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olhos de uma chinesa
 
 24 de agosto de 2008

O tempo e a paixão


Há uma canção muito antiga que faz parte da trilha sonora de um
documentário igualmente velhíssimo chamado 13 Jours en France,
sobre os Jogos Olímpicos de Inverno de 1968. A música de Francis Lai
e Pierre Barouth, os mesmos do filme Um Homem, Uma Mulher (alguém  lembra?), fala em tom melancólico da desproporção entre as paixões despertadas pelas disputas e o tempo em que elas decorrem. Se as paixões são imensas, o tempo acaba revelando sua fugacidade quando, de repente, tudo termina.

Pois lá se foi a menininha da cerimônia de abertura que, descobriu-se
depois, não cantou mas foi dublada. Os gritos e as coreografias da
enlouquecida torcida chinesa. O super-homem que bateu todos os
recordes das piscinas e das medalhas. O velocista alucinado das pistas.
A saltadora com vara que parecia querer atingir os céus de Pequim.
O novo time dos sonhos encestando tudo. Os homenzarrões erguendo aqueles halteres de pesos incalculáveis. Os atletas de uniforme vermelho e estrelas douradas que não paravam de subir no pódio.

E nossos ginastas que caíam, choravam e nos faziam morrer de  raiva ou de pena. E os argentinos marcando um, dois, três gols. E o triplo frustrante. E as moças, pobre moças do basquete.

Tudo se vai, mas fica a glória das nossas mulheres maravilhosas .Quanta bravura no salto, quanta categoria na rede. Na sofrida prata nos gramados. No bronze arrancado no tatame, no vento, nos golpes. Fica nosso orgulho que explodiu em 50 metros dentro da água. Fica também o consolo, no derradeiro dia, do segundo lugar em um jogo no qual não éramos ninguém e nos tornamos gigantes.

Quinze medalhas. Queríamos mais. Três ouros. Esperávamos o dobro.

Um dia, quem sabe, massificaremos o esporte e, como decorrência, iremos colher resultados em um país melhor, mais vitorioso e mais justo. Mas, sem esquecer o sonho, é preciso trabalhar nesse sentido com a mesma paixão concentrada em cada prova, deixando assim de se lamentar, como naquela singela canção francesa, o tempo que passou tão rápido para nós.

                                         * * *   

No primeiro dos vinte textos deste Diário Olímpico, apostamos que o Brasil conquistaria seis medalhas de ouro. Perdão pelo erro. Tentaremos acertar em Londres. E muito obrigado pela leitura e pelos comentários.




Por Carlos Roberto S Maranhao - 08:39 | Enviar Comentário | Ler Comentários

 23 de agosto de 2008

Uma conversa com Nuzman


Jogador de vôlei na juventude, numa época em que sua altura
(1,85 metro) permitia que fosse atacante, o advogado carioca
Carlos Arthur Nuzman foi um dos responsáveis pelo boom
desse vitorioso esporte no país. Desde a Olimpíada de
Atlanta-1996, ele preside o Comitê Olímpico Brasileiro (COB).
Muito mais otimista do que qualquer torcedor, Nuzman
acredita que o país, mesmo não alcançando as cinco medalhas
de ouros conquistadas em Atenas, mostrou grandes progressos
esportivos em Pequim, como afirma nesta entrevista exclusiva
a VEJA, concedida antes do balanço que apresentaria à imprensa
no domingo.

VEJA – Que análise o senhor faz do papel brasileiro nesta
Olimpíada?
Nuzman –
Os resultados mostram a grande evolução qualitativa
do nosso esporte. Se você comparar de Atlanta até aqui, verá que
eles foram crescentes. Já chegamos com vários recordes: número
de atletas, de participação em modalidades e de presença vitoriosa
de mulheres, superando largamente as Olimpíadas anteriores. Até
este momento (sexta-feira), tivemos 37 finais. Em Atlanta, foram 20. Em Sydney, 22. E em Atenas 30. Praticamente dobramos de Atlanta
para cá.

VEJA – E as medalhas?
Nuzman –
Não é a medalha que mostra a evolução. Medalha é
conseqüência. Tivemos conquistas inéditas e até impensáveis há
algum tempo, como o primeiro ouro na natação, em um ano que
os recordes mundiais caíram sem parar, o primeiro ouro feminino
no atletismo, as primeiras medalhas femininas no judô e na vela. A
equipe feminina de ginástica foi finalista também pela primeira vez.
Chegamos ainda à primeira final do vôlei feminino e outras marcas
importantes.

VEJA – Não é pouco ouro para um país que, há quatro anos,
ganhou cinco?
Nuzman –
Alguém vai dizer que os Estados Unidos estão mal por
terem sido ultrapassados pela China? Ninguém. A única grande
evolução que tivemos em Pequm foi a da China, que no quadro
geral de medalhas ocupou o lugar de outros países, além da
Grã-Bretanha. Veja a Grécia, que sediou uma Olimpíada há quatro
anos e não tem nenhum ouro. Cuba sofreu uma queda vertiginosa.
O mesmo acontece com o Canadá.

VEJA – Quanto custou a participação brasileira nesta Olimpíada?
Nuzman –
Eu não tenho esse valor exato agora. Isso só será fechado
na próxima semana. É preciso separar o que o COB e as confederações
recebem. Ainda não sei quanto é. O que posso dizer é que a Petrobrás
nos pagou 26 milhões de reais. Dessa importância, aproximadamente
6 milhões de reais foram para o COB e o restante para as confederações. Através da Lei Piva, são repassados no total cerca de 30 milhões de reais por ano. Cada um dá o número que quer. No Pan, não falaram em números absurdos, de chocar, de cair sentado? Não tinham nada a ver com a realidade. Mas não posso fazer nada.

VEJA – Pode. É só dizer o valor do que foi recebido e do que foi
gasto.
Nuzman –
Nossa área financeira, como disse, não fechou os números.
Por enquanto, não temos.

VEJA – O senhor não teme que os resultados de Pequim possam, de alguma forma, prejudicar o projeto da candidatura do Rio de Janeiro para sediar os Jogos de 2016?
Nuzman –
Nenhum dado do caderno de encargos exigidos de um
candidato fala da performance do país. É lógico que estamos mostrando
 para o Comitê Olímpico Internacional a nossa evolução, o que será
levado em conta na hora da decisão.

VEJA – Em relação à candidatura brasileira, o senhor está mais ou está menos otimista?
Nuzman –
Eu continuo confiante. Nossas chances melhoraram
enormemente com o trabalho que realizamos aqui em Pequim.

VEJA – Quais seriam elas, de 1 a 10?
Nuzman –
Desculpe, eu não especulo. Mas sou otimista, sim. E estamos longe do momento da votação, que só acontecerá daqui a  mais de
um ano.

VEJA – A quantas Olimpíadas o senhor já foi?
Nuzman –
Participei de uma como jogador, em 1964, no Japão. Foi o
ano em que o vôlei entrou na programação olímpica. Depois, assisti a
todas a partir de 1976. Como presidente do COB, esta é minha quarta
Olimpíada.

