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A ROMÊNIA QUER RESISTIR
A invasão da Checoslováquia faz a Romênia viver
dias de apreensão. Ela é o segundo alvo dos soviéticos,
que querem ordem em seu império
Desde o ano 2 da nossa era, quando as legiões romanas conquistaram o
país, a Romênia tem conhecido muitos invasores hunos, magiares,
búlgaros, turcos, poloneses e russos e caiu sob protetorado ocidental
até se tornar um reino independente, em 1861, e uma República Socialista,
em 1947. Nestes quase 2 mil anos de história, em que a independência se
revezou com a dominação estrangeira, a Romênia sempre resistiu com muito
vigor a tôdas as tentativas de esmagamento de sua nacionalidade. Os romenos
têm um forte motivo para isso: a presença romana em seu território foi
tão marcante, que tanto pela língua como pela cultura êles são um povo
neolatino uma ilha no oceano de povos eslavos.
Na semana passada, mais uma vez o oceano ameaçou
transbordar. Desta vez, como de outras, o perigo de
invasão vinha dos russos, que, após invadirem a
Checoslováquia para frear uma liberalização do regime
comunista de Dubcek, se preparavam para derrubar, também
o Govêrno romeno, considerado rebelde demais para o
gôsto de Moscou.
Comunismo nacional A vizinhança com a
União Soviética tem sido para a Romênia, assim como
para tôdas as nações da Europa oriental que se
tornaram comunistas após a II Guerra Mundial em
grande parte devido à ajuda do exército soviético
um fator de intranqüilidade. Stálin queria que
tôdas essas "democracias populares"
construíssem seu socialismo tendo como alicerce o
modêlo soviético, que misturava burocracia com a forte
presença da polícia política e que vetava todo contato
com as nações ocidentais. Stálin foi mais adiante: as
nações socialistas deveriam comerciar em maior volume
com a própria União Soviética, a quem ficava devendo,
também, as indenizações pela guerra contra o nazismo e
as despesas decorrentes da presença de tropas
soviéticas em seus países.
Para a Romênia, as imposições de Moscou custaram
caro, e nem a morte de Stálin em 1953, nem a nova
política menos rígida aplicada pelos seus sucessores,
conseguiram diminuir êsse pêso. A Romênia teve de
pagar 160 milhões de dólares (Ncr$ 580 milhões) de
indenizações, entregar 85% de sua produção de urânio
à URSS e fazer com os russos metade de seu comércio.
Além disso, para evitar a concorrência, Moscou não
queria que a Romênia explorasse em larga escala suas
imensas reservas de petróleo, e anexou a região da
Bessarábia à Ucrânia uma das repúblicas que
compõem a URSS reduzindo o território romeno de
300 mil para 237 mil quilômetros quadrados.
Em troca de tantas concessões, a Romênia ganhou a
"proteção" militar soviética através de
Pacto de Varsóvia e diversos financiamentos para
desenvolver sua indústria. Mas o nacionalismo e a
característica neolatina sempre foram muito fortes na
Romênia. Sob o firme comando de Ghergiu-Dej, o
"Stálin romeno", o regime comunista
autoritário ganhou forte colorido nacionalista: a
bandeira do país não tem foice nem martelo, o hino
nacional é mais cantado que a Internacional e fala-se
muito mais de "pátria" do que de
"internacionalismo proletário". E para se
distinguir do comunismo burocrático da URSS, do
comunismo revolucionário da China, ou do comunismo
neutralista da Ioguslávia, os romenos lançaram sua
própria criação: o comunismo nacional.
Nova independência Essa corrente
nacionalista levou a Romênia a uma posição de quase
neutralidade no mundo comunista. Os romenos não só se
recusaram a ficar com a URSS contra a China como se
ofereceram para intermediários de um acôrdo, convidando
o Primeiro-Ministro chinês Chou En-lai para visitar o
país em 1966. Por outro lado, ciosos de uma tradição
que sempre os ligou ao Ocidente especialmente à
França e a Itália êles continuam mantendo
importantes relações culturais, econômicas e
políticas com os países da Europa ocidental. Só em
1968, a Romênia receberá 300 milhões de dólares em
vendas e investimentos ocidentais, incluindo a linha de
montagem para a produção anual de 50 mil carros
"Renault" franceses e uma cadeia de hotéis de
turismo americana. Milhares de turistas ocidentais entram
no país sem visto no passaporte e procuram descanso nas
montanhas dos Cárpatos ou no moderno balneário de
Mamaia, no mar Negro versão socialista de
Saint-Tropez onde, entre outras coisas, as
famílias alemãs divididas pelo "muro" de
Berlim marcam, no verão, seu ponto de encontro anual.
