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O goleiro Nivaldo, o maior ídolo da história da Chapecoense

Ex-goleiro chegou a Chapecó em uma equipe quase falida, ajudou a levar o clube até o topo e escapou por pouco da tragédia

Nivaldo não aparenta ter sido um goleiro, ainda mais de certo destaque no futebol. A altura de 1,83 m não impressiona para um jogador que quer jogar na função mais ingrata do esporte. “Mas e a agilidade e velocidade?”, pergunta, sobre características fundamentais para a posição. Se não fosse bom como jogador e um líder dentro e fora de campo, jamais teria alcançado a idolatria absoluta da torcida da Chapecoense.

Goleiro de pequenas equipes do interior do Rio Grande do Sul e sem muito destaque até os 31 anos, o gaúcho de Torres aceitou um convite para defender o gol da Chape em abril de 2006. O cenário no clube beirava o amadorismo e Nivaldo pensou em voltar para Bento Gonçalves, onde defendeu a equipe local por cinco anos. Mas desistiu da ideia e foi recompensado. “Arrisquei ficar por aqui e logo no primeiro ano conseguimos um título estadual com uma folha de pagamento muito abaixo da dos outros clubes.”,

Ele não poderia sair mesmo de Chapecó. Hoje, aos 42 anos, Nivaldo é um homem de fala tranquila e de poucas palavras. A educação, simpatia e timidez refletem o comportamento da população da cidade e o ex-goleiro e agora diretor de futebol do clube representa o que é ser chapecoense. Assim mesmo, com letra minúscula, como os nascidos no local.

O amor de Nivaldo pelo futebol, a chance de finalmente despontar na carreira mesmo depois dos 30 anos, a paixão do torcedor de Chapecó pelo clube da cidade e a ambição demonstrada pela Chapecoense para os próximos anos formaram o casamento perfeito. “Quando cheguei, percebi esse envolvimento, a cidade gosta de futebol. Só que era um momento difícil do clube, o torcedor estava num momento muito desacreditado. Foi só a Chapecoense começar a ganhar, disputar títulos, subir de série, que o torcedor passou a voltar”.

O momento difícil passou, as vitórias aconteceram e o torcedor voltou. Nos dez anos em que Nivaldo defendeu o gol da Chapecoense, o clube se transformou em uma das principais forças do futebol brasileiro. O goleiro participou de todos os acessos da Chapecoense até o primeiro escalão do futebol nacional. Em 2014, quando finalmente a equipe chegou à Série A, perdeu a posição de titular  para Danilo. O novo camisa 1 virou ídolo da torcida pelas grandes atuações com a camisa do Verdão e pelas belas defesas na Sul-Americana do ano passado, que levou a equipe para a final da competição.

Nivaldo disputava a condição de reserva imediato com Jakson Follmann e estava na lista de passageiros para o fatídico voo da LaMia até o último momento. Com 298 jogos pela Chapecoense, a ideia era que ele entrasse nos momentos finais no lugar de Danilo na partida contra o Palmeiras, em São Paulo – que coincidentemente definiu o título para os paulistas – e atuasse como titular no duelo contra o Atlético-MG, na Arena Condá, pela última rodada do Brasileirão 2016, para se aposentar com 300 partidas disputadas.

Uma mudança no planejamento salvou a vida de Nivaldo. Como a delegação iria direto para Medellín de São Paulo e não voltaria mais para Chapecó, o técnico Caio Júnior levou  Follmann para a decisão da Sul-Americana na Colômbia. A tragédia fez com que o último jogo da Chape no Campeonato Brasileiro fosse cancelado e sem jogo de aposentadoria.

As luvas foram penduradas, mas a ligação com a Chapecoense não cessou. “Eu já tinha o convite de trabalhar no clube. Ano passado eu ainda estava jogando e alguns diretores me procuraram perguntando se eu tinha o interesse em ficar.” A tragédia fez com que o cargo mudasse e o desafio se tornasse ainda maior. O ex-goleiro conta que o novo time foi montado em aproximadamente 20 dias. A diretoria e o departamento de futebol trabalharam no Natal e no Ano Novo e, finalmente quando a pré-temporada começou, 25 novos jogadores foram apresentados, somados a outros das categorias de base. A  ideia era trazer atletas que já haviam vestido a camisa da Chapecoense e já estavam acostumados com a cidade. “Alguns nos falaram que psicologicamente não estavam preparados.”

A nova fase da Chapecoense passa pelo planejamento e pela vontade dos funcionários em seguir em frente e pensar adiante. Como Nivaldo e outros profissionais do clube comentam, não adianta baixar a cabeça e se prender ao passado, porque o que aconteceu não vai voltar atrás. Ídolo dentro de campo, ele quer dar sua contribuição como um dos homens fortes do futebol do Verdão. “Estou feliz por estar fazendo parte novamente, não dentro do campo, mas fora. Espero que a gente consiga fazer com que esse clube se reerga novamente para também poder dar uma alegria ao nosso torcedor, que sofreu e ainda está sofrendo bastante”.