VEJA – Há dez anos, numa entrevista, perguntei ao presidente da CBF, Ricardo Teixeira, se ele ganhava salário para exercer o cargo. Ele afirmou que sim. Na época, segundo contou, recebia cerca de 25 000 reais por mês. O senhor também é remunerado pelo COB?
Nuzman –
Não. Pela legislação brasileira, entidades que recebem verbas públicas não podem ser remunerados. Eu até seria favorável, mas não
ganho nada. Tenho minhas atividades profissionais como advogado e
como sócio de uma empresa de compra e venda de imóveis.

VEJA – A propósito da CBF, o senhor acredita que o futebol deixará de fazer parte da Olimpíada?
Nuzman –
Não tenho a menor idéia. Se a Fifa quiser retirar, retira. Basta comunicar ao COI. É uma questão entre as duas entidades.

VEJA – Se o Brasil conseguir organizar a Olimpíada em 2016, que
novos esportes poderão fazer parte da programação?
Nuzman –
Saberemos no ano que vem. No caso do futebol, a Fifa
negocia com o COI e pode propor, por exemplo, a inclusão do futebol
de salão e do futebol de praia. Não seriam novos esportes, mas novas
modalidades. A inclusão de novos esportes depende de votação. Há
sete pretendentes, entre eles o rúgbi, o golfe e o caratê. Alguns querem entrar, outros não querem sair. Só que o limite de atletas é de 10 500.
A quantidade de esportes tem que se manter dentro disso. É uma
equação difícil de resolver.



Por Carlos Roberto S Maranhao - 23:54 | Enviar Comentário | Ler Comentários


Todas as mulheres do Brasil


A extraordinária vitória da seleção brasileira de vôlei feminino foi tripla.
Antes de mais nada, de uma maravilhosa equipe que conseguiu oito triunfos consecutivos, perdendo um único set. Depois, do nosso vôlei - o esporte que mais evoluiu no país nos últimos anos e fez do Brasil um gigante  das quadras internacionais,  E, em terceiro, das mulheres.

Eram vistas com desconfiança e preconceito. Amarelavam nas decisões,
dizia-se. Nas modalidades individuais, imaginava-se, conseguiam resultados positivos só até a hora do tudo ou nada. Nas coletivas, supunha-se, mostravam descontrole emocional e, quando alcançavam as finais, tudo o que faziam era primeiro perder e depois chorar.

Nesta Olimpíada, as mulheres transplantaram para o esporte todas as virtudes que, nós os homens, machistas ou não, sempre admiramos nas nossas mães, filhas, irmãs e amadas: a força na adversidade, a capacidade de superação e o poder de nos seduzir. Das três medalhas de ouro obtidas até aqui, duas se devem a elas - a do vôlei e a única que já conquistamos no atletismo, o esporte olímpico por excelência. A de prata, tão doída para as jogadoras que tanto apostavam em si mesmas, é o mais eloqüente dos exemplos: veio no futebol, em um patamar acima do alcançado pelos homens. Os três bronzes, finalmente, cobrem de glórias pelo ineditismo a vela, o judô e o tae kwon do.

Em 1964, uma negra pobre de 19 anos que ajudava a mãe nos trabalhos
domésticos carregando latas d'água na cabeça, chegou a Tóquio para competir no salto em altura. Não tinha técnico nem equipamento. Precisou usar sapatilhas emprestadas por um corredor. Nas eliminatórias, torceu o pé. Com uma bota de gesso improvisada, saltou para ficar a apenas 2 centímetros do pódio. O quarto lugar de Aída dos Santos - é esse o seu nome, que não podemos esquecer - seria o melhor resultado olímpico de uma atleta brasileira até os Jogos de Atlanta, 32 anos depois.
.
"Minha medalha é para ela", disse na noite de sábado em Pequim a meio-de-rede Valeska dos Santos Menezes, a Valeskinha, sua filha. É para ela, para Valeskinha, que aos 32 anos vai se despedir da seleção, para suas fantásticas onze companheiras de seleção e para todas as mulheres do Brasil.




Por Carlos Roberto S Maranhao - 15:58 | Enviar Comentário | Ler Comentários

 20 de agosto de 2008

O senhor dos esportes


Que tal vender sua sociedade no maior banco privado brasileiro, nunca mais trabalhar e passar o resto da vida dedicando-se a curtir só o que você mais gosta? É o que faz o ex-banqueiro Antônio Carlos de Almeida Braga, o Braguinha, que desde os anos 80, quando se afastou do Bradesco, dedica-se a acompanhar ao vivo sua grande paixão: o esporte. Aconteça onde acontecer, não há evento importante, do tênis à Fórmula 1, em que ele não esteja presente. Copas do Mundo, por exemplo, viu todas a partir de 1950.

Sempre bem humorado, otimista e discreto, ele assiste agora em Pequim, aos 82 anos, sua décima Olimpíada consecutiva (esteve também em nove Olimpíadas de inverno). Acomodado na tribuna de honra, com uma credencial VIP do Comitê Olímpico Internacional, Braguinha bate ponto em três ou quatro competições diárias. Nesta quarta-feira, ao lado da mulher, Luiza Konder, foi ao Ginásio da Capital para aplaudir a vitória da equipe brasileira de vôlei masculino diante da China por 3 sets a 0.

Nosso vôlei, aliás, tem uma dívida com ele. Graças a seu mecenato, responsável pela criação da equipe do Bradesco, nasceu em 1984, nos Jogos de Los Angeles, a chamada "geração de prata", em que brilharam Renan, William, Bernard, Amauri, Montanaro e outras estrelas pioneiras das quadras (o atual técnico Bernardinho era o levantador reserva). Foi a semente das seleções que ganhariam duas medalhas de ouro e do grupo que hoje tenta a terceira. Embora avesso aos holofotes, no final da partida ele concedeu a rara entrevista a seguir.

VEJA - O que o senhor está achando a Olimpíada até aqui?
Braguinha - Estou gostando bastante. Está bem organizada e muito boa.

VEJA - Sentiu alguma decepção pelo desempenho brasileiro?
Braguinha - Alguns resultados foram diferentes do que estávamos
esperando, mas acredito que até o final teremos várias medalhas para comemorar.

VEJA - Quantas?
Braguinha - Por volta de doze. Umas três de ouro. Depois da que
conquistamos na natação, acho que ganharemos no vôlei feminino. As outras possibilidades estão no hipismo e no salto triplo, além do futebol feminino e do vôlei masculino.

VEJA - Acredita que o Rio de Janeiro poderá ser a sede da Olimpíada
em 2016?
Braguinha - Torço como um louco... Mas, sinceramente, acho difícil.

VEJA - O que o esporte brasileiro precisa para melhorar seu desempenho olímpico?
Braguinha - Temos que montar uma estrutura de organização semelhante à do vôlei, com centros de treinamento e preparação de atletas desde as divisões de base. Nosso potencial é imenso. Se soubermos explorá-lo, poderemos comemorar grandes vitórias no futuro.

