimento dos eleitores dos candidatos que estão na disputa. Nessa fase, os candidatos intensificam a propaganda de rua e o espaço da cobertura da campanha nos meios de comunicação é sensivelmente ampliado. Ao fim deste período, a maioria dos eleitores já têm conhecimento dos nomes que concorrem e o número de indecisos tendem a cair drasticamente. As pesquisas feitas no fim deste período já captam o padrão mais geral da disputa.

A última fase da campanha vai de meados de setembro ao dia das eleições. Nessas três últimas semanas, cresce significativamente o interesse dos eleitores pela disputa,. Esses passam a assistir com mais freqüência o horário eleitoral e aos eventuais debates entre os candidatos. Entre 20% e 30% dos eleitores costumam chegar a essa fase ainda indecisos (com maior concentração na população mais pobre e menos escolarizada). Por isso, ainda existe margem para as "surpresas" de última hora. Essa é sempre a esperança -- e na maior parte das vezes, a ilusão -- dos candidatos.

Creio que este esquema resuma, em linhas gerais, o padrão geral das campanhas para o Executivo no Brasil. Mas estou consciente da existência de diferenças de ritmos da política em cada uma das cidades. Uma fator fundamental que distingue as cidades é a existência de canais locais de televisão para veicularem o horário eleitoral. Outro é o tamanho da população. Em cidades pequenas os candidatos não tem a mesma dificuldade de se fazerem conhecer, e o papel da relações pessoais é bem maior.

Estamos nos aproximando do fim da segunda fase da campanha. Os resultados das pesquisas para algumas capitais aponta favoritos inequívocos, com alta probabilidade de vencerem já no primeiro turno. Por exemplo: Beto Richa (PSDB), em Curitiba; João da Costa (PT), no Recife; Marcio Lacerda (PSB), em Belo Horizonte. A disputa está aberta e deve ser emocionante em Salvador, São Paulo, Porto Alegre, Rio de Janeiro e Fortaleza. Em todas essas últimas o alto contingente de indecisos aumenta as chances de surpresas de última hora.

 

As eleições na cidade do Rio de Janeiro

Depois de olhar atentamente os dados das duas últimas pesquisas publicadas (Ibope e Datafolha) sobre a disputa no Rio de Janeiro, identifiquei alguns poucos padrões inequívocos:

* O crescimento de Eduardo Paes (PMDB). Na última pesquisa do Datafolha (4-5 de setembro) Paes obteve 25%. Na pesquisa Datafolha no começo da campanha (3-4 de julho) estava com 9 %.

Paes seguiu uma estratégia pouco usual atualmente. Os candidatos preferem concentrar seus recursos nas últimas semanas, mas Paes começou a campanha de maneira agressiva já no começo de julho. A cidade foi inundada por cartazes, cabos eleitorais e farta distribuição de material de campanha. Nas primeiras duas semanas deu a impressão que era candidato único. Com isso criou uma "onda" que foi reforçada pelo horário eleitoral. Com uma boa distribuição por todas as áreas da cidade, é hoje o candidato com mais chances de ir para o segundo turno.

* O declínio de Jandira Fegalli (PCdoB). A candidata aparece na terceira posição com 12% no Datafolha. Na pesquisa do começo da campanha estava com 17 %

O programa de televisão Jandira Fegalli tem sido muito criticado pelos especialistas. Pouco à vontade no vídeo, Fegalli parece estar fazendo uma campanha sem motivação e com apelo exclusivo para seus tradicionais eleitores. Em um certo momento, parecia que iria contar com o voto útil de outros candidatos de esquerda (Chico Alencar, do Psol, e Alexandre Molon, do PT). Minha impressão é que esse momento passou.

* O alto contingente de indecisos: Na pesquisa espontânea (melhor para avaliar o grau de indecisão dos eleitores) 47% dos entrevistados na última pesquisa Datafolha declararam-se indecisos. A pouco menos de um mês das eleições, este número está muito superior ao dos indecisos em outras cidade: 39% em Porto Alegre, 36% em Salvador, 33% em Recife, 28% em São Paulo e 18% em Belo Horizonte.

Este alto grau de indecisão pode produzir oscilações fortes nas preferências dos eleitores. Podemos ter um fim de campanha absolutamente emocionante na cidade.

 

Da surpresa de dois viajantes portugueses

Em visita ao Rio de Janeiro, dois amigos portugueses ficaram impressionados com o número de pessoas que passam o dia segurando os cartazes dos candidatos nas ruas. Ponderei que essas pessoas recebem pela tarefa. Mas eles não se convenceram que esta é uma boa forma de fazer campanha e disseram que não votariam em um candidato que usasse este artifício. Um caso a se pensar.



Por Jairo Nicolau - 14:41 | Enviar Comentário | Ler Comentários (10)

 03 de setembro de 2008

Os problemas da pesquisa por quota


Nos Estados Unidos e no Reino Unido -- países que têm a maior tradição de pesquisas de opinião -- as pesquisas eleitorais procuram ouvir o entrevistado em sua casa. O que é feito com uma visita domiciliar do entrevistador, ou por um contato via telefone.

