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Opinião: O golaço de Piqué em favor da Espanha e da Catalunha

Zagueiro do Barcelona convocou entrevista para apagar incêndio na seleção espanhola. E reiterou seu apoio a apenas um lado: o do diálogo

Esporte e política sempre caminharam lado a lado e na Espanha um jogador de futebol é protagonista no acalorado debate sobre a a reivindicação de a região da Catalunha se tornar independente. As declarações do zagueiro catalão Gerard Piqué, estrela do Barcelona e também da seleção espanhola, causaram tanta repercussão quanto às do rei Filipe VI ou do presidente Mariano Rajoy. Ao contrário dos políticos, Piqué não declarou se é a favor ou contra a separação, apenas defendeu um lado: o do diálogo. Com postura de diplomata de carreira, o jogador casado com a cantora colombiana Shakira convocou uma surpreendente entrevista para tentar apagar o incêndio na seleção espanhola.

“Quero que todos perguntem o que quiserem, ficaremos o tempo que for preciso, com paciência e tranquilidade”, anunciou Piqué, de 30 anos. Sem media training ou demagogia. Seu objetivo era acabar com a polarização da discussão, que incomoda seus companheiros. Há vários anos. Piqué é uma figura extremamente polêmica e jamais foi unanimidade entre os torcedores espanhóis, sobretudo pela forte rivalidade entre Real Madrid  e Barcelona. Desbocado, colecionou confusões com o maior rival e, em muitas vezes, passou do ponto. Sua postura política, porém, foi sempre coerente – concordem ou não com a independência catalã.

Piqué jamais negou seu compromisso com a seleção espanhola, a qual defende desde os 15 anos com enorme sucesso – venceu a Copa do Mundo de 2010 e a Euro de 2012. Também jamais escondeu seu orgulho em ser catalão. No último domingo, ele votou no referendo e registrou tudo no Twitter (que domina como poucos). “Votei. Juntos somos imbatíveis em defesa da democracia”, escreveu. Após jogo do Barcelona, chorou ao comentar a violência da Guarda Nacional durante a votação. E falou em deixar a seleção espanhola, caso fosse um “incômodo” para o grupo. Foi o suficiente para ser, novamente, questionado (e ofendido) por torcedores em sua apresentação à seleção da Espanha. 

Na manhã desta quarta, Piqué falou abertamente sobre o caso, mas não declarou seu voto. “Essa é a pergunta de um milhão de dólares. E obviamente não vou responder, porque nós jogadores somos figuras globais, então não devo assumir um lado ou outro (…) Meus filhos são colombianos, libaneses, catalães e espanhóis. Estamos em um mundo tão global, que a questão dos países é a menos importante.” Ele, no entanto, deu a entender que votou contra a independência ao defender que um catalão possa jogar pela Espanha. “Não é incongruente. Não é meu caso, mas creio que um defensor da independência poderia jogar pela seleção espanhola, porque não há uma seleção catalã, e porque o o defensor não tem nada contra a Espanha.”

O zagueiro do Barça brindou os jornalistas com outras frases de efeito como “a questão sobre Catalunha e Espanha é como a do filho que completa 18 anos e quer sair de casa” ou como quando negou ter problemas com o zagueiro Sergio Ramos, do Real Madrid. “É tudo mentira, temos uma relação fenomenal e inclusive seremos sócios de um negócio que eu apresentei a ele”, contou o zagueiro, que sonha em ser presidente do Barcelona. A mensagem mais importante de Piqué no cenário político, porém, foi seu apoio irrestrito à tolerância: “As pessoas têm opiniões diversas e cada um pode opinar como quiser. Creio que com diálogo sempre podemos chegar a um bom lugar.” Golaço de Piqué – para o mundo todo, e não apenas para Espanha ou Catalunha.