VEJA - O senhor se sente orgulhoso por sua contribuição pessoal para
o nível que o vôlei brasileiro alcançou?
Braguinha - Eu só ajudei um pouco do início. O (Carlos Arthur) Nuzman (presidente do Comitê Olímpico Brasileiro) e o (Ary) Graça (presidente da Confederação Brasileira de Vôlei) é que fazem um trabalho fenomenal.

VEJA - Como o senhor divide seu tempo?
Braguinha - Passo quatro meses por ano no Rio de Janeiro e outros
quatro em Portugal. No resto do ano, rodo o mundo afora. E sempre
acompanhando competições. Não há esporte que eu não goste.




Por Carlos Roberto S Maranhao - 14:17 | Enviar Comentário | Ler Comentários

 19 de agosto de 2008

A Lua e as mariposas


Havia uma Lua maravilhosa no céu de Pequim. No Estádio dos Trabalhadores, tontas com os refletores, mariposas voavam em círculos. Era melhor olhar para uma ou para outras do que ver o que acontecia no gramado. Sem brilho, como as estrelas que como sempre não podiam ser contempladas na poluída capital chinesa, os jogadores da Seleção Brasileira de futebol também pareciam desorientados e sem rumo. Não seguiam para lugar nenhum. E os argentinos marcavam um, dois, três gols.

Pior do que perder para eles, nossos grandes rivais, foi testemunhar a falta de fibra e superação de quem buscava a medalha de ouro que jamais alcançou e, talvez, tenha desperdiçado sua última oportunidade de conquistá-la. É sabido que a Fifa, eternamente às turras com o Comitê Olímpico Internacional, pensa em retirar o futebol da programação dos próximos Jogos.

Que tristeza a postura defensiva armada pelo técnco Dunga. Que lamentável a falta de controle de Lucas e Thiago Neves, expulsos com justiça por entradas desesperadas e desleais nos adversários. Que desalentadora a passividade mostrada no segundo tempo por Ronaldinho Gaúcho, duas vezes eleito o melhor jogador do mundo, fora de forma e de novo com aquela falta de entusiasmo exibida na Copa de 2006.

Mas que belo espetáculo humano, com 52 000 espectadores que superlotaram o estádio - a maior platéia até aqui em eventos de esporte coletivo na Olimpíada -, além de milhares de pessoas que se acovelavam nas calçadas das ruas vizinhas atrás de ingressos de última hora, vários deles nas mãos de cambistas. Apareceram tantos jornalistas que grande parte acabou se acomodando precariamente nos degraus.

Em campo, havia um único time para ser aplaudido por seu desempenho e determinação. Era mesmo melhor admirar a Lua, enquanto as
mariposas vinham para cá, iam para lá, até que as luzes foram se apagando devagarzinho e elas desapareceram.



Por Carlos Roberto S Maranhao - 15:05 | Enviar Comentário | Ler Comentários

 18 de agosto de 2008

O herói do vôlei


Sem contar as medalhas, este foi o grande momento olímpico do Brasil até agora. Quando a seleção masculina de vôlei vencia os alemães por 13 a 10, no segundo set, o líbero Escadinha saiu desesperadamente da quadra para tentar defender com o pé uma bola que, para qualquer outro, estaria perdida. Não para ele, que ultrapassou a placa de publicidade e acabou se estatelando no chão, depois de bater em um banco traiçoeiro que não havia visto. "Doeu para caramba, mas eu tinha que tentar", ele comentaria depois da vitória por 3 sets a 0. Durante alguns minutos, com o jogo parado, todo o público presente ao Ginásio do Instituto de Tecnologia de Pequim parecia estar com a respiração suspensa. Quando ele voltou à quadra, são e salvo, foi ovacionado como herói por chineses, brasileiros e alemães. É uma imagem para se guardar e, quem sabe, o prenúncio de mais um ouro.



Por Giancarlo Roberto Lepiani - 07:35 | Enviar Comentário | Ler Comentários

 17 de agosto de 2008

Aventuras no táxi


Para ir de uma competição a outra, os jornalistas que estão na Olimpíada
dispõem de ônibus especiais. Os ônibus vão dos hotéis para o Centro de
Imprensa, onde é preciso andar um pouco e pegar outro até o ginásio ou estádio que se deseja ir. É um serviço eficiente, embora às vezes demorado. Como perde-se um certo tempo nesses trajetos, o táxi pode ser uma opção mais rápida.

Mais rápida e infinitamente mais perigosa. Os táxis invadem sem cerimônia a faixa dos ciclistas, ainda numerosos na China, quase atropelam os pedestres - que são igualmente imprudentes -, cortam outros carros, fazem curvas temerárias e realizam conversões sem dar sinal.

Trata-se de uma aventura e tanto. Os taxistas dirigem mal em todos os sentidos. Além dessas contraversões, são radicais em matéria de velocidade: ou vão irritantemente devagar, na marcha errada, ou correm como uns alucinados.

Eles não são os únicos que cometem tais horrores no trânsito. Os motoristas particulares também barbarizam. Dirigir, para eles, é uma atividade nova. Há quinze anos, um número relativamente pequeno de automóveis circulava nas grandes cidades chinesas. Com as espetaculares transformações do país e a explosão de sua economia, os carros tomaram conta das metrópoles. Mas, ainda assim, o trânsito em Pequim - pelo menos nestes dias, com a adoção de faixas exclusivas para os veículos olímpicos - flui melhor do que o de São Paulo.

A aventura não é um privilégio reservado aos passageiros de Pequim. Logo que você entra em um taxi em Shenyang, cidade onde foram disputadas doze partidas do torneio olímpico de futebol, uma gravação anuncia em inglês com voz de menina: "Bem-vindo a Shenyang. Por favor, coloque o cinto de segurança". Aviso inútil. No banco traseiro não há cinto de segurança. Na frente tem, mas o espaço é apertado.

Antes de iniciar a corrida, não adianta dizer, em língua alguma, qual é o seu destino. O motorista jamais entende. Você precisa lhe dar um cartãozinho como nome e o endereço em ideograma chinês. Ele fará sinal com a cabeça que compreendeu, o que não é garantia de nada. No meio do caminho, pode pedir novamente o cartãozinho e, com mímicas, o seu celular emprestado. Liga, fala alto, discute, devolve o cartãozinho e segue. Mais adiante, a cena talvez se repita. Você acaba pagando a conta para a China Mobile.

O rádio fica ligado em volume alto, mal sintonizado em emissoras em que se fala, fala, fala - e jamais se ouve música.

É proibido fumar nos táxis. O cheiro de cigarro, no entanto, fica impregnado  no carro. Por peculiaridades da cultura local, digamos com eufemismo, os motoristas têm o costume de abrir a janela para cuspir na rua. Em geral com estrondo.

O leitor será poupado de descrições mais detalhadas desse hábito nacional. Basta reproduzir aqui uma pequena história. Em seu delicioso livro Laowai (algo como gringo, em chinês), a jornalista Sônia Bridi, ex-correspondente da TV Globo em Pequim, conta que no exame para se tirar a carteira de motorista na China cai a seguinte questão:

O que o motorista deve fazer se tiver de cuspir enquanto dirige?
a) Cuspir pela janela.
b) Cuspir num pedaço de papel e depois jogar no lixo.
c) Cuspir no chão do carro.