Os institutos brasileiros preferem entrevistar as pessoas na rua. As razões alegadas são o custo e a dificuldade de acesso às casas. Uma pesquisa domiciliar custa pelo menos três vezes mais do que a feita na rua, pois o número de entrevistas realizadas por dia é bem menor e o custo de deslocamento até as residências também deve ser considerado. Outro desafio é conseguir ser recebido nas casas, sobretudo nas grandes cidades. Muitos entrevistadores relatam a dificuldade para fazerem suas entrevistas em áreas de alta renda, em condomínios fechados ou, na outra ponta, em comunidades de baixa renda.

"Os entrevistadores muitas vezes deixam de entrevistar pessoas que lhes pareçam hostis."
A questão fundamental é: onde entrevistar as pessoas que responderão à pesquisa? Esse é talvez o maior segredo dos institutos. Nenhum deles revela detalhes sobre o critério utilizado para selecionar as áreas da cidade onde as entrevistas serão feitas.

Embora existam alguns detalhes sobre como cada instituto escolhe seus entrevistados, alguns passos são comuns:

* A distribuição das entrevistas por diferentes áreas da cidade. Em geral, o percentual de entrevistas em cada área é proporcional ao tamanho da população desta área sobre a população total. Por exemplo; se 15% de paulistanos moram na zona leste, cerca de 15% das entrevistas acontecerão na zona leste.

* O sorteio de alguns pontos dentro de cada área para fazer essas entrevistas. Imagine, por exemplo, uma pesquisa com 1.000 entrevistas, 15% delas serão feitas na zona leste. Essas 150 entrevistas serão realizadas em diferentes bairros da região, que serão previamente sorteados.

* Os diferentes atributos dos entrevistados. Cada entrevistador do instituto faz um número reduzido de entrevistas por dia. Essas entrevistas são orientadas por critérios de quota previamente definidos. Um entrevistador que fará 20 entrevistas por dia tem que escolher seus entrevistados segundo certos critérios. Por exemplo, se a quota for por escolaridade: 12 mulheres (seis analfabetas ou com 1o grau completo; quatro com 2 o grau completo; duas com curso superior) e 8 homens (quatro analfabetos ou com 1º grau completo; três com 2 o grau completo; dois com curso superior completo).

A pesquisa por quota feita na rua pode gerar uma série de distorções. Uma delas tem a ver com o perfil das pessoas que circulam na rua em determinados horários e lugares. Pessoas com empregos formais têm mais chances de ser encontradas no começo da manhã e no fim do dia. Homens aposentados podem ser encontrados nos lugares públicos durante o dia com mais freqüência do que as aposentadas. As donas de casa talvez saiam em horários muito específicos do dia. Certos ofícios permitem que algumas pessoas transitem durante todo o dia na rua.

Os institutos sabem desse problema e, por isso, procuram fazer o campo em diferentes dias e horários. Mas, de qualquer modo, é impossível garantir que algum tipo de distorção não afete a pesquisa. Lembro de uma pesquisa para governador do estado do Rio de Janeiro em 1998, da qual fiz parte. Descobrimos que os entrevistadores estavam ouvindo um número desproporcionalmente alto de pessoas que trabalhavam na rua (ambulantes, camelôs, guardadores de carros). Como esses tinham uma clara predileção pelo candidato Anthony Garotinho, ele acabava sendo super-dimensionado na contagem final da pesquisa.

Outro problema grave da pesquisa por quota feita na rua, tem a ver com os fatores subjetivos que afetam a escolha dos entrevistados. Alguns estudos mostram que esta escolha não é aleatória. Os entrevistadores muitas vezes deixam de entrevistar pessoas que lhes pareçam hostis. Por outro lado, eles podem preferir ouvir pessoas com as quais sintam algum tipo de afinidade (social, de gênero, etária). No agregado, essas decisões dos entrevistadores podem acabar comprometendo o resultado final da pesquisa.

A definição das quotas, os "pontos" onde as pessoas serão entrevistadas, o horário das entrevistas, a disposição e os preconceitos do entrevistador podem ter um impacto significativo sobre o resultado de uma pesquisa. Ainda não temos estudos para dimensionar esses efeitos no Brasil. Mas minha aposta é que boa parte dos "erros" dos institutos estão associados a problemas inerentes à pesquisa por quota feita na rua.



Por Jairo Nicolau - 15:46 | Enviar Comentário | Ler Comentários (5)

 26 de agosto de 2008

Como são feitas as pesquisas de opinião no Brasil


Existem muitos institutos de pesquisa de opinião no Brasil. A maioria deles tem abrangência apenas regional. Três organizações se destacam por fazerem pesquisas regulares em todo o pais: Ibope, Datafolha e Vox Populi. Muitos leitores têm pedido para eu apresentar mais detalhes sobre como estes institutos fazem suas pesquisas. É o que pretendo fazer nesta e na próxima coluna. Existem algumas perguntas fundamentais que devemos responder para entender melhor como as pesquisas funcionam.

Quantas pessoas foram entrevistadas?

