01/03/2010 - 15:42
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Livro eletrônico

E-readers podem multiplicar leitores no Brasil?

Natalia Cuminale
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(Getty Images)

Os filmes não deixaram de existir com a chegada da TV, videocassete ou DVD. Ao contrário, ganharam novos canais para atingir o público e, com isso, fôlego extra. É difícil vaticinar se o livro como o conhecemos, velho de treze séculos, resistirá ao aparecimento dos e-readers ou se será beneficiado por eles. Por ora, isso é puro exercício de adivinhação. Mais útil é descobrir o que os dispositivos eletrônicos podem fazer em favor da leitura, assunto especialmente relevante ao Brasil, país em que a elementar habilidade de ler tropeça na ineficiência do sistema de educação: segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) divulgada pelo IBGE em 2009, a parcela de analfabetos funcionais entre a população é alarmante: um quinto dos brasileiros com mais de 15 anos de idade e menos de quatro de estudo sabem ler, mas não são capazes de compreender o que leem.

"O livro digital pode ser um caminho para aproximar os jovens da leitura, já que eles têm mais facilidade para lidar com a tecnologia", aposta Norma Lúcia de Queiroz, professora da Faculdade de Educação da Universidade de Brasília (UnB). "Além disso, o texto pode ser apresentado ali em um outro formato, mais atraente por exemplo."

O período escolar é mesmo o momento para fisgar o leitor. No Brasil, é durante essa fase que se lê mais - ainda que pouco. Segundo a última pesquisa Retratos da Leitura, realizada pelo Instituto Pró-Livro em 2008, quem está na escola lê 7,2 livros por ano. Entre os não estudantes o número cai para menos da metade: 3,4 obras. Ou seja, por aqui, a obrigação faz o leitor. "Você tem que usar uma ferramenta para levar o potencial leitor até o livro. Se o equipamento evoluir e conseguir instigar as crianças a descobrir histórias, isso poderá despertar o interesse em ler", diz Zoara Failla, gerente-executiva de projetos do Pró-Livro.

Tornar a tecnologia disponível aos jovens é pouco, na visão de Priscila Gonzales, coordenadora do EducaRede Brasil, portal destinado à formação de professores das redes pública e particular e que se dedica especialmente ao aprimoramento do ensino a partir da inclusão digital. Segundo ela, para de fato arrebanhar novos leitores entre os jovens, os e-books terão de usar todas as armas da tecnologia e internet. Isso significa recorrer aos expedientes conhecidos das redes sociais, em que o compartilhamento das informações (sejam elas relevantes ou não) é a base do negócio. "Pode fazer a diferença se o suporte permitir que as pessoas se comuniquem entre si, que indiquem livros uns para os outros, que se utilizem de hiperlinks a partir de um texto", diz Priscila. "Só transferir o papel para o digital não vai estimular a leitura: a lousa digital, por exemplo, não fez com que os alunos prestassem mais atenção na aula."

Em meio ao mar de expectativas, é prudente identificar as ilhas de ceticismo. E elas existem. Norma Sandra de Almeida Ferreira, presidente da Associação de Leitura do Brasil (ALB) e professora da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), lembra que o suporte não é protagonista na epopeia de conquista de novos leitores. Ainda que os dispositivos se popularizem, seria preciso haver uma mediação, para aproximar o leitor dos textos. "Não basta apenas colocar o livro - em papel ou digital - na mão das pessoas, pois a grande população que não está familiarizada com ele não tem determinadas atitudes necessárias a um leitor. É preciso ler até o fim, aprofundar o estudo, interpretar", exemplifica a especialista. Ao que complementa Plinio Martins Filho, diretor-presidente da Editora da Universidade de São Paulo (Edusp). "Há uma grande diferença entre ler e fazer uma consulta no computador", diz. "Ferramentas como a internet são boas para informar, mas não para formar pessoas."

É certo que os dispositivos eletrônicos de leitura virão, se multiplicarão e ganharão a atenção dos novos leitores. "Para uma criança, tanto faz se o suporte é digital ou convencional: ela não tem nenhum preconceito em relação à tecnologia", diz Miriam Gabbai, diretora da Callis Editora. Ou como coloca Norma Lúcia de Queiroz, da UnB, "segurar um livro de papel é um valor importante para o leitor mais velho. Para os mais novos, isso não faz a menor diferença." Se os pequenos não terão dificuldades para lidar com as maquininhas, resta aos adultos aprender a falar com ela. "Escolas, editoras e instituições de educação precisarão aprender a usar esses dispositivos para estimular o aprendizado", lembra Priscila, do EducaRede.

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