A resposta considerada certa é a "b". Como observa Sônia, não é dada ao candidato a alternativa óbvia de simplesmente não cuspir.

As surpresas se sucedem a todo momento. Numa das inúmeras corridas que já fiz, do nosso hotel para o Ginásio da Capital, um dos locais das partidas de vôlei, várias ruas próximas estavam interditadas. O taxista quis me deixar a quarteirões de distância. Ao mostrar a credencial olímpica para um guarda, porém, recebemos autorização para passar. O taxista, incrédulo, começou a dar risadas e bater palmas, tirando portanto as mãos da direção - e, enquanto aplaudia, ia acelerando normalmente.

No dia seguinte, fui ao Ginásio dos Trabalhadores para acompanhar algumas lutas de boxe. O ginásio fica na zona leste de Pequim, não muito longe do local onde eu estava. Ao fim de uns 40 minutos, o taxista me levou ao campo de beisebol, situado no lado oposto da cidade, a região oeste. Quando percebeu o erro grosseiro, mostrou-se envergonhadíssimo. Com gestos e mímicas, começou a pedir desculpas sem parar, fez uma ligação com seu próprio celular e entrou à esquerda sem dar qualquer sinal. Seguiu a toda, enquanto eu me preparava para rezar. Meia hora depois, chegamos ao ginásio certo. Ele não quis cobrar o valor da corrida, apesar de minha insistência em lhe pagar. Ao descer, descobri que o último combate do dia havia terminado.

Mas nem tudo é catastrófico. Alguns táxis têm GPS e em dois que peguei havia um pequeno monitor de TV que transmitia competições. O melhor de tudo: as corridas são incrivelmente baratas. Do aeroporto ao centro, numa distância de 25 quilômetros, o taxímetro marca o equivalente a 23 reais. Por 3 reais, dá para andar durante uns 15 minutos. É o chamado barato que, se você não tiver sorte, pode sair caro.

Como Deus deve ser chinês e não brasileiro, acredito que temos boas chances de sobreviver até o próximo domingo.




Por Carlos Roberto S Maranhao - 14:12 | Enviar Comentário | Ler Comentários

 16 de agosto de 2008

Festa, sofrimento e sonho


Os rapazes de Dunga nos levaram a padecer durante mais de uma hora e meia, como se merecêssemos passar por isso no mesmo sábado chinês em que César Cielo deu ao país a alegria da nossa primeira medalha de ouro na natação.

Festa no Cubo D'Água, sofrimento no futebol em Shenyang diante de Camarões - pelo 0 a 0 no marcador durante o tempo normal, pela ruindade da partida e pela falta de criatividade e arrojo da equipe, que mereceu as vaias recebidas da torcida.

Como Camarões ficou a maior parte do tempo com dez jogadores, já que seu lateral Baning foi expulso, vieram de novo à lembrança as
cenas da Olimpíada de 2000: o mesmo rival, com apenas nove
em campo, eliminou o Brasil, então comandado por Wanderley
Luxemburgo, que perderia ali seu emprego de treinador. E voltaram
juntas as imagens de 1996, quando outra força africana, a Nigéria,
empatou no finalzinho um jogo que perdia por 3 a 1, provocou a prorrogação e, no extinto sistema da morte súbita, marcou o gol que derrotou a seleção de Zagallo.

Desta vez, graças aos gols de Rafael Sobis e Marcelo em mais uma prorrogação, o sonho da medalha de ouro permanece vivo. É preciso agora vencer dois adversários para conquistá-la. O primeiro, como se temia, será a Argentina, que passou pela Holanda também no tempo extra. E outro fantasma pode nos encontrar na eventual final; a Nigéria.


                                                * * *

Longe das câmaras e microfones, Dunga contou que, para ele, a seleção
de Camarões tinha pelo menos seis jogadores fora do limite dos 23 anos.
"Não são nem gatos, são uns tigres, uns leões", comparou. Depois,
comentou que não gostou nem um pouco da reação do atacante
Alexandre Pato ao ser substituído em um dos treinos, o que serviu
para sacramentar a entrada de Rafael Sobis em seu lugar. "Ele ficou
de bico", disse o técnico, sem trocadilho com o apelido do camisa 9.

                                              * * *

Neste domingo, a seleção deixa Shenyang e vai para Pequim. Ficará na Vila Olímpica. É uma bela notícia. Significa que, ao contrário das Olimpíadas anteriores, quando se hospedou em hotéis muito distantes do cenário dos Jogos, a turma do futebol finalmente irá se misturar aos atletas de todos os outros esportes. A convivência só poderá lhe fazer bem.



Por Carlos Roberto S Maranhao - 13:11 | Enviar Comentário | Ler Comentários

 15 de agosto de 2008

Vocês não choraram sozinhas


Elas são pequenas na TV e menores ainda vistas de uma das 18 000 cadeiras do National Indoor Stadium, vizinho do Ninho do Pássaro e do Cubo D'Água. Frente a frente, tornam-se miniaturas de gente. Parecem bonequinhas vivas. Não lembram mulheres, lembram crianças. Quanta frustração em seus olhos infantis que, não é difícil perceber, suplicam por carinho, afago, compreensão, elogio, aplausos - e, mais do que tudo, uma casquinha de sorvete ou uma barra de chocolate, prazeres tão simples que lhes proibem de desfrutar.

Proibem tudo. Não podem ser adolescentes normais, dormir no fim de semana até tarde, xingar, sair à noite, sair de dia. Ter amigas podem mas, se não vão a lugar nenhum, onde encontrá-las a não ser entre elas mesmas? E como arrumar um namorado que aceite uma vida dessas?

Convivem o dia inteiro com a dor, a dor intensa dos alongamentos no limite da resistência dos músculos, a dor do impacto, a dor da queda. E com a pior das dores, as dores da solidão, da carência afetiva. Desde a infância, estão a maior parte do tempo longe dos pais e dos irmãos.

Convivem também com as pressões permanentes, com o medo, com o pânico. Não exigem delas só o máximo, exigem delas às vezes o impossível. Não admitem que errem.

E no entanto têm que arriscar o tempo inteiro, sabendo que em todo salto, todo exercício no solo, todo equilíbrio nas barras assimétricas, a distância entre a glória e o ridículo é curta como seus bracinhos finos.

Soluçam. Choram. Choram muito. A maquiagem vive borrada, exceto o brilho nas pálpebras que as lágrimas não alcançam.

Aqui estão elas, mochila nas costas, suor enxugado, restos de talco nas mãos diminutas, expondo sua fragilidade, algumas assustadas, outras se esforçando para sorrir, a atender os jornalistas que as esperam depois da final individual feminina da ginástica artística. Eis ali as duas minúsculas italianas, Lia Parolari e Vanessa Ferrari, a falar em voz baixa, quase se desculpando. Ao final da entrevista, a repórter deixa por instantes de ser profissional, beija uma delas no rosto e passa a mão em seus cabelos, como se consolasse uma filha. Um pouco à frente, a russa Ksenia Semenova, 16 anos, inacreditáveis 1,38 metro e 35 quilos, sussurra ao microfone certamente para justificar as circunstâncias de seu quarto lugar, o que a impediu de subir ao pódio conforme Moscou esperava.