"A redução da margem de erro não cresce de maneira linear à medida que a amostra aumenta."
Os institutos de pesquisa brasileiros costumam entrevistar entre 600 e 1500 pessoas em cada pesquisa eleitoral. Em outras colunas já discuti as premissas da pesquisa amostral, assinalando que com este número de entrevistas é possível apresentar, com razoável precisão, um intervalo percentual onde cada candidato deve estar localizado em cada pesquisa. Sabemos, por exemplo, que Marta Suplicy tem, segundo a última pesquisa do Datafolha, entre 38% e 44% das preferências. A candidata do PT apareceu na pesquisa com 41% (com margem de erro de 3 pontos percentuais).

Aprendemos com os estatísticos que quanto maior a amostra, menor será a margem de erro. Então por que os institutos não entrevistam muito mais pessoas, do que as 100/1500 que eles sempre entrevistam?

Repare o quadro abaixo com a margem de erro máxima para diferentes tamanhos de amostra. Veja que a redução da margem de erro não cresce de maneira linear à medida que a amostra aumenta. Quando entrevistamos apenas 100 pessoas temos uma margem de erro de 10 pontos. Aumentar a amostra para 400 pessoas significa reduzir a margem de erro à metade, para 5 pontos. Mas aos poucos é necessário aumentar muito a amostra para reduzir a margem de erro. Para ela passar de 1.8 para 1 ponto percentual, precisaríamos ouvir mais 7 mil pessoas!

 

Tamanho da Amostra (Número de Entrevistas)

Margem de Erro em Pontos Percentuais

100

10

200

7

400

5

1000

3

2000

1,8

3000

2,2

5000

1,4

7000

1,2

10000

1

Este processo tem um efeito óbvio sobre os institutos de pesquisa. Eles perceberam que fazer cerca de 1000 entrevistas garante uma razoável precisão, sem tornar a pesquisa inviável economicamente. E esta equação levou os institutos de pesquisa de todo o mundo trabalharem, quase sempre, com amostras que variam entre 1000 e 1.500 . Pesquise na internet o número de entrevistados nas pesquisas eleitorais feitas nos Estados Unidos e verá que isso é verdade.

 

A pesquisa é aleatória ou por quota?

Um passo fundamental é saber onde encontrar as 1000 pessoas que responderão ao questionário. Digamos que esteja fazendo uma pesquisa na cidade de São Paulo. Para facilitar as coisas, peço aos meus entrevistadores para irem em um domingo (ensolarado) ao Parque do Ibirapuera para entrevistar 1000 pessoas, entre as milhares que passeiam por lá. Mas será que essa amostra é representativa dos paulistanos? Provavelmente não. Talvez uma parte expressiva de jovens não freqüentem o parque. Talvez pessoas mais velhas prefiram ficar em casa no domingo. Provavelmente pessoas de determinados bairros prefiram ir em parques mais perto de sua casa.

Para os institutos é fundamental que a amostra seja realmente representativa da população, evitando qualquer tipo de viés. O melhor caminho para isso é selecionar os entrevistados de maneira totalmente aleatória. Assim, qualquer eleitor de uma determinada população tem chances iguais de ser escolhido.

Nos Estados Unidos, os institutos consideram que a melhor maneira de garantir a aleatoriedade é ouvir as pessoas na casa delas. Até os anos 1980, os entrevistadores iam pessoalmente às casas sorteadas para fazer suas perguntas. Mas atualmente, quase todas as pesquisas eleitorais são feitas por telefone. Cerca de 95% dos lares americanos têm pelo menos um telefone. Os institutos usam listas telefônicas para selecionar aleatoriamente quais casas serão sorteadas. O processo continua com o sorteio para saber qual morador da casa responderá às perguntas.

Os institutos brasileiros preferem utilizar a pesquisa por quota. O objetivo da pesquisa por quota é garantir que a amostra tenha a mesma proporção de alguns atributos encontrados na população. Em geral, os atributos considerados pelos institutos brasileiros são o lugar de moradia, a idade, o sexo, e a escolaridade. Imagine uma pesquisa com 1000 entrevistados em uma cidade com 52% de mulheres, e 18 % de pessoas com curso superior na população. A amostra da pesquisa, tentará garantir que sejam ouvidas 52% de mulheres (520 entrevistas) e 18% de pessoas com curso superior (180 entrevistas).

As entrevistas por quota são feitas quase sempre na rua. Cada entrevistador contratado pelo instituto de pesquisa recebe uma planilha com o perfil dos entrevistados que ele deve encontrar em uma certa área da cidade. Por exemplo: 10 homens com escolaridade baixa, 6 de escolaridade média e dois de escolaridade alta.

A pesquisa por quotas é muito criticada e praticamente não é mais utilizada nas pesquisas eleitorais feitas nos Estados Unidos, no Reino Unido e na maioria dos países europeus. Na próxima coluna veremos o porquê.

A última pesquisa Datafolha em oito capitais

O Instituto Datafolha publicou no fim de semana o resultado das pesquisa feitas nos dias 19 e 20 de agosto em oito capitais (São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Porto Alegre, Curitiba, Salvador, Recife e Fortaleza). Apesar das aparentes oscilações (algumas delas sempre viram manchetes imprecisas), podemos identificar poucas mudanças quando comparamos os dados, com os das pesquisas anteriores, que foram a campo há cerca de um mês.

