Ex-dirigente da Fifa acusa Infantino de proteger político russo

Presidente da Fifa e sua secretária-geral, Fatma Samoura, teriam pressionado Comitê de Governabilidade a não punir Vitaly Mutko, braço-direito de Putin

Ex-dirigente da Fifa, o português Miguel Maduro acusou a cúpula da entidade de proteger o governo russo e de tentar evitar qualquer punição contra Vitaly Mutko, influente e controverso político e dirigente de futebol do país. Em uma audiência pública no Parlamento britânico, nesta quarta-feira, Maduro revelou como foi pressionado pelo presidente da entidade, Gianni Infantino, a não adotar qualquer medida contrária a Vitaly Mutko, que ainda assim acabou retirado do Conselho da Fifa.

Mutko, de 58 anos, é uma espécie de braço-direito do presidente Vladimir Putin. Foi ministro do Esporte até 2016, quando foram revelados os escândalos de doping no atletismo do país. Em vez de ser demitido por Putin, Mutko foi “promovido” ao cargo de vice-primeiro-ministro da Rússia.

Mutko é também ex-presidente do Zenit, clube popular de São Petersburgo, e presidente do comitê organizador da Copa de 2018. Ele foi membro do Conselho da Fifa entre 2009 e março de 2017, quando foi excluído por “conflito de interesses” denunciado por dirigentes, incluindo Maduro. O português, por sua vez, deixou a Fifa dois meses depois, em maio, alegando que teve sua independência minada.

Maduro era responsável pelo Comitê de Governabilidade da Fifa, mas durou menos de um ano no cargo. Um dos casos mais importantes, segundo ele, foi a pressão “indevida” feita por Infantino para que ele garantisse a permanência de Mutko no Conselho.  “Mutko era vice-primeiro-ministro da Rússia e a Fifa tem uma regra de neutralidade política. Há uma clara contradição em falar de que não aceita intervenção política e, ao mesmo tempo, ter um membro de um governo em sua cúpula”, alertou.

Maduro deixou claro que Infantino “não estava confortável” com o risco do nome de Mutko ser rejeitado. “Ele disse que estava preocupado com o impacto que isso teria na Copa do Mundo de 2018“, explicou. A pressão também teria vindo da secretária-geral da Fifa, Fatma Samoura. Maduro iria mandar uma carta ao russo para dizer que ele estaria excluído, mas a secretária pediu para adiar o envio, alegando que isso poderia minar uma visita dela à Rússia.

Semanas depois, Fatma Samoura se encontrou com o português em Bruxelas, alertando que o caso precisaria ser “solucionado” e que a exclusão do russo seria “extremamente problemática”. “Ela me disse que a Copa seria um desastre e que a presidência de Infantino passaria a ser questionada.”

A denúncia de “abuso de poder” dos cartolas da Fifa feita por Maduro voltou a abalar a imagem da entidade máxima do futebol que, há dois anos, lida com escândalos de corrupção e prisões de seus dirigentes. Para Maduro, não houve qualquer mudança e as normas internas continuam sendo violadas. “A Fifa é um Estado além do Estado. Há uma resistência contra qualquer tipo de controle.”

(com Estadão Conteúdo)