Aparece a nossa Jade Barbosa, que depois de ter se saído bem nas duas primeiras provas caiu no solo e, abalada, caiu de novo na saída do salto. No ginásio e na TV, pôde-se testemunhar a bronca habitual - nem por isso menos sofrida - que levou de seu técnico ucraniano Oleg Ostapenko. Ela explica agora que tentou fazer o seu melhor, mas o que adianta dizer isso ou qualquer outra coisa diante de um decepcionante décimo lugar?

Não, não. Maravilhoso décimo lugar. Que mais podíamos pedir de meninas corajosas, determinadas e brilhantes como você, sua companheira Ana Cláudia Silva, as romenas, as australianas, a francesa, a canadense, das que perderam para as americanas Nastia Liukin e Shawn Johnson, mais a ovacionadíssima chinesa Yang Yilin, dando saltos duplos e mortais qual trapezistas sem rede, para apresentar ao mundo inteiro o mais belo, comovente e doloroso espetáculo dos Jogos Olímpicos?

Foi arrepiante. E inesquecível. Vocês não choraram sozinhas.



Por Carlos Roberto S Maranhao - 14:06 | Enviar Comentário | Ler Comentários

 14 de agosto de 2008

A confiança de Escadinha


É desagradável testemunhar derrotas quando se acredita na vitória, o que aconteceu durante a madrugada brasileira desta quinta-feira no Ginásio da Capital, em Pequim, onde o vôlei masculino voltou a perder para os russos. Mas há sempre esperança de que a equipe reencontre seu eixo ao se conversar com um jogador como o líbero Escadinha, que mais uma vez, mesmo batido por 3 sets a 1 (22-25, 26-24, 31-29, 25-19), exibiu na quadra o aguerrimento, a categoria e o entusiasmo que se espera de uma seleção dona de duas medalhas olímpicas de ouro. Aos 32 anos, Sérgio Dutra dos Santos, o Escadinha, é um ganhador. Bem antes de subir ao pódio em Atenas e no Pan carioca, ele sobreviveu como empacotador de supermercado e vendedor ambulante.

VEJA - E agora?
Escadinha -
Temos que nos recuperar. Não vamos perder a confiança em nós mesmos de jeito nenhum. Ela continua grande. Neste jogo de hoje, não nos faltaram oportunidades de passar à frente da Rússia. Desperdiçamos, infelizmente. O fundamental continua sendo a classificação para a próxima fase.

VEJA - Os brasileiros se queixaram muito da arbitragem. Você acredita que ela de fato prejudicou a equipe?
Escadinha -
Prefiro não responder. Não vou gastar minha energia com esses caras, não.

VEJA - Se pudesse escolher um adversário para as quartas-de-final, qual você preferia?
Escadinha -
Tanto faz. Estão na outra chave Itália, Japão, Estados Unidos, Bulgária, China e Venezuela, na qual ninguém acreditava e que conseguiu surpreender contra os americanos.

VEJA - Vocês estão conseguindo acompanhar a Olimpíada?
Escadinha -
É difícil. Quando não estamos na quadra, para treinar ou competir, ficamos vendo vídeos das outras partidas e estudamos os adversários. Nossa folga se resume às horas de comer e dormir. Viemos aqui para jogar e ir atrás de uma medalha. O resto é o resto.



Por Carlos Roberto S Maranhao - 09:48 | Enviar Comentário

 13 de agosto de 2008

Ai, que saudades da Janeth!


Nas quatro últimas Olimpíadas, a ala Janeth Arcain brilhou dentro da quadra e ajudou o Brasil a ganhar duas medalhas: uma de prata, em Atlanta-1996, outra de bronze, em Sydney-2000. Nesta quarta-feira, ela estava sentada sozinha, muito séria, numa tribuna do Ginásio Olímpico de Pequim, onde a seleção feminina perdeu sua terceira partida consecutiva, agora para a Letônia, por dramáticos 79 a 78. Assim, as chances de se chegar às quartas-de-final, que já eram difíceis, tornaram-se remotas. Para dar jeito nas coisas, a essa altura, seria preciso que Janeth voltasse a vestir a camisa amarela.

VEJA - Podemos falar um pouquinho?
Janeth - Só se não for sobre esse jogo.

VEJA - Tudo bem. O que você veio fazer aqui?
Janeth - Eu estou no Comitê Olímpico Brasileiro e vim como embaixadora do Rio-2016. Aproveitei para conhecer as pessoas do Comitê Olímpico Internacional, observar a organização, ver tudo de perto e, claro, assistir a algumas partidas.

VEJA - Você acha mesmo que o Brasil tem condições de fazer uma Olimpíada daqui a apenas oito anos?
Janeth - Dentro das nossas condições, a gente tem. Fizemos um Pan muito bom e muito elogiado. Isso, claro, depende da escolha de nossa candidatura e da união de todos em torno do projeto. O importante é o que a Olimpíada deixará para o Brasil e em especial para o Rio de Janeiro

VEJA - Quais são suas outras atividades atuais?
Janeth - Sou técnica de meu próprio time, formado por jovens de 15 a 17 anos, e comento basquete feminino americano, o da WNBA, na ESPN.

VEJA - A seleção masculina não se classificou para mais uma Olimpíada e a feminina está quase fora da próxima fase. Qual é a saída para o basquete brasileiro?
Janeth - Não sei. Acho que não é o momento de fazer críticas. Saída existe. O ponto fundamental é concentrar no trabalho de base.

VEJA - E a derrota de hoje?
Janeth - Infelizmente, faltou o algo mais. Esse algo a mais apenas quem jogou sabe o que foi.

VEJA - Você está com saudade de jogar e da seleção, um ano após encerrar sua carreira?
Janeth - Muita! Muita mesmo! Se eu tivesse meus 30 anos, quem sabe? Mas estou com 39. Eu fiz a minha parte. Sentirei saudades para sempre.



Por Carlos Roberto S Maranhao - 10:21 | Enviar Comentário | Ler Comentários

 12 de agosto de 2008

Uma sucessão de trapalhadas


Em um país de 1,3 bilhão de habitantes, haja emprego para tanta gente.
Graças às Olimpíadas, abriram-se milhares de vagas de trabalho em
Pequim. Os hotéis, por exemplo, para atender os hóspedes que chegaram em número muito menor do que o esperado, trataram de recrutar uma multidão de funcionários. Ou melhor, estagiários. Apesar de se mostrarem gentis, são mal treinados e se atrapalham com tudo. Para uma tarefa qualquer que poderia ser executada por uma única pessoa, há quatro ou cinco a postos. Em geral nenhum resolve. Quase ninguém entende inglês, que dirá outra língua.

Eis uma pequena história ilustrativa. Em um dos restaurantes do Jade Palace, hotel que se considera quatro estrelas, pede-se uma garrafa de vinho. A carta exibe tintos e brancos locais, chamados Dragon Seal e Great Wall. Vamos à aventura. A bebida não é exatamente ruim e, em páreo com a maioria dos produtos gaúchos à venda nos supermercados brasileiros, até que não daria vexame.