  • Em Porto Alegre, Curitiba, Rio de Janeiro, Salvador e Fortaleza os candidatos oscilaram na margem de erro. Nada digno de nota.
  • Em São Paulo, Marta Suplicy (PT) e o prefeito Gilberto Kassab (DEM) oscilaram na margem de erro. Mas a queda de Geraldo Alckmin (PSDB) é inequívoca. Ela aconteceu para além da margem de erro. Pesquisas feitas nas próximas semanas revelarão se o ex-governador Alckmin tem um piso mínimo de votos que pode lhe garantir uma polarização com a candidata do PT, ou se sua presença no segundo turno pode estar ameaçada.
  • Em Recife, João Costa do PT, cresceu 15 pontos (de 22 para 37%). O candidato Cadoca (PSC) perdeu 9 pontos. Costa abriu boa distância de Mendonça Filho (PFL), que tem 26%, e liderava a pesquisa anterior.
  • Em Belo Horizonte aconteceu a mudança mais impressionante. Em um mês o candidato Marcio Lacerda (PSB) passou de 6% para 21% e passou a liderar a pesquisa. Já havia expectativa do crescimento de Lacerda, por conta do apoio do atual prefeito Fernado Pimentel e do governador Aécio Neves. A grande surpresa é a velocidade da subida.

 

 

 



Por Jairo Nicolau - 14:27 | Enviar Comentário | Ler Comentários (9)

 18 de agosto de 2008

As oscilações nas intenções de voto


Por que nada mudou na corrida eleitoral carioca, embora as manchetes tenham dito que sim?

A última pesquisa do Ibope feita na cidade do Rio de Janeiro foi divulgada no dia 15 de agosto. Os dados foram comparados com uma pesquisa anterior do mesmo instituto divulgada em 15 de julho. Os resultados mostram um aparente crescimento de Marcelo Crivella (PRB), que passou de 23% para 28% das intenções. Outro dado destacado foi o crescimento de Eduardo Paes (que teria passado de 8% para 12%) e o declínio de Jandira Feghali (de 14% para 11%). É claro que o candidato Crivella aproveitou para dizer que " o resultado da pesquisa se deve à generosidade do povo".

Em uma coluna anterior afirmei que as pesquisas por amostragem não permitem apontar o resultado exato de um candidato. Sabemos que a margem de erro máxima da pesquisa é de 3 pontos percentuais. Então, o correto seria dizer: Marcelo Crivella tem hoje algo entre 25% e 31% da preferência dos eleitores. Como a margem de erro da pesquisa de julho foi a mesma, o correto seria: "Crivella tinha algo entre 20% e 26% das preferências". Repare que existe uma interseção de alguns valores quando comparamos as duas pesquisas. O candidato do PRB poderia estar com 26% na pesquisa de julho e continuar com o mesmo patamar na pesquisa de agosto. Ou seja, tudo continuaria na mesma, com aparência de mudança.

O mesmo raciocínio deve ser aplicado para os outros candidatos. Estatisticamente não é possível falar com segurança que qualquer um deles tenha crescido ou declinado. Somente a próxima pesquisa do Ibope permitirá verificar de maneira mais segura a existência de qualquer tendência.

Além desse cuidado de observar os percentuais de uma pesquisa sempre levando em conta a margem de erro, não custa o eleitor se perguntar: Por que teriam acontecido mudanças tão acentuadas na preferência por um determinado candidato? No caso da cidade do Rio de Janeiro, creio que o que tenho visto se coadune com a interpretação dos resultados apresentada acima. Como não soube de evento importante que pudesse ter mudado a opção dos eleitores, prefiro acreditar que tudo deve estar na mesma.

 

 

A Pesquisa Vox/ AMB sobre corrupção e avaliação dos politicos

A Associação de Magistrados do Brasil (AMB) encomendou uma pesquisa ao Instituto Vox Populi com o intuito de investigar a opinião dos brasileiros sobre política, particularmente, a corrupção. A pesquisa ouviu 1502 pessoas (maiores de 16 anos), em todo território nacional, entre os dias 27 de junho e 6 de julho, e foi divulgada na semana passada. A margem de erro máxima é de 2,5 pontos percentuais.

Tive acesso ao relatório final, mas infelizmente não consegui obter o questionário. Para minha surpresa as entrevistas da pesquisa AMB/ Vox Populi foram feitas por telefone. Sempre temo pelos resultados de pesquisas telefônicas, que utilizam questionários longos e perguntas que exigem uma certa reflexão para serem respondidas. O que é o caso. Não é trivial atender o telefone e ter que responder a indagações como: O sr considera que as eleições no Brasil são limpas?"; "O sr. tem conhecimento da compra de votos?. Também não é banal ser submetido a uma lista de nove possíveis atividades de um vereador (de discutir projetos de lei a patrocinar festas de formatura) e ter que dizer se considera que: é obrigação do vereador realizar tal atividade; não é obrigação, mas deveria ser; não deveria fazer isso de jeito nenhum. E a seguir, ainda ser convidado a responder mais nove itens sobre as atividades dos prefeitos. Ufa!

