PERNAMBUCO

Recife assiste tôdas as semanas à luta entre
ambulantes e fiscais

De um lado, estão os ambulantes segurando tabuleiros sôbre a cabeça enquanto fogem. Do outro, fiscais da Prefeitrura, acompanhados por um jipe velho, correndo atrás. No meio — caixotes, sacos, frutas, sabonetes, meias, espalhados pelo chão sujo das ruas estreitas do centro da cidade. É uma cena comum nas ruas do Recife, quase diária. Já faz parte de uma guerra que trastorna a vida da cidade e se tornou, na opinião de quase tôda população, "um problema social".

Os lados da guerra — Nessa guerra entre os 10 mil ambulantes e os 36 fiscais que os combatem, há acusações de parte a parte. Os ambulantes se queixam de que os fiscais, auxiliados pela polícia, prendem a mercadoria, batem e fazem prisões ilegais. Jeferson Assis de Queiroz, o "Gordo" — 108 quilos, catorze filhos, mais um de criação (vende carteiras, canetas, lâminas de barbear) é considerado o líder da classe e lembra que anos atrás um guarda municipal matou um ambulante no cais de Santa Rita. Diz que os fiscais "costumam aparecer de peixeira para impor respeito", o que aumenta a confusão.

O Prefeito Augusto Lucena responde que os ambulantes "assassinaram três fiscais e guardas-civis, a pauladas, pedradas e paralelepípedos". Mas se lembra de mais um morto a faca em outubro passado. E Natal Spinelli, chefe dos fiscais que combatem os ambulantes, se queixa de que com seus 49 anos está ficando velho para a missão: "Os nossos homens são magros, subnutridos, levam surras de ambulantes organizados".

Os lados da lei — O Sindicato do Comércio dos Vendedores Ambulantes do Recife, Olinda e Jaboatão, que funciona no primeiro andar de um velho prédio com escadas de madeira, esburacadas e bambas, recomenda: o ambulante que anda não é perseguido. Mas o Sindicato não é ouvido. Apenas 2 mil ambulantes são sindicalizados. O prefeito Lucena comenta: "Ambulante vem do latim, 'ambulare', quer dizer, andar. Mas êles não andam. Ficam parados, entulhando as calçadas do Recife, vendendo caldo de cana, sarapatel, carne verde, sapatos, peças de alumínio, ferro velho e soutiens. Não pagam impostos, sujam as ruas e andam com pêso roubado". Mesmo assim, o Clube dos Lojistas do Recife quer mais energia do prefeito. Os lojistas lamentam que "o Recife atualmente lembra muito bem as ruas persas. Tudo por culpa de Augusto Lucena, que não cumpre as leis que disciplinam a profissão do ambulante".

Uma defesa — O povo, geralmente, está ao lado dos ambulantes. Pessoa de Morais, sociólogo de 42 anos, autor de "Tradição e Transformação do Brasil", tem uma explicação, aceita pelo prefeito, por deputados e padres: Recife é a cidade brasileira de maior vocação metropolitana, depois do Rio e de São Paulo. O número de homens que a procuram, vindos do interior de Pernambuco e outros Estados, é muito grande. Não há empregos para todos. Muitos se tornam ambulantes.




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