Em julho, na massa de turistas e investidores que a
cada ano invade a Romênia, estavam Robert McNamara,
presidente do Banco Mundial, e Pierre Schweitzer, diretor
do FMI, sondando as possibilidades de ingresso da
Romênia nesses organismos ela seria a primeira
nação comunista a dar tal passo na política externa.
Também o milionário americano Cyrus Eaton, conhecido
por sua amizade pessoal com Kruschev e outros dirigentes
comunistas, estêve na Romênia em agôsto último,
verificando a viabilidade de futuros investimentos
americanos no país. Em troca, os romenos aumentam suas
exportações para o Ocidente (estão em segundo lugar na
produção européia de petróleo, abaixo da URSS) e os
caminhões marca Mercedes-Benz com chapas
da Romênia são, hoje, grandes freqüentadores das
estradas da Europa ocidental, transportando frutas e
diversos produtos enlatados.
Na prisão de Doftana Mas foi na
política externa que o país deu seus passos mais
ousados de independência, principalmente a partir de
1965, quando Nicolae Ceausescu sucedeu ao falecido
Ghergiu-Dej na direção do Partido Comunista romeno.
Cedo o discípulo superou o mestre na arte da rebeldia,
confirmando as palavras de Ghergiu-Dej: "Ceausescu
é silencioso e poderoso como a noite".
Autodidata, filho de sapateiros, Ceausescu (pronuncia-se "chô-ches-co")
é um homem sóbrio, alto e corpulento (90 quilos), que raramente aparece
nas recepções das embaixadas, não gosta de fotografias nem de publicidade
sua discrição contrasta com a exuberância bem latina da maioria
dos outros dirigentes romenos. Êle entrou jovem para o partido comunista
clandestino da Romênia e na sua carreira sempre mostrou muita eficiência
e trabalho, qualidades que se somam à autoridade moral: êle não fuma,
não bebe e passou grande parte da vida na prisão de Doftana, em Bucareste,
famosa pelas torturas e péssimas condições em que viviam os prisioneiros.
Ali estêve preso, antes da guerra, pelos fascistas da Guarda de Ferro;
durante a guerra, pelos nazistas; e depois da guerra, pelos stalinistas
que não confiavam na sua inclinação nacionalista. Hoje, Ceausescu é o
homem forte da Romênia, com os cargos de Secretário-Geral do PC e Presidente
da República. Êle deu todo seu apoio à liberalização da Checoslováquia,
protestou duramente contra a invasão e, mais uma vez, se expôs à cólera
do Kremlin. Na semana passada, enquanto as divisões russas tomavam posição
nos 1.300 quilômetros da fronteira com a Romênia, êle mobilizava o povo
na defesa do país, ampliando o serviço militar de quatorze para 22 meses
e ordenando treinamento intensivo e permanente da Milícia Popular,
criada em Bucareste no mesmo dia em que os russos invadiam Praga.
O "gêlo" de Moscou Ceausescu sabe que pode contar
com sua nova Milícia e com amplo apoio nacional Parlamentos,
Partido e povo porque, além de insistir na independência frente
a Moscou, seu regime também vem experimentando a liberalização interna
bem menor, entretanto, que à da Checoslováquia de Dubcek. Em março
dêste ano, êle prometeu mais liberdade e mais progresso econômico para
o país, que já tem uma das mais altas taxas de desenvolvimento
11% ao ano. Também prometeu maior firmeza na política externa. A exemplo
de De Gaulle que visitou a Romênia em maio último Ceausescu
também é contra a existência de blocos políticos e militares dividindo
o mundo.
Para contestar os blocos, a Romênia foi o único
país comunista a continuar mantendo relações com
Israel, após a guerra do Oriente Médio em junho de
1967; a primeira "democracia popular" a reatar
relações diplomáticas com a Alemanha Ocidental; o
primeiro país comunista a ter seu chanceler (Corneliu
Manescu) eleito presidente da Assembléia Geral da ONU. A
prova maior dessa contestação, entretanto, está na
neutralidade de fato da Romênia: hoje, sua
participação no Pacto de Varsóvia é apenas nominal.
