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De ‘quarta força’ a máquina: como Carille mudou o Corinthians

Discreto, treinador novato conseguiu “encobrir” erros da diretoria e tornar o time de orçamento modesto sensação de 2017

“Estou surpreso, sim, e não é de hoje”. O próprio técnico Fábio Carille admitiu, após a vitória na casa do rival Palmeiras, que não esperava uma campanha tão irrepreensível do Corinthians no primeiro semestre. O título paulista já parecia suficiente para “salvar o ano” do clube atolado em dívidas e tratado por muitos como a “quarta força” do Estado. Mas acabou sendo apenas o início de uma sequência impressionante: invicto há 27 partidas, o Corinthians vem acumulando recordes e lidera com sobras o Brasileirão após 13 rodadas. Engana-se, porém, quem credita este sucesso à gestão do clube. Os responsáveis pelo feito incrível são os atletas e, sobretudo, o paciente Fábio Carille.

Jogador de pouco sucesso na década de 90 – atuou até pelo próprio Corinthians, Coritiba e vários outros clubes menores – o ex-defensor esperou longos oito anos por esta oportunidade. Desde 2009 no Corinthians, Carille foi auxiliar de Mano Menezes e Tite e parece ter herdado muito mais as qualidades do que os defeitos dos antigos mestres. Enxergou na crise financeira e na desconfiança que pairava sobre Itaquera uma oportunidade para mostrar serviço. Os atletas compraram a ideia, a torcida também, e hoje Carille é uma unanimidade. Mesmo que o título não venha – o que neste momento soa improvável, não só pela vantagem matemática, mas pelo desempenho da equipe –, Carille já mostrou que a que veio. Entenda as chaves para o sucesso do treinador de 43 anos.

Paciência e discrição

Nascido em São Paulo capital e criado em Sertãozinho (SP), Carille é extremamente discreto. Assim como seu guru Tite, prefere não entrar em divididas, ainda que muitas vezes tenha razão. Ele, poderia, por exemplo, ter criticado a diretoria corintiana por tê-lo demitido ano passado para contratar Oswaldo de Oliveira. Poderia também culpar a crise financeira do clube – que sangra para pagar as contas do Itaquerão e chegou a atrasar salários de alguns atletas – pela falta de reforços badalados. Carille, no entanto, não transferiu responsabilidades e escutou calados os prognósticos sobre um ano que tinha tudo para ser sofrido. E mesmo após as vitórias e o título paulista, não demonstrou qualquer sinal de ressentimento. Sua resposta aos críticos veio apenas dentro de campo.

Fábio Carille é o novo técnico do Corinthians

Fábio Carille não se envolveu em nenhuma polêmica desde que assumiu o cargo (Mauro Horita/AGIF/Folhapress)

Aposta na base

No futebol brasileiro, impera uma infeliz realidade: os clubes só apostam nas categorias de base quando estão sem dinheiro.  E pela primeira vez em muitos anos, o Corinthians se viu nesta situação – ao contrário do rival Palmeiras, por exemplo, que investiu milhões em reforços. Contrariando a boba tese de que poderia “queimar os garotos”, Carille não teve medo de apostar nos jovens, que assim como ele vivem a fase de maior “fome” na carreira. Guilherme Arana e Maycon se tornaram titulares absolutos, imprescindíveis no esquema. Outros como Pedrinho, Léo Jabá, Léo Príncipe e Pedro Henrique também ganharam oportunidades e não decepcionaram.

Guilherme Arana e Maycon, do Corinthians

Guilherme Arana e Maycon, fundamentais no esquema de Carille (Alexandre Schneider/Buda Mendes/Getty Images)

Personalidade para escalar

Carille foge completamente do estilo militar, mas, silenciosamente, demonstrou muita personalidade na hora de montar sua equipe. E acabou “corrigindo” vários erros dos cartolas que, mesmo com pouco dinheiro em caixa, fizeram contratações desnecessárias. A diretoria iniciou 2017 sonhando com o veterano Didier Drogba, em negociação que se tornaria um mico. Depois, apostou no turco Kazim, o carismático “gringo da favela”, que iniciou o ano com mais moral que Jô, mas confirmou o que já havia mostrado ao longo da carreira: é apenas esforçado. Fellipe Bastos foi outro que chegou com status de possível referência no meio-campo, mas não rendeu. Carille teve peito para barrar a dupla, assim como fez com outros atletas badalados que já estavam no clube. Guilherme e Cristian, os dois atletas mais caros do elenco, não só foram barrados, como deixaram o clube – o primeiro foi para o Atlético-PR e o segundo está afastado. Pouco comprometido, Marlone também foi escanteado e depois emprestado ao Atlético-MG. Giovanni Augusto e Marquinhos Gabriel também foram para o banco. E sem reclamar.