É muito difícil extrair uma conclusão geral sobre o comportamento político dos brasileiros a partir da pesquisa AMB/Vox Populi. Mas uma busca rápida no Google mostra que os principais sites que divulgaram a pesquisa não tiveram a mesma dificuldade. A maioria deles preferiu enfatizar os três dados mais negativos da pesquisa: 85% dos entrevistados concorda que, de modo geral, a política é uma atividade que os políticos são beneficiados e não o povo; 82% concorda que os políticos eleitos durante a campanha não cumprem suas promessas; 52% discordam que as eleições no Brasil sejam feitas de maneira limpa, sem fraudes e tenham resultados confiáveis.

Para minha surpresa, encontrei no relatório uma série de respostas que mostram uma opinião menos sombria da política brasileira: 94% consideram que é importante conhecer a proposta do candidato no momento da escolha eleitoral; 94% consideram que é obrigação do vereador discutir projeto de lei; 89% consideram que não é certo receber ajuda de um candidato em troca de voto; 69% não conhecem casos de compra de voto; 72% conhecem a lei contra compra de votos.

O caso mais interessante é o da pergunta que avalia a obrigatoriedade de voto (se o voto não fosse obrigatório, o sr. (a) iria votar?). A maioria das reportagens sobre a pesquisa destacou o percentual dos que disseram que não iriam votar (38%), em vez de assinalar o número maior dos que disseram que iriam votar (61%). É interessante não esquecer que nas eleições realizadas recentemente o número de eleitores que não comparece para votar tem oscilado entre 15% e 20% dos inscritos.

Em resumo: os números da pesquisa AMB/Vox Populi mostram um quadro muito mais matizado do que o apresentado nas matérias da imprensa e dos sites de informação.

Uma pergunta, em particular talvez pudesse ser melhor explorada pela pesquisa. Os entrevistados foram questionados sobre o grau de concordância com seguinte afirmação: De modo geral, as eleições no Brasil são feitas de maneira limpa, sem fraudes e têm resultados confiáveis. Apenas 30% concordaram com a afirmação. Creio que melhor teria sido avaliar separadamente diferentes aspectos do processo eleitoral. Fiquei curioso para saber a opinião dos eleitores sobre a urna eletrônica, instrumento que deu cabo das fraudes no processo de votação e apuração. Também teria sido interessante ouvir a opinião dos eleitores sobre a Justiça Eleitoral, órgão que tem sido fundamental na regulação das eleições brasileiras. Só assim creio que teríamos um resultado mais completo do grau de confiança no processo eleitoral brasileiro.

 



Por Jairo Nicolau - 18:07 | Enviar Comentário | Ler Comentários (6)

 13 de agosto de 2008

É difícil prever vitória de deputados e vereadores


A partir da coluna de hoje vou tentar responder a algumas perguntas feitas pelos leitores.

O leitor Antônio José pergunta se o fato de candidatos terem votações concentradas não pode enviesar o resultado de uma pesquisa de opinião.

Em uma eleição para prefeito, os institutos procuram selecionar eleitores de diversas áreas de uma cidade. Claro que em uma determinada pesquisa, uma área importante pode não ter sido selecionada na amostra. Mas salvo por um grave problema de amostragem isso tende a não se repetir na pesquisa seguinte. Por isso é fundamental que o eleitor acompanhe a tendência revelada em uma série de pesquisas. E não se atenha aos dados de uma única delas.

Os exemplos que o leitor apresentou são de dois candidatos a deputado (um estadual e outro federal) do estado do Rio de Janeiro. Neste caso, as pesquisas servem pouco. Os institutos de pesquisa ainda não criaram uma metodologia eficiente para previsão dos resultados nas eleições proporcionais (deputados e vereadores). O grande número de candidatos, os diferentes padrões de votação no território e as complicações do sistema eleitoral (coligações, quociente eleitoral) tornam essa tarefa quase impossível.

Portanto, fique atento: não leve muito a sério pesquisas sobre possíveis composições das Câmaras Municipais e/ou as que listam os nomes dos prováveis eleitos.

- O leitor Flavio Fontenele questiona qual amostragem tem mais valor estatístico, a pesquisa estimulada ou espontânea.

Como mostrei na coluna anterior, em uma mesma pesquisa (que é feita por amostragem), uma pergunta pede aos eleitores que digam espontaneamente em quem pretendem votar. Outra apresenta um disco com o nome dos candidatos e pede aos eleitores que digam em qual deles pretendem votar. Portanto, estimulada e espontânea referem-se a questões da pesquisa e não à amostra. Por isso, para os resultados de cada uma das questões deve ser aplicada a mesma margem de erro que os institutos apresentam para a pesquisa.

Em resumo: as duas questões tem igual valor estatístico.



Por Jairo Nicolau - 14:25 | Enviar Comentário | Ler Comentários (3)

 12 de agosto de 2008

Pesquisas mostram que é alto índice de eleitores que não sabem em quem votar


 

Na semana que passou tive a oportunidade de andar por diferentes cidades do estado do Rio de Janeiro. Em todas elas, o meu olhar tentou encontrar "sinais aparentes" de campanha eleitoral. O que havia em comum era a presença de placas com fotos e números dos candidatos afixadas nas casas. Percebi que, quanto mais pobre a área, mais placas são encontradas. Na Comunidade da Maré, em frente à Linha Vermelha, aqui na cidade do Rio de Janeiro, algumas casas desapareceram atrás das placas. É sabido que em muitas áreas os moradores recebem dinheiro e outros benefícios para deixar que os candidatos coloquem suas propagandas. Observei também alguns carros de som circulando e uns poucos rapazes e moças segurando cartazes de candidatos em locais de maior circulação. Isso foi tudo que pude ver.

