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Com novo CEO, Microsoft tem que encarar mundo pós-PC

Companhia demorou para se adaptar ao cenário da mobilidade. Com venda de PCs em queda, terá de recuperar tempo perdido sob comando de Satya Nadella

Claudia Tozetto
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Steve Ballmer e Satya Nadella: o passado e o futuro da Microsoft (Divulgação/VEJA)

Desde que Steve Ballmer anunciou sua aposentadoria, em agosto de 2013, a Microsoft levou quase seis meses para apresentar o nome do indiano Satya Nadella como seu substituto no comando da companhia. O processo demorado da escolha, que chegou a incluir até especulações de que Bill Gates retornaria ao posto de CEO, é reflexo dos enormes desafios que a maior empresa de software do mundo enfrenta para se manter relevante em um cenário de mobilidade e serviços baseados em nuvem.

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"O risco da irrelevância é o principal desafio que Nadella vai enfrentar como CEO da Microsoft. A empresa corre esse risco no mercado de mobilidade, porque ainda é muito associada aos computadores e servidores, que estão se tornando cada vez menos importantes para os consumidores", diz James Staten, vice-presidente da consultoria Forrester Research, ao site de VEJA.

Líder no mercado de computadores, a Microsoft coloca o Windows em nove de cada dez máquinas vendidas no mundo. Durante muitos anos, o cenário não poderia ser mais confortável. Contudo, a queda na popularidade dos PCs entre os consumidores, impulsionada pela demanda por mobilidade, coloca o principal negócio da Microsoft em risco. De acordo com a consultoria IDC, as vendas de computadores registraram queda 7% no último ano, tornando 2013 o pior ano da história para a indústria de PCs.

Em sentido oposto, os dispositivos móveis não param de crescer. Segundo a consultoria IDC, a venda de smartphones superou a marca de 1 bilhão de unidades ao longo de 2013, um crescimento de 38,4% em relação ao ano anterior. No caso dos tablets, a alta foi superior a 50%. Contudo, a Microsoft, uma das primeiras a levar o acesso a e-mails para o celular, ficou para trás em decorrência da demora em reagir à chegada do iPhone e do sistema operacional Android.

"A Microsoft foi lenta na resposta ao crescimento explosivo dos smartphones, impulsionado por novas interfaces e aplicativos. Embora a última versão do Windows Phone seja tecnicamente competitiva, a falta de aplicativos ainda é um grande problema para a empresa", diz David Cearley, vice-presidente de pesquisas sobre web e computação em nuvem do Gartner.

O primeiro passo da empresa se concretizou com o lançamento do sistema operacional Windows Phone, em fevereiro de 2011. Na época, o sistema operacional Android, do Google, estava bem estabelecido em todo o mundo e já liderava o mercado de smartphones, segundo a IDC, com 39,5% das vendas.

Desde então, a Microsoft tenta recuperar o tempo perdido. Para se tornar mais competitiva, a empresa fez uma parceria estratégia com a Nokia, que culminou na aquisição da fabricante de celulares por 7,2 bilhões de dólares em setembro de 2013. Porém, os resultados alcançados até agora são modestos: o Windows Phone estava em apenas 3,2% dos smartphones vendidos no 4º trimestre de 2013, de acordo com a consultoria Strategy Analytics. Os rivais iPhone e Android, por outro lado, representaram 17% e 78% das vendas no mesmo período, respectivamente.

Em cima do muro – Simultaneamente aos esforços na área de smartphones, a Microsoft adotou uma estratégia distinta para aumentar sua presença no mercado de tablets desde o anúncio da nova versão do Windows 8. A empresa dividiu o sistema em dois, acrescentando uma segunda interface para telas sensíveis ao toque. Além disso, lançou o Windows RT, uma versão do sistema operacional otimizada para tablets.

No total, a Microsoft vendeu mais de 100 milhões de licenças do Windows 8 em todo o mundo até agora. O sistema está presente em diversos computadores e híbridos de notebook e tablet lançados em 2013. Contudo, o Windows RT fez pouco sucesso entre os tablets, principal alvo da Microsoft. Fabricantes como Dell e Lenovo abandonaram o sistema em 2013. Atualmente, apenas a própria Microsoft e a Nokia fabricam tablets com Windows RT.

"Para avançar, a Microsoft terá que superar essa cultura de manter um pé no mundo antigo e outro no novo. O mercado exige um compromisso maior com o que é novo", diz Staten, da Forrester. Entretanto, como mais da metade da receita da empresa vem de clientes corporativos — em maioria resistentes a mudanças radicais —, a Microsoft deve enfrentar dificuldades para convencer clientes e parceiros a embarcar no processo de transição.

Como resultado das mudanças internas, a Microsoft deve unificar os três sistemas em um futuro próximo, o que pode tornar sua estratégia mais parecida com a de seus principais rivais, a Apple e o Google. "Nós temos o Windows Phone, o Windows RT e o Windows completo. Nós não vamos ter três sistemas operacionais", disse Julie Larson-Green, vice-presidente de dispositivos móveis da Microsoft, em um evento no final de 2013.

"Eu não ficarei surpreso se a Microsoft acabar com a interface antiga do Windows e investir fortemente na nova interface, conhecida como Metro, da forma mais rápida que puder", diz Staten, da Forrester. Para Cearly, Nadella deve fazer mudanças nos próximos meses, mas nada que rompa com a visão atual da Microsoft para seus produtos e serviços. "A estratégia deve incluir mais plataformas móveis de terceiros e produtos inovadores para consumidores domésticos", diz o analista do Gartner.

Seja qual for a estratégia adotada, a empresa ainda tem um longo caminho pela frente para continuar entre as maiores empresas de tecnologia do mundo no futuro. "As oportunidades para a Microsoft são maiores do que nunca. Eu vou dedicar cerca de 30% do meu tempo em encontros com as equipes e será divertido ajudar a definir os próximos produtos", disse Bill Gates, cofundador da Microsoft, em um vídeo de boas-vindas ao novo CEO.

Novo CEO – Antes de assumir a posição de CEO, Nadella foi vice-presidente de produtos corporativos e serviços na nuvem, uma das áreas mais lucrativas da Microsoft. Ele liderou a reformulação de uma série de serviços populares da companhia, como o de e-mail gratuito Hotmail, e também a substituição do serviço de mensagens instantâneas Windows Live Messenger pelo Skype.

"Depois que Nadella entrou na área de serviços na nuvem, a Microsoft conseguiu ótimos resultados, porque introduziu rapidamente versões mais modernas de seus principais serviços", diz Statan, da Forrester. "Uma característica de Nadella é pesquisar muito antes de optar por um caminho. Depois disso, ele não volta atrás."

Entre os principais sucessos de Nadella está a substituição do Hotmail pelo Outlook.com, ocorrida em agosto de 2013. Segundo a Microsoft, o Outlook.com é serviço de e-mail que cresce mais rapidamente em todo o mundo, com mais de 400 milhões de usuários cadastrados.

O mercado já esperava a confirmação de Nadella como novo CEO da Microsoft. Na última semana, o nome dele já aparecia como maior aposta dos analistas de tecnologia — ele era também o favorito de Bill Gates. "Ele vai acelerar a velocidade de tomada de decisões na Microsoft e vai representar uma grande mudança em relação ao Ballmer", diz Staten, da Forrester.

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