Agora é oficial: o Brasil tem ‘Hino à Negritude’

Após 48 anos de tentativas, lei sancionada pela presidente Dilma Rousseff manda hino ser tocado em todas as 'solenidades dirigidas à raça negra'

O Brasil ganhou nesta quinta-feira um novo hino, por incrível que pareça. A partir de agora, todos os eventos voltados aos negros no país, como um congresso para discutir questões raciais ou um festival de cultura afro, terão obrigatoriamente que começar com a execução do Hino à Negritude, uma composição com mais de 70 anos de idade assinada por Eduardo de Oliveira, militante histórico do movimento negro no Brasil e primeiro vereador negro de São Paulo.

A lei que oficializa o hino e determina que seja “entoado em todas as solenidades dirigidas à raça negra” foi publicada no Diário Oficial da União desta quinta, após sanção da presidente Dilma Rousseff. A medida foi muito comemorada por setores do governo ligados ao movimento negro. A ministra da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, Luiza Bairros, declarou que o hino “marca a participação dos negros na construção da história brasileira”.

O autor do projeto no Congresso Nacional, o deputado Vicentinho (PT-SP), não fez questão de mostrar sobriedade. Para ele, conforme destacou o site da bancada no PT na Câmara, “este é um momento histórico para todo o país celebrar, já que o hino, mesmo escrito há mais de 70 anos, é atual”.

A institucionalização do Hino à Negritude foi conquistada depois de um longo trajeto: foram cinco projetos de lei e 48 anos de espera. A proposta de oficializar a composição em todo o território nacional foi apresentada ao Congresso pela primeira vez em 1966, pelo deputado federal Teófilo Ribeiro de Andrade Filho. Depois, em 1993, pelo deputado Nelson Salomé. Em 1997 foi a vez do deputado Marcelo Barbieri. Vicentinho tentou duas vezes, em 2007 e 2009, quando a proposta entrou finalmente na rota da aprovação, o que se consumou ano passado.

Reproduzindo o tom ufanista de muitos hinos nacionais, o Hino à Negritude evoca imagens épicas logo nas primeiras estrofes: “Sob o céu cor de anil das Américas / Hoje se ergue um soberbo perfil / É uma imagem de luz / Que, em verdade, traduz / A história do negro no Brasil / Este povo, em passadas intrépidas / Entre os povos valentes se impôs / Com a fúria dos leões / Rebentando grilhões / Aos tiranos se contrapôs”.

A letra também menciona Zumbi, o Quilombo dos Palmares e os orixás, e elogia a beleza da “tez cor de ébano”. Morto em 2012, aos 86 anos, o autor Eduardo de Oliveira não viveu para ver sua obra ganhar as páginas do Diário Oficial.