Não creio que esse cenário se repita em todo o Brasil. Provavelmente, a campanha eleitoral tem mobilizado muito mais cidadãos em outras cidades do que na meia dúzia por onde andei. Mas alguns fatores devem afetar o "padrão" das campanhas neste ano. O primeiro deles é que os novos artigos da lei eleitoral, aprovados em 2006, serão aplicados pela primeira vez nas eleições municipais. Estão proibidos a realização de showmícios, o uso de outdoor e a distribuição de brindes de campanha (camiseta, chaveiros, bonés e cestas básicas). Por isso, os sinais de campanha serão inevitavelmente menores do que em eleições anteriores. O segundo deles é a centralidade das Olimpíadas. Em que pese o calendário eleitoral brasileiro sempre coincidir com a Copa do Mundo e com as Olimpíadas, neste ano alguns canais resolveram dar uma cobertura mais detalhada às campanhas somente após o término dos jogos de Pequim. Um último fator é o começo do horário eleitoral gratuito no rádio e televisão. Nas pequenas cidades sem canais próprios, a campanha não mudará muito de estilo, mas naquelas com canais locais, o horário eleitoral é decisivo.

Por conta desses fatores, a campanha eleitoral nas grandes cidades deve "esquentar" mesmo apenas no começo de setembro. Mais ou menos a um mês do pleito. É interessante observar que as campanhas têm ficado mais curtas a cada ano. Em contraste ao que assistimos hoje, há duas décadas, nas primeiras eleições do ciclo democrático, a campanha eleitoral mobilizava os eleitores já nos primeiros meses do ano.

Este cenário nos faz olhar com cuidado os números das pesquisas eleitorais feitas atualmente. Os institutos de pesquisa têm como praxe fazer duas perguntas sobre a preferência dos eleitores na disputa para o Executivo. A primeira, chamada de espontânea, em geral, tem a seguinte formulação:

Em outubro deste ano, teremos eleições para prefeito e vereadores deste município. Em quem o(a) sr(a) votaria para prefeito de … se a eleição fosse hoje?

A seguir, o entrevistador, apresenta um disco com o nome dos candidatos e pergunta (questão estimulada):

Se a eleição para prefeito de… fosse hoje e os candidatos fossem estes, em quem o (a) sr (a) votaria?

Entre os analistas de pesquisa existe uma controvérsia sobre qual das duas perguntas, a espontânea ou estimulada, capta melhor a preferência dos eleitores. O fato é que no começo da campanha a distância entre as duas é muito acentuada, mas os números vão se aproximando à medida que vai chegando o dia das eleições.

Os números publicados nos gráficos apresentados nos jornais e na televisão são quase sempre os da pesquisa estimulada. Por isso, é sobre eles que os eleitores concentram sua atenção. Mas creio que vale a pena olhar mais cuidadosamente a evolução da pergunta espontânea. Atualmente, o percentual de eleitores que disseram não saber em quem votar na pergunta espontânea, em algumas das capitais onde os grandes institutos fizeram suas pesquisas, é muito alto, oscilando entre cerca de 30% e 80%. Os números apresentados pelo Ibope (margem de erro de 4 pontos percentuais) para algumas cidades pesquisadas nas últimas semanas são os seguintes: Salvador (31%); Fortaleza (52%) e Natal (60%). Os publicados pelas últimas pesquisas do Datafolha (margem de erro de 3 pontos percentuais) são: São Paulo (43%); Curitiba (46%); Recife (58%); Porto Alegre (61%); Rio de Janeiro (66%) e Belo Horizonte (79%).

Esses números tão altos talvez sejam um bom indicador do reduzido interesse que a campanha deste ano vem produzindo nos eleitores. Por isso não será surpresa se daqui a algumas semanas acontecerem intensas modificações nos resultados das pesquisas em algumas das cidades listadas acima. A conferir.



Por Jairo Nicolau - 14:21 | Enviar Comentário | Ler Comentários (8)

 05 de agosto de 2008

A pesquisa por amostra e a margem de erro


Desde a semana passada, muitos leitores solicitaram uma explicação mais detalhada sobre amostragem e margem de erro. Vou utilizar um exemplo bem simples para facilitar a explicação. Imagine uma piscina de bolinhas coloridas, dessas encontradas nas festas infantis. Agora imagine uma grande piscina com 100.000 bolinhas, das mais variadas cores. Imagine ainda que 30 % das bolinhas sejam amarelas. Digamos que um sujeito, desconfiado da eficácia das pesquisas por amostragem, faça o seguinte desafio a um estatístico: "Duvido que você consiga me dizer qual é o porcentual de bolinhas amarelas desta piscina". O estatístico aceita o desafio, mas responde: eu não posso apresentar o número correto de bolinhas amarelas, mas se retirar 1.000 bolinhas da piscina, posso oferecer um intervalo de porcentuais, que provavelmente conterá o porcentual correto da bolinhas. Desafio aceito, o estatístico retira aleatoriamente, com um balde, 1.000 bolinhas da piscina. Depois conta o total de bolinhas amarelas (310); ou seja, 31%. Depois de alguns cálculos, ele apresenta o seu veredicto: "Existem na piscina entre 27% e 33% de bolinhas amarelas".