Felipe Bastos e Kazim, do Corinthians

Contratações desnecessárias: Felipe Bastos e Kazim chegaram com moral, mas foram barrados (Luis Moura/Ale Frata/Folhapress)

Defesa impecável

Em seus sete anos como auxiliar do Corinthians, Carille bebeu da fonte de Mano Menezes e Tite, dois treinadores que prezam pela organização defensiva. Mesmo nos tempos de braço direito dos treinadores, era o ex-zagueiro o responsável pelos principais treinamentos e orientações defensivas. Com as chegadas do zagueiro Pablo e do volante Gabriel, e com a regularidade de Cássio, Fagner, Balbuena e Arana, além da ajuda importante dos meias e atacantes que sempre voltam para recompor, o time de Carille parece até mais seguro que o de seus antecessores. Só levou 21 gols em 40 jogos oficiais, sendo apenas cinco no Brasileirão. Sem cobranças excessivas, “Pep Carille”  (como vem sendo chamado por torcedores, numa comparação com Pep Guardiola) conseguiu impor sua filosofia de jogo e convencer até atletas da frente e veteranos como Jadson e Jô a recuar para ajudar nos momentos defensivos. Ao longo dos anos, o Corinthians se especializou em “transformar” defensores pouco badalados em referências na posição, como Ralf, Leandro Castán, Gil e Felipe, entre outros. O mesmo volta a ocorrer com o atual elenco.

Treino do Corinthians - 21/03/2017

Pablo e Balbuena: dupla conseguiu entrosamento perfeito em curto tempo (Daniel Augusto Jr./Ag.Corinthians/Divulgação)

Redenção de Jô e Romero

No início do ano, o ataque do Corinthians era motivo de chacota. Enquanto os rivais depositavam grandes esperanças nos estrangeiros Miguel Borja e Lucas Pratto, o time alvinegro apostava no paraguaio Ángel Romero, que sempre teve sua condição técnica contestada. Jô era outra incógnita, seja pelos problemas disciplinares que acompanharam sua carreira ou pela condição física. “Cada dia mais me surpreendo com o Jô, que não só vocês tinham dúvida, mas nós também”, admitiu Carille na coletiva da última quarta-feira. O camisa 7, no entanto, se tornou um líder não apenas dentro de campo. Mais centrado, feliz em seu casamento e com o retorno à cidade natal, é elogiado por todos por seu comportamento e entrega. E ainda virou o “rei dos clássicos” ao marcar seis gols contra rivais em 2017. Ele é ainda o vice-artilheiro do Brasileirão com sete gols. Já Romero não se tornou um grande artilheiro (fez cinco gols na temporada), mas ganhou o respeito de todos por cumprir à risca sua função no time de Carille (acompanhar o lateral adversário, reter a bola na ala esquerda e ajudar no ataque). É hoje outro titular indiscutível.

Jô do Corinthians

Romero, Jô e Rodriguinho celebram gols. Vivem grande fase em 2017 (Daniel Kfouri/VEJA.com)

DNA corintiano

O ‘econômico’ Corinthians. Historicamente, o clube paulista é marcado por ter equipes aguerridas, afeitas a placares apertados e vitórias no sufoco. Nos últimos anos, foram diversas conquistas e triunfos importantes por 1 a 0, como na final do Mundial de Clubes de 2012. Mesmo que longe do holofote, Carille participou dos últimos oito anos do clube e conhece bem essa filosofia. A torcida também já compra a ideia e entende que, mesmo contra adversários fracos, o time prefere muitas vezes trabalhar a bola a sair descontroladamente ao ataque. Como ocorreu nitidamente contra o Palmeiras, o Corinthians sabe deixar a bola com o rival sem correr perigos, criando uma falsa noção de superioridade do adversário. O fato de vários titulares serem formados nas categorias de base do clube, como Fagner, Jô, Maycon e Guilherme Arana, também contribui neste sentido. Ao contrário de diversos concorrentes, que mudam de treinadores e filosofias com muita frequência, o Corinthians tem um cara – a cara de Carille.

Corinthians e Palmeiras

Sempre aguerrido: time do Corinthians é o que mais “sabe sofrer” no futebol brasileiro (Daniel Kfouri/VEJA.com)