O problema é que ela está bem acima da temperatura ideal. Após várias
tentativas, o garçom finalmente parece se dar conta da necessidade de um balde de gelo para refrescá-la.

- Poderia por favor colocar ali a garrafa?

- Sim, claro - ele responde, compenetrado.

E, com solenidade, começa a derramar o vinho diretamente no balde.

Mas, sejamos justos, certos brasileiros que atravessaram o mundo para acompanhar a Olimpíada ao vivo também exibem peculiaridades de comportamento. Nesta terça-feira, o médico Getúlio Sessim, diretor da Beija-Flor de Nilópolis e primo de seu notório presidente de honra, o
bicheiro Aniz Abrão David, descobriu um restaurante francês onde um
dos garçons é belga, trabalhou alguns meses em Portugal e fala um
pouquinho de português. Vestindo a camisa da escola de samba, Sesssim foi lá com a mulher, o filho pequeno e a babá. Acomodou-se e fez o pedido:

- Não quero feijoada, não - anunciou sem preâmbulos ao perplexo garçom. - Traga um bife. Entendeu? Um bife!

O garçom, milagrosamente, captou a mensagem. Animado, o doutor
Sessim foi em frente.

- E feijão, tem feijão para acompanhar?

A pergunta era incompreensível para o garçom, que abanou a cabeça.

- Feiijão! Não tem feijão, é? Então uma cerveja. Cer-ve-ja! Uma Bohemia. Bo-he-mi-a!

Para os brasileiros que pretendem vir ou estão em Pequim, aí vai a sugestão: o restaurante chama-se Cabernet, fica anexo ao Novotel Peace Beijing e, como o nome sugere, oferece bons vinhos que não são despejados no balde. Mas não tem Bohemia nem feijão.




Por Carlos Roberto S Maranhao - 11:02 | Enviar Comentário | Ler Comentários

 11 de agosto de 2008

A pequena notável


Com seu 1,69 metro, ela parece a mascotinha da seleção feminina de vôlei. Ao lado de mulheres enormes como Thaissa (1,96), sua xará Fabiana (1,93) ou Walewska (1,90), muitas vezes a líbero carioca Fabiana Alvim de Oliveira, a Fabi, 28 anos, joga como uma gigante. Foi a impressão que essa loira elétrica deixou na bela e empolgante vitória brasileira contra as russas por 3 sets a 0, com tranqüilas parciais de 25-14, 25-14 e 25-16. Era começo da tarde em Pequim, meio da madrugada de domingo para segunda no horário de Brasília.

Fabi ajudou, nas defesas e recepções, a vingar parcialmente aquela inacreditável derrota na semifinal olímpica de 2004 em Atenas. As tristes cenas ficaram na memória do torcedor. Estava 2 a 1 para o Brasil. No quarto set, nossas meninas ganhavam por 24 a 19. Desperdiçaram seis chances de liquidar o jogo. E aí...

...aí as russas viraram. Veio o tie-break. Outra vez as brasileiras tiveram o ponto decisivo nas maõs. E então...

...então elas perderam. A partida e a possibilidade inédita de disputar a medalha de ouro. Mas ainda não se pode falar em desforra completa. Faltam seis jogos no caminho para o pódio. Fabi está consciente disso.

VEJA - A decepção de Atenas já foi superada?
Fabi - Não temos falado sobre esse assunto, não. Eu poderei te responder quando terminar a Olimpíada.

VEJA - Vocês vão continuar jogando assim?
Fabi - A gente espera que sim, Mas hoje foi atípico. Nós jogamos muito bem e a Rússia, na verdade, não jogou. Não podemos esperar a mesma fragilidade das adversárias em todas as partidas, não.

VEJA - Qual o seu objetivo em Pequim?
Fabi - É dar o meu sangue, jogando com coração e com alma. Quem sabe ir à final e ser agraciada com uma medalha. Eu tenho um prazer enorme de jogar vôlei e vestir esta camisa.

VEJA - Como é ser a menorzinha do time?
Fabi - Existem alguns pontos positivos. Para defender, as menores como eu têm mais agilidade. Mas o que eu sou sacaneada por essas meninas é impressionante!

VEJA - O que elas fazem?
Fabi - Nem te conto. Elas me chamam de pequena, baixinha, anã de jardim...

VEJA - E o que você responde?
Fabi - Eu digo que para mim é mais fácil arrumar namorado do que para elas.



Por Carlos Roberto S Maranhao - 08:07 | Enviar Comentário | Ler Comentários

 10 de agosto de 2008

O filho do vôlei


Não é fácil ser filho do técnico. Mas é glorioso ser a terceira pessoa da
família, depois da mãe e do pai, a participar de uma Olimpíada. Em Pequim, o jovem levantador carioca Bruno Mossa de Rezende, 22 anos, 1,90 metro, um certo jeito de adolescente, aparelho nos dentes, começou a viver esse desafio exatamente no Dia dos Pais. Entrou no final do terceiro set da vitória do Brasil por 3 a 0 contra o Egito e, com poucos minutos na quadra do Ginásio da Capital, procurou mostrar que está na seleção por mérito individual e não por nepotismo. Sob o tacão do treinador Bernardinho Rezende e a torcida da ex-jogadora Vera Mossa, inesquecível musa das redes nos anos 80 e hoje comerciante em Campinas (SP), Bruno tem pela frente uma parada e tanto: ajudar nosso vôlei, mesmo como reserva, a conquistar a terceira medalha de ouro olímpica e ainda exibir luz própria.

VEJA - Que tal a estréia?
Bruno -
Foi positiva e vencemos o natural nervosismo do primeiro jogo.
Houve alguns desacertos nos contra-ataques e faltou um pouco de
comunicação entre nós, mas isso será corrigido nas próximas partidas.

VEJA - Já foi superado o trauma das derrotas para os Estados Unidos e a Rússia nas finais da Liga Mundial, no mês passado?
Bruno -
Não tem trauma nenhum, não. Não aconteceu nada para fazer
a casa cair. O importante é a Olimpíada. A Liga Mundial já ficou para trás. Passou. Temos é que entrar com muita motivação, mais vontade e mais raiva nas partidas que vamos fazer a partir de agora.

VEJA - O que é ter o técnico como pai?
Bruno -
Atualmente é mais tranqüilo. No começo foi um pouco complicado. Hoje nós separamos bem as coisas. Dentro da quadra, fica tudo dentro do âmbito profissional. Sou apenas um jogador a mais, como qualquer outro.

VEJA - Quais eram as maiores dificuldades para você?
Bruno -
Olha, eu não sabia nem com que nome chamá-lo. Pai? Bernardinho?

VEJA - Como você resolveu esse problema?
Bruno - Não precisei fazer nada, porque não sou eu que me dirijo a ele,
é ele que se dirige a mim.

VEJA - Falavam que você estava na seleção por causa de seu pai?
Bruno -
No início, falavam muito. Mas eu soube me impor.