O sujeito desconfiado do princípio da amostragem lança um novo desafio para o estatístico: "Agora duvido que você acerte o percentual de bolas amarelas em uma piscina olímpica com 5 milhões de bolinhas". O estatístico aceita novamente o desafio e, para surpresa geral, retira as mesmas 1.000 bolinhas, conta-as e encontra 29% de amarelas. Novamente, o número encontrado está no intervalo previsto (27% e 33%).

O cético e o estatístico

É importante lembrar que em nenhum momento o estatístico prometeu acertar o número preciso de bolas amarelas, mas sim apresentar "um intervalo de porcentuais, que provavelmente conteria o porcentual correto" conhecido para o total das 5 milhões de bolinhas. Esse intervalo é chamado de margem de erro. Uma das descobertas mais incríveis da história da matemática é a de que a margem de erro de uma pesquisa por amostra está associada ao tamanho da amostra e não ao da população total. Sabendo disso, o estatístico retirou as mesmas 1.000 bolinhas da piscina de 100.000 ou de 5 milhões de unidades. E os resultados bem aproximados das duas amostras devem ter convencido o cético da eficiência da pesquisa. Mas este continuou com uma dúvida: "E se aumentarmos a amostra não seremos capazes de reduzir a margem de erro?" A resposta é sim. Aumentar a amostra é garantir uma diminuição da margem de erro e aumentar a precisão da estimativa. Se 5.000 bolinhas fossem retiradas da piscina, por exemplo, a margem de erro cairia para cerca de 1 ponto percentual.

As pesquisas de opinião realizadas durante as campanhas eleitorais seguem o mesmo princípio. Os institutos entrevistam um número reduzido de indivíduos, perguntam a estes em quem vão votar. Os dados são apurados e apresentados: Fulano têm 42%, Beltrano, 38%, brancos, nulos e indecisos somam 20%. O tamanho da amostra (número de entrevistados) permite que institutos calculem a margem de erro máxima da pesquisa realizada.

O atraente e o correto

Por mais que as pesquisas sejam acompanhadas da margem de erro, acabamos nos concentrando no percentual que cada candidato recebe. Por exemplo, na última pesquisa do Datafolha feita no Rio de Janeiro (margem de erro máxima de 3 pontos), o candidato Marcelo Crivella (PRB) está com 24%. Essa é a informação que parece importar. Mas o que uma pesquisa amostral nos permite dizer é que existe uma altíssima probabilidade de que o candidato Crivella tenha hoje algo entre 21% e 27% dos votos. Sei que dito desta maneira as pesquisas parecem perder muito de seu encanto. Mas esta é a forma correta de interpretar os dados.

No parágrafo anterior falei de margem de erro máxima. Na realidade, para facilitar a comunicação com eleitores, os institutos apresentam uma margem de erro para toda a pesquisa. Mas a margem oscila segundo o percentual de votos do candidato. No quadro abaixo calculo a margem de erro dos candidatos da pesquisa Datafolha feita na cidade do Rio de Janeiro. O intervalo da última coluna provavelmente contém o porcentual de votos de cada candidato. Observe que por esses dados tanto Jandira Fegalli (PCdoB), como Eduardo Paes (PMDB) podem estar em segundo lugar. Quando isso acontece, os institutos costumam dizer que existe um empate técnico.

Quadro: Pesquisa Datafolha (23/24 julho) no Rio de Janeiro. Cálculo da Margem de Erro de cada candidato:

Candidato

Percentual

Margem
de Erro

Intervalo

Marcelo Crivella (PRB)

24

2,7

21,3 - 26,7

Jandira Fegalli (PCdoB)

16

2,4

13,6 - 18,4

Eduardo Paes (PMDB)

13

2,2

10,8 - 15,2

Fernando Gabeira (PV)

7

1,6

5,4 - 8,6

Solange Amaral (DEM)

5

1,4

3,6 - 6,4

Chico Alencar (PSOL)

3

1,1

1,9 - 4,1

Molon (PT)

2

0,9

1,1 - 2,9

Paulo Ramos (PDT)

2

0,9

1,1 - 2,9

Vinicius Cordeiro (PTdoB)

1

0,4

0,6 - 1,4

Indeciso

10

1,9

8,1 - 11,9

Brancos e Nulos

16

2,4

13,6 - 18,4

Na próxima coluna vamos falar sobre como os três maiores institutos de pesquisa do Brasil (Datafolha, Ibope e Vox Populli) fazem as suas pesquisa.