Desde que abandonou a conferência dos PCs em Budapeste,
no último mês de março, a Romênia não participou de
mais nenhuma reunião do Pacto de Varsóvia, do qual
está, na prática, inteiramente afastada. Êsse
afastamento conseqüência de sua política
independente e de combate aos blocos lhe trouxe
sérios riscos. Na semana passada, a invasão da Romênia
pelos soviéticos parecia ser mais do que simples
hipótese.
Armas na mão Para Ceausescu, essa ameaça não se dissipou
nem com os desmentidos públicos do embaixador soviético nos Estados Unidos.
Dobrinin o mesmo que anunciou pessoalmente ao Presidente Johnson
a invasão da Checoslováquia pois a história mostra que os russos
já cruzaram fronteiras no passado com diversos pretextos. Hoje seria para
"salvar" o comunismo. Mas graças à simpatia de sua política
externa, êle já recebeu manifestações de apoio tão distintas como as de
Chou En-lai, do Presidente Johnson e do Marechal Josip Broz Tito, da Iugoslávia.
Nesta última, o ex-guerrilheiro Tito prometeu não só enfrentar com armas
qualquer ataque dos russos ao território iugoslavo (partindo da Hungria
ou da Bulgária) como, também, dar ajuda militar à Romênia em caso de uma
agressão soviética.
Em Bucareste, só poucos amigos íntimos sabem onde Ceausescu tem sua modesta
residência particular, que contrasta com o rico palácio presidencial e
com as três casas de campo que o ex-Presidente Ghergiu-Dej tinha espalhadas
pelo país. Mas o que os 19 milhões de romenos sabem com certeza é que
ali mora um líder disposto a afirmar e a defender a soberania de seu país
e desmentir a frase depreciativa do Czar Nicolau II, que até hoje ainda
parece ter apreciadores em Moscou: "A Romênia? Não é um Estado nem
uma nação. É apenas uma profissão..."
PARA A INVASÃO, MUITOS PROBLEMAS
Se os soviéticos invadissem a Romênia
encontrariam os mesmos problemas que fizeram
muitos exércitos do passado de Gengis
Khan aos russos pagar um preço muito alto
pela conquista da região central do país. Em
1241, os mongóis tiveram de lançar todo o seu
ímpeto para forçar a passagem dos montes
Cárpatos e encontrar o caminho que os levaria ao
coração da Europa.
E nas altas montanhas que formam o altiplano
da Transilvânia, o exército "Panzer"
de 100 mil homens do General von Manstein
resistiu por quinze meses, de 1943 a 1944, às
fôrças do General russo Koniev, quase dez
vêzes superiores em homens e armas.
Neste mesmo altiplano situado no centro do país, um exército romeno
de igual número também poderia resistir por muito tempo a um ataque
soviético. Os russos poderiam atacar pelo vale do rio Pruth, cruzando
a fronteira com 300 mil homens, mil tanques modernos e 2.800 aviões
que mantêm concentrados naquela região e, ainda, com o auxílio dos
15 mil fuzileiros de elite da Marinha, prontos para desembarque
nas costas do Mar Negro. A oeste, através do vale do Danúbio, outros
100 mil soldados, 700 tanques e 140 aviões da Hungria poderiam fechar
o cêrco pelo sul. Todo êsse imenso poderio, porém, teria muitas
dificuldades se os romenos subissem para o altiplano: ali os blindados
só podem chegar em marcha lenta e fila indiana.
A superioridade soviética nos ares seria
neutralizada pela defesa antiaérea, fácil de
camuflar e difícil de ser atingida.
Para facilitar uma suposta resistência romena, o altiplano se encontra
com as montanhas dos Balcãs da Iugoslávia, formando autêntico "corredor"
para trânsito de reforços. Quanto à Iugoslávia, ela tem mais aviões
e blindados que os húngaros, romenos e búlgaros em conjunto e suas
tropas são bem treinadas para resistência nas montanhas. Ao contrário
da Checoslováquia, as condições geográficas fariam da invasão da
Romênia ou da Iugoslávia (onde o território é quase todo montanhoso)
uma difícil operação militar.
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