VEJA - E sua mãe?
Bruno -
Ela é coruja, totalmente diferente de meu pai, um técnico muito
rígido com todos nós. Minha mãe me dá a maior força sempre. É a minha maior torcedora, cara!




Por Carlos Roberto S Maranhao - 11:03 | Enviar Comentário | Ler Comentários

 09 de agosto de 2008

Show no ginásio, decepção na quadra


O basquete feminino, que tantas alegrias deu aos seus torcedores nos
tempos de Hortência, Paula e Janete - para não falar de Heleninha e
Maria Helena -, não veio a Pequim para ganhar medalha.

Mas também não precisava dar a impressão de que sairá da briga
tão cedo. Ao perder da Coréia do Sul por 68 a 62 na prorrogação,
logo na estréia, a seleção brasileira ficou numa situação delicadíssima.

Basta uma rápida olhada na tabela. São dois grupos de seis seleções,
classificando-se as quatro primeiras. Na chave, além da Coréia do Sul
(campeã da Ásia), estão Austrália (campeã mundial, prata na Olimpíada
de Atenas), Bielorússia (terceira da Europa), Letônia (quarta da Europa)
e Rússia (campeã da Europa e bronze em Atenas).

Com o resultado deste sábado, se conseguir a recuperação, o Brasil
ainda pode ficar em quarto. Neste caso, pega nas quartas-de-final os
Estados Unidos (ouro em Atenas). Complicado, não?

O pior é que Kelly e suas companheiras tiveram várias vezes o jogo
nas mãos. Nervosas e algo atabalhoadas, desperdiçaram sua chance
de ir mais longe. "Não vou mentir para você", disse a experiente armadora Adrianinha, que aos 30 anos participa de sua terceira Olimpíada. "Faltou tranqüilidade para nós, ao contrário do que aconteceu com a Coréia."

Segunda-feira, o jogo será muito, muito mais difícil: em um horário assistível - 11h15 de Brasília -, as brasileiras enfrentam as australianas sonhando quase com um milagre.

* * *

A partida foi ruim tecnicamente, mas o Ginástico Olímpico de Pequim, cenário dos torneios de basquete masculino e feminino, é de encher os olhos. Em tudo, parece uma arena americana da NBA: telões de alta definição, conforto absoluto para o público, refrigeração perfeita e som no volume correto. Nos intervalos, entram na quadra animadores de torcida, trupes de malabaristas e mascotes das Olimpíadas para atirar brindes ao público. Um show.



Por Carlos Roberto S Maranhao - 13:17 | Enviar Comentário

 08 de agosto de 2008

A festa que tocou nossos corações


É uma evidente distorção dizer que, como os desfiles das escolas de samba para quem não gosta de Carnaval, todas as festas de abertura olímpica se parecem. Elas de fato são sempre longas e às vezes exageradamente espetaculosas. Têm alguns quadros monótonos. O desfile das delegações, então, depois que a do Brasil passa, parece interminável. Chega a cansar um pouco ver tantos cartolas barrigudos, sejam da Rússia ou do Togo, falando ao celular e dando tchauzinho. E os atletas, então, que não param de tirar fotos e acenar para as equipes de TV?

E vêm Santa Lucia, Chade, Ilhas Cook, Ilhas Salomão, Kiribati, Estados Federados da Micronésia e outros países que não precisamos ter vergonha de não saber apontar no mapa, sucedendo-se numa ordem alfabética para nós mais maluca do que a do jogo do bicho, no qual o avestruz aparece antes da águia e o veado precede a vaca. Ficamos sabendo ao acompanhar a transmissão que Hong-Kong, que faz parte da China, compete separadamente, enquanto a Grã-Bretanha é considerada uma nação só - embora, nas eliminatórias para a Copa do Mundo, Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte tenham suas próprias seleções. Não deixa de ser engraçado.

Mas, com tudo isso, que festa bonita os chineses fizeram. Aquela contagem regressiva, no início da cerimônia, deve ter sido a mais emocionante que alguém criou desde a subida da Apolo XI para levar o homem à Lua. E o hino arrepiante? E aquele globo que ora mostrava a Terra, ora os atletas competindo? E aquela menininha de vestido vermelho cantando? E a pomba iluminada que se transformou no Ninho do Pássaro? E o ginasta Li Ning içado no ar para acender a tocha? E os magníficos fogos de artifício, especialidade inigualável dos inventores da pólvora?

Em meio a um calor sufocante, sem brisa, Pequim foi hoje o centro do planeta e sintetizou, na sua tocante celebração, as esperanças de vivermos num mundo melhor.

Agora, às medalhas.



Por Carlos Roberto S Maranhao - 14:03 | Enviar Comentário | Ler Comentários

 07 de agosto de 2008

Radiante como o anãozinho da Branca de Neve


Com sua camisa laranja e camiseta por baixo, o técnico Dunga suou qual um chinês ao sol sob o calor pegajoso misturado à poluição de Shenyang. Mas, quando terminou o jogo contra a Bélgica, parecia o próprio anãozinho da Branca Neve que inspirou seu nome - de tão radiante que estava.

Que coisa melhor para ele, adepto do futebol de resultados, do que uma vitória de 1 a 0 na estréia, tenha ou não o time jogado bem? O gol demorou a sair? Não importa, pois veio na hora certa. Os adversários terminaram a partida com apenas nove em campo? Ora, na sua opinião foram aplicadas as regras da Fifa que determinam os critérios de expulsão. Assim é o nosso Dunga.

Ele não disse, mas é óbvio: salvo uma catástrofe quase inimaginável - as outras equipes do grupo, conforme se sabe, são a Nova Zelândia e a China, de tantas tradições memoráveis no mundo do futebol -, o Brasil na prática já está classificado como o primeiro na chave C.

Significa o seguinte: para conquistar a inédita medalha de ouro, a seleção de Dunga terá mesmo que vencer mais três vezes: nas quartas-de-final (contra Camarões, Itália, Coréia do Sul ou, muito remotamente, Honduras), na semifinal (ih, há risco de ser a Argentina...) e na final (ainda imprevisível).

Só isso. Ou melhor, tudo isso.

* * *

No hotel em que estão alojadas as quatro seleções masculinas e as quatro femininas que disputam o torneio olímpico de futebol em Shenyang, cada uma em seu andar, não entra jornalista, não entra torcedor, não entra ninguém que não tenha credencial para tanto. Os pais do meia Diego vieram de Ribeirão Preto (SP), onde moram e o filho nasceu, mas não puderam encontrá-lo. "Nem tentamos", contou o empresário Djair Silvério da Cunha, que como a mulher, Cecília, foi ao jogo vestindo a camisa 10 da seleção, que embora seja de Ronaldinho Gaúcho trazia nas costas o nome de seu caçula. Contentaram-se em falar com ele pelo celular, como aliás fazem uma ou duas vezes por dia quando estão no Brasil e ele na Alemanha ganhando a vida.

* * *

Cambistas voltaram a vender entradas à vontade nas calçadas próximas do estádio e, mais uma vez, a polícia não estava nem aí. Estranho, não? Mais estranho ainda: alguns deles as ofereciam por 130 yuans (uns meros 32 reais), o preço impresso no bilhete.