Por Jairo Nicolau - 13:27 | Enviar Comentário | Ler Comentários (8)

 29 de julho de 2008

Pesquisas eleitorais e sopa de legumes


É impossível pensar as atuais campanhas eleitorais sem as pesquisas de opinião. Pelo menos uma vez por semana, algum instituto apresenta novos dados sobre a corrida eleitoral. E esses números têm sido decisivos para a escolha do eleitor, para os correligionários dos candidatos e para os financiadores de campanha; afinal, concentrar doações para candidatos sem chances de vitória parece não ser uma decisão razoável.

A divulgação maciça de pesquisas tem gerado duas reações opostas. Para alguns, os números que são divulgados conquistam um status de verdade absoluta. Após saber dos dados, estes acreditam que se a eleição fosse hoje a candidata do PC do B em Belo Horizonte chegaria mesmo em primeiro com 20% dos votos, ou que a candidata do PT em São Paulo venceria o primeiro turno com 34 % dos votos.

A outra atitude é a de enorme desconfiança das pesquisas. Seja com relação aos métodos utilizados, seja com as possíveis manipulações dos resultados. A desconfiança com o princípio da amostragem que guia a pesquisa de opinião é clássica: como entrevistando 1000 eleitores posso acertar o voto de milhões? Os rumores sobre manipulação dos dados pelos institutos (e até pelos órgãos de imprensa) são sempre repetidos, mas até hoje nunca comprovados.

Esta coluna tentará ajudar o eleitor a olhar mais cuidadosamente as pesquisas de opinião. Além da análise do significado político dos números que serão divulgados nos próximos meses, meu propósito é responder uma série de perguntas, que sei, atormentam alguns cidadãos: O que é margem de erro? Como os institutos brasileiros fazem as suas pesquisas? O que é um empate técnico? É possível confiar nos resultados de uma pesquisa que ouviu um numero tão reduzido de eleitores?

Amostra representativa

Não é uma tarefa simples convencer alguém de que o tamanho da amostra de uma pesquisa não tem nada que ver com o tamanho da população a ser pesquisada. Como é possível que um instituto entreviste 1.000 pessoas na cidade do Rio de Janeiro, que tem cerca de 4,6 milhões de eleitores, e faça as mesmas 1.000 entrevistas em Niterói, que tem 354.000 eleitores? No Rio de Janeiro cada entrevistado representa 4.600 eleitores, enquanto em Niterói representa 354. Não parece mesmo fazer muito sentido. Mas faz.

A inexistência de relação entre o tamanho da amostra e o tamanho da população já foi comprovada por rigorosos testes estatísticos. Uma imagem culinária pode-nos ajudar a entender o princípio que guia as pesquisas por amostra. Imagine um cozinheiro de um restaurante que prepara uma sopa de legumes. Ele precisa apenas provar uma ou duas colheres para perceber se a sopa está ou não no ponto, independentemente do tamanho da vasilha em que a sopa está sendo preparada. Como veremos, as pesquisas de opinião são sujeitas a uma série de erros, e isso pode comprometer os seus resultados. É como se o nosso cozinheiro acrescentasse sal, e tirasse uma prova da sopa sem antes ter mexido a panela. Ou se usasse uma pequena colher incapaz de conter todos os legumes utilizados na sopa.

As eleições americanas de 1936 ilustram bem os tipos de erros e acertos que podem ser cometidos em pesquisas eleitorais. Naquele ano o presidente democrata Franklin Roosevelt concorria à reeleição, contra Alf Landon, candidato republicano. Uma revista, a Literary Digest, era famosa por acertar o resultado de todas as disputas presidenciais desde 1916. Em 1936 a revista enviou por correio mais de 10 milhões de cédulas para as residências americanas, e recebeu de volta 2,4 milhões de respostas. O resultado da pesquisa era inquestionável: vitória de Landon por 57% contra 43% de Roosevelt. Na realidade, Roosevelt saiu vitorioso com 62% dos votos, contra 38%.

Por que Literary Digest errou desta maneira, justamente quando conseguiu realizar a maior pesquisa de opinião já feita até então? O problema é que as respostas obtidas pela revista não eram representativas do eleitorado americano. A lista de 10 milhões de nomes foi organizada a partir da listagem dos proprietários de telefone (na época apenas um em cada quatro americanos tinha telefone), membros de clubes e portadores de carteira de motorista (também um luxo). Ou seja, a listagem representava, sobretudo, os segmentos mais abastados da sociedade americana, eleitores de Alf Landon.

No mesmo ano, um jovem chamado George Gallup utilizou uma amostra bem menor (50.000 eleitores) e previu que Roosevelt receberia 56% e Landon 44%. Diferentemente da pesquisa da Literary Digest, Gallup utilizou uma amostra representativa do eleitorado americano. Talvez não seja coincidência que a revista tenha encerrado suas atividades alguns meses depois, e o Gallup Institute tenha se tornado a mais prestigiosa empresa de pesquisa dos Estados Unidos. Desde então as pesquisas feitas no país tornaram-se cada vez mais sofisticadas e precisas. Para se ter uma idéia, os erros do Instituto Gallup nas três últimas eleições presidenciais americanas foi de no máximo 2,8 pontos percentuais.



Por Jairo Nicolau - 18:11 | Enviar Comentário | Ler Comentários (19)
 
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