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Agosto de 2009

Fertilização

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), 15% dos casais sofrem com a infertilidade. No Brasil, a estimativa é que 278.000 tenham dificuldades para gerar filhos. Se diagnosticado a tempo, entretanto, o problema pode ser contornado. O especialista Renato Fraietta, do setor de reprodução da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), explica por que a infertilidade acomete casais e como combatê-la.

IMPRIMA  

1. Quais as causas da infertilidade?

A incapacidade que um casal apresenta para gerar um filho é decorrente, em 30% dos casos, de algum problema do homem, em outros 30%, da mulher e, em 40% das vezes, de ambos. Vários fatores podem causar a infertilidade feminina: em 30% dos casos, a mulher apresenta problemas de ovulação; na mesma taxa, são registrados distúrbios nas tubas uterinas ou na trompa, além de endometriose, doença que afeta principalmente aquelas que têm cólicas fortes. Entre os homens, os principais causadores da infertilidade são a varicocele, em que varizes nos testículos aumentam a temperatura e diminuem a produção, qualidade e quantidade dos espermatozóides; a criptorquidia, doença em que o testículo nasce fora da bolsa testicular; e infecções como a causada pelo vírus da caxumba, que pode atacar o testículo e afetar a produção de espermatozóides.

2. Tomar anticoncepcional por muito tempo pode deixar a mulher infértil?

Não. Uma mulher pode tomar anticoncepcional ininterruptamente por dez anos ou mais e não terá sua fertilidade prejudicada. O que de fato ocorre é que, mesmo após a suspensão do uso prolongado, o ciclo menstrual pode levar alguns meses até ser completamente regulado.

3. Há como reverter a infertilidade antes de partir para a fertilização artificial?

Antes de recorrer ao tratamento é preciso combater os fatores que contribuem para a diminuição da fertilidade. A obesidade, por exemplo, prejudica o sêmen porque aumenta a temperatura dos testículos. Nos homens, a gordura converte os hormônios masculinos em femininos, daí o eventual surgimento de mamas. O mesmo ocorre com as mulheres obesas, que têm hormônios femininos convertidos em masculinos. O uso excessivo de drogas e medicamentos também afeta a produção de espermatozóides. Entre os fumantes, largar o vício é fundamental para melhorar a fertilidade porque os componentes do cigarro prejudicam o sêmen e o movimento das trompas. Quanto à laqueadura ou vasectomia, ambos podem ser revertidos com procedimentos cirúrgicos, mas cabe lembrar que com o passar do tempo a reversão é cada vez mais difícil no caso do último.

4. Qual a diferença entre a fertilização "in vivo" e "in vitro"?

A fertilização “in vivo” acontece dentro do corpo da mulher, causando uma gravidez chamada “natural”. Também se dá através da fertilização artificial intra-uterina, em que o processo é acelerado: os espermatozóides mais bem formados do sêmen do parceiro são selecionados e colocados, através de uma seringa, dentro do útero. Para isso, a mulher tem de tomar hormônios para induzir a ovulação. Já a fertilização “in vitro” abrange duas modalidades: a clássica, conhecida como a do bebê de proveta, realizada pela primeira vez em 1978, ou a ICSI (sigla em inglês para injeção intracitoplasmática de espermatozóide), criada em 1992. Há ainda outro método, conhecido como ovodoação: utiliza-se o óvulo de uma doadora no caso de a mulher que deseja ser mãe possuir útero mas não possuir ovários, por causa de um tumor, por exemplo. Neste caso, o óvulo de uma doadora anônima será fecundado pelo espermatozóide do companheiro da paciente, que irá gerar o feto.

5. Como é feita a fertilizaçãoin vitro?

A inseminação artificial clássica ocorre da seguinte maneira: o médico captura um óvulo e coloca milhares de espermatozóides ao seu redor. O mais capacitado o fertiliza. O embrião fica por três dias no laboratório, em um ambiente que imita o corpo da mulher (controle da temperatura, umidade, gás carbônico e partículas no ar). Após este período, é transferido para o útero materno e pode ocorrer ou não a chamada implantação – fenômeno em que o embrião se prende ao útero. Sem a implantação, não ocorre a gravidez. Na técnica ICSI, o médico seleciona o espermatozóide e o injeta no óvulo. O embrião também é transferido para o útero três dias depois, podendo haver ou não a implantação. Esta seleção de espermatozóides ocorre porque há homens que os produzem em pequenas quantidades.

6. Em que casos a fertilização in vitro é recomendada?

Para as mulheres que possuem endometriose, tuba obstruída ou não funcionante. Aquelas que não ovulam ou ovulam pouco, como as que possuem a síndrome dos ovários policísticos, devem recorrerà inseminação artificial, em que o sêmen do parceiro é colocado dentro do útero. Por fim, quem deve procurar ajuda são os casais que estão tentando engravidar há mais de um ano, com relações sexuais frequentes no período fértil.

7. Quais as chances de a fertilização “in vitro” ser bem-sucedida?

O sucesso da fertilização varia de acordo com a idade da mulher, mas depende fundamentalmente da implantação do embrião, um fator imprevisível. Em geral, mulheres saudáveis com até 30 anos têm 60% de chances de engravidar, com apenas dois embriões. Aos 40 anos, a taxa diminui para 20%, mesmo com o uso de quatro embriões. Isso acontece porque a idade do óvulo é igual à da mulher, ou seja, os óvulos não são renovados com o tempo e sofrem tudo o que a mulher sofreu ao longo da vida: gripes, poluição, stress etc. Em resumo: quanto maior a idade da mulher, menor a qualidade do óvulo, e maior o risco de haver uma divisão celular errada - o que pode provocar a formação de um embrião com defeito. Se o óvulo tiver sido doado por uma jovem, as chances de a mulher acima dos 40 anos engravidar podem subir, chegando a 50%.

8. Quais os riscos para a mulher ligados ao procedimento?

No caso de mulheres jovens, os riscos são os mesmos que acometem outra que gerou um bebê pelo método in vivo. Porém, conforme a idade avança, a fertilização in vitro pode causar a síndrome de hiperstimulação ovariana, em que o ovário reage de forma negativa à ingestão de hormônios, causando queda de pressão, náuseas e vômitos. Outra consequência possível é a gestação múltipla, porque aplicam-se até quatro embriões no útero. Há ainda a possibilidade de o corpo não suportar adequadamente o parto, ainda que o procedimento adotado seja a cesariana. Isso porque a gravidez demanda um grande esforço dos sistemas circulatório e respiratório – e, com o passar dos anos, o organismo feminino, é claro, sofre com desgastes. Assim, o coração não é tão forte, o pulmão não funciona tão bem, por exemplo, e esses problemas podem ser potencializados durante a gestação.

9. Existe também o método de alteração do citoplasma. Como ele funciona? Quais os riscos?

O procedimento, experimental e proibido, consiste na aplicação do citoplasma (líquido da célula) de uma mulher jovem no óvulo esvaziado de uma mulher mais velha. Desta forma, o embrião gerado teria a carga genética da mulher que cedeu o óvulo, da mulher que cedeu o citoplasma, e do pai, ficando com três tipos de DNA – e não dois, como é o normal. A ciência ainda não identificou os riscos de uma criança portadora de três DNAs, que os perpetuaria através de seus descendentes.

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