Imagina, claro que não eram falsificadas. Essas coisas não existem na China.



Por Carlos Roberto S Maranhao - 11:32 | Enviar Comentário | Ler Comentários

 06 de agosto de 2008

O futebol ficou igualzinho


Certa vez, o Rei Pelé contou para este repórter que uma das maiores surpresas de sua vida aconteceu, anos e anos atrás, numa cidade chinesa cujo nome nem lembrava mais. Chegou e foi recebido por uma multidão enlouquecida, que sabia estar diante do maior atleta do século XX. "O incrível é que eu nunca joguei lá e eles jamais haviam visto uma partida internacional nem pela televisão", disse admirado.

Eram os tempos em que a globalização ainda não havia atingido o mundo do futebol e a China parecia não ficar no nosso planeta. Não voltam mais.

Nesta quarta-feira, quando começou o torneio futebolístico feminino das Olimpíadas, quem foi ver a estréia das brasileiras contra as alemãs levou um susto no caminho para o imponente estádio de Shenyang, no nordeste do país, a 1 hora de vôo de Pequim. Nas calçadas em volta, o que se encontrava? Vendedores de bandeirinhas das duas seleções (baratíssimas, as menores custavam, antes da obrigatória pechincha, o equivalente a R$ 0,25). E cambistas, pelo menos uma dezena, oferecendo ingressos para hoje e amanhã por preços a combinar.

Policiais uniformizados faziam de conta que não era com eles e continuavam a marchar de um lado para outro, como soldadinhos de corda. De vez em  quando, alguns cuspiam no chão, com muita vontade e o inconfundível ruído horroroso que, após alguns dias, torna-se uma trilha sonora corriqueira aos ouvidos do visitante estrangeiro.

Dentro do estádio, enquanto o jogo não começa, o que se escuta agora pelos alto-falantes? O bom e velho Jorge Ben cantando sucessos da época em que Pelé se espantava com sua popularidade nos confins da China, como Fio Maravilha e País Tropical. De repente, como em qualquer estádio mexicano, brasileiro ou japonês, a torcida passa a fazer ola.

Mas nem tudo foi mesmice. Quarenta e cinco minutos depois do zero a zero entre Brasil e Alemanha, é dado o pontapé inicial do segundo jogo. Parecia quase clandestino. No momento em que a Nigéria e a Coréia do Norte entraram em campo, com aqueles sons de trombeta e toda a solenidade que se espera de um evento afinal de contas olímpico, havia um único jornalista a postos. Era um chinês local, que tagarelava sem parar no celular. Depois apareceram mais três para lhe fazer companhia. Um deles, com perversidade e certo exagero, observou que tinha a impressão de estar diante de um joguinho de pebolim, tal a semelhança entre as jogadoras de cada lado.

Em tempo: as norte-coreanas ganharam por 1 a 0 e lideram o grupo.



Por Carlos Roberto S Maranhao - 11:25 | Enviar Comentário

 05 de agosto de 2008

A Olimpíada do Pato


Alexandre Rodrigues da Silva, o atacante Alexandre Pato, tem um currículo que seria inimaginável no futebol brasileiro até poucos anos atrás. Depois de brilhar em duas ou três partidas pelo Internacional de Porto Alegre, em 2006, ele foi negociado com o Milan da Itália, um dos maiores e mais ricos clubes do mundo - sem jamais ter disputado uma mísera partida no Maracanã ou no Morumbi. Hoje, além de provocar uma espécie de "patomania" entre as adolescentes milanesas, ele tornou-se uma das jovens estrelas da seleção brasileira que tentará a partir de
quinta-feira (dia 7, às 6h de Brasília), na poluída cidade chinesa de Shenyang, a conquista da sonhada e inédita medalha de ouro olímpica.

Aos 19 anos, noivo da atriz Stephany Brito, Pato - que ganhou esse nome por causa da cidade em que nasceu, Pato Branco, no Paraná - tem fama de repetir, nas entrevistas, apenas três frases decoradas. Maldade. Vejamos a seguir.

VEJA - Você já acompanhou alguma Olimpíada pela TV?
Pato -
Uma Olimpíada que eu vi... Qual foi a última mesmo? (O assessor de imprensa da CBF, Rodrigo Paiva, vem em seu socorro: "A de Atenas, em 2004".) É, isso. Mas não me lembro muito, não. Nem das outras. Só da corrida.

VEJA - Que corrida?
Pato -
A do atletismo. Meu irmão foi um atleta, velocista, e por isso eu prestei mais atenção.

VEJA - O que você está achando da poluição de Shenyang?
Pato -
É diferente, a primeira vez que vejo uma ao vivo. Estão comentando muito. Reparei quando acordei e dei uma olhada pela janela do nosso hotel.

VEJA - Antes de vir para cá, a seleção brasileira jogou em Cingapura e no Vietnã. Quais foram suas impressões dos dois países?
Pato -
Hummm.... Cingapura é impressionante. Tem prédios fantásticos, muita tecnologia e é bonita mesmo. O povo é muito simpático, tranqüilo e educado. O Vietnã tem um povo feliz. Quando a gente chegou, deu para ver a felicidade na cara de toda pessoa.

VEJA - O que você sabe da Guerra do Vietnã?
Pato -
O povo sofreu muito. Foi maravilhoso ver esse povo sorrindo de novo e gritando por sua seleção.

VEJA - E a China, até agora?
Pato -
A estrutura que montaram é impressionante também. Estou gostando. E vamos fazer de tudo para chegar à final. Todos sabem que a Olimpíada é um grande campeonato. Bem, preciso ir.



Por Carlos Roberto S Maranhao - 09:24 | Enviar Comentário | Ler Comentários

 04 de agosto de 2008

Rumo a seis medalhas de ouro


Quem gosta de fazer apostas e está neste momento na China deveria ir tentar a sorte nas roletas dos cassinos de Macau. Ou cravar seus palpites olímpicos por escrito. O risco de cair do cavalo é maior do que numa prova hípica, mas como resistir à tentação de jogar com o leitor?

Pois vamos lá. O Brasil tem tudo para conquistar aqui em Pequim, com suas equipes coletivas e seus atletas individuais, seis medalhas de ouro.

Uma no vôlei de praia. Uma no vôlei de quadra. Uma na ginástica artística. Uma no judô. Uma na vela. E uma, finalmente, no futebol.

Se for assim, será batido o recorde das cinco medalhas de ouro alcançado em Atenas, há quatro anos. De uma vez só, dessa forma, levaríamos mais de um terço de todas as que o país já obteve em sua longa história olímpica, iniciada em 1920. São, como sabemos, dezessete.

Natália Falavigna, no tae kown do, entra como coringa na segunda semana caso uma dessas apostas falhe.

Chegou a hora de perdermos nosso complexo de vira-latas nos Jogos Olímpicos, como diria Nélson Rodrigues.

Torceremos juntos.



Por Carlos Roberto S Maranhao - 08:42 | Enviar Comentário | Ler Comentários
 
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