Jogador de vôlei na juventude, numa época em que sua altura
(1,85 metro) permitia que fosse atacante, o advogado carioca
Carlos Arthur Nuzman foi um dos responsáveis pelo boom
desse vitorioso esporte no país. Desde a Olimpíada de
Atlanta-1996, ele preside o Comitê Olímpico Brasileiro (COB).
Muito mais otimista do que qualquer torcedor, Nuzman
acredita que o país, mesmo não alcançando as cinco medalhas
de ouros conquistadas em Atenas, mostrou grandes progressos
esportivos em Pequim, como afirma nesta entrevista exclusiva
a VEJA, concedida antes do balanço que apresentaria à imprensa
no domingo.
VEJA – Que análise o senhor faz do papel brasileiro nesta
Olimpíada?
Nuzman – Os resultados mostram a grande evolução qualitativa
do nosso esporte. Se você comparar de Atlanta até aqui, verá que
eles foram crescentes. Já chegamos com vários recordes: número
de atletas, de participação em modalidades e de presença vitoriosa
de mulheres, superando largamente as Olimpíadas anteriores. Até
este momento (sexta-feira), tivemos 37 finais. Em Atlanta, foram 20. Em Sydney, 22. E em Atenas 30. Praticamente dobramos de Atlanta
para cá.
VEJA – E as medalhas?
Nuzman – Não é a medalha que mostra a evolução. Medalha é
conseqüência. Tivemos conquistas inéditas e até impensáveis há
algum tempo, como o primeiro ouro na natação, em um ano que
os recordes mundiais caíram sem parar, o primeiro ouro feminino
no atletismo, as primeiras medalhas femininas no judô e na vela. A
equipe feminina de ginástica foi finalista também pela primeira vez.
Chegamos ainda à primeira final do vôlei feminino e outras marcas
importantes.
VEJA – Não é pouco ouro para um país que, há quatro anos,
ganhou cinco?
Nuzman – Alguém vai dizer que os Estados Unidos estão mal por
terem sido ultrapassados pela China? Ninguém. A única grande
evolução que tivemos em Pequm foi a da China, que no quadro
geral de medalhas ocupou o lugar de outros países, além da
Grã-Bretanha. Veja a Grécia, que sediou uma Olimpíada há quatro
anos e não tem nenhum ouro. Cuba sofreu uma queda vertiginosa.
O mesmo acontece com o Canadá.
VEJA – Quanto custou a participação brasileira nesta Olimpíada?
Nuzman – Eu não tenho esse valor exato agora. Isso só será fechado
na próxima semana. É preciso separar o que o COB e as confederações
recebem. Ainda não sei quanto é. O que posso dizer é que a Petrobrás
nos pagou 26 milhões de reais. Dessa importância, aproximadamente
6 milhões de reais foram para o COB e o restante para as confederações. Através da Lei Piva, são repassados no total cerca de 30 milhões de reais por ano. Cada um dá o número que quer. No Pan, não falaram em números absurdos, de chocar, de cair sentado? Não tinham nada a ver com a realidade. Mas não posso fazer nada.
VEJA – Pode. É só dizer o valor do que foi recebido e do que foi
gasto.
Nuzman – Nossa área financeira, como disse, não fechou os números.
Por enquanto, não temos.
VEJA – O senhor não teme que os resultados de Pequim possam, de alguma forma, prejudicar o projeto da candidatura do Rio de Janeiro para sediar os Jogos de 2016?
Nuzman – Nenhum dado do caderno de encargos exigidos de um
candidato fala da performance do país. É lógico que estamos mostrando
para o Comitê Olímpico Internacional a nossa evolução, o que será
levado em conta na hora da decisão.
VEJA – Em relação à candidatura brasileira, o senhor está mais ou está menos otimista?
Nuzman – Eu continuo confiante. Nossas chances melhoraram
enormemente com o trabalho que realizamos aqui em Pequim.
VEJA – Quais seriam elas, de 1 a 10?
Nuzman – Desculpe, eu não especulo. Mas sou otimista, sim. E estamos longe do momento da votação, que só acontecerá daqui a mais de
um ano.
VEJA – A quantas Olimpíadas o senhor já foi?
Nuzman – Participei de uma como jogador, em 1964, no Japão. Foi o
ano em que o vôlei entrou na programação olímpica. Depois, assisti a
todas a partir de 1976. Como presidente do COB, esta é minha quarta
Olimpíada.
VEJA – Há dez anos, numa entrevista, perguntei ao presidente da CBF, Ricardo Teixeira, se ele ganhava salário para exercer o cargo. Ele afirmou que sim. Na época, segundo contou, recebia cerca de 25 000 reais por mês. O senhor também é remunerado pelo COB?
Nuzman – Não. Pela legislação brasileira, entidades que recebem verbas públicas não podem ser remunerados. Eu até seria favorável, mas não
ganho nada. Tenho minhas atividades profissionais como advogado e
como sócio de uma empresa de compra e venda de imóveis.
VEJA – A propósito da CBF, o senhor acredita que o futebol deixará de fazer parte da Olimpíada?
Nuzman – Não tenho a menor idéia. Se a Fifa quiser retirar, retira. Basta comunicar ao COI. É uma questão entre as duas entidades.
VEJA – Se o Brasil conseguir organizar a Olimpíada em 2016, que
novos esportes poderão fazer parte da programação?
Nuzman – Saberemos no ano que vem. No caso do futebol, a Fifa
negocia com o COI e pode propor, por exemplo, a inclusão do futebol
de salão e do futebol de praia. Não seriam novos esportes, mas novas
modalidades. A inclusão de novos esportes depende de votação. Há
sete pretendentes, entre eles o rúgbi, o golfe e o caratê. Alguns querem entrar, outros não querem sair. Só que o limite de atletas é de 10 500.
A quantidade de esportes tem que se manter dentro disso. É uma
equação difícil de resolver.