20/05/2010 - 19:55
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Genética

Construir novos organismos ainda é sonho distante

Marco Túlio Pires

A nova célula sintética - nome dado pelo Instituto Craig Venter, realizador da pesquisa publicada na revista Science - não impressionou especialistas brasileiros. "O que os cientistas mais querem é criar a vida a partir do nada, o que ainda não é possível. A demonstração de hoje dá um passo adiante nessa direção", foi a definição dada por Gonçalo Amarante Pereira, professor do departamento de genética da Unicamp. Por isso, de acordo com Pereira, o resultado dessa pesquisa é mais filosófico do que científico.

A pesquisa foi liderada por J. Craig Venter, biólogo-empresário que chefiou o programa privado de sequenciamento do genoma humano concluído em 2003. No caso da célula sintética, o grupo de cientistas utilizou duas técnicas que já haviam sido desenvolvidas pelo instituto: o transplante de um genoma natural entre microorganismos e a replicação de um genoma de bactéria de maneira sintética – um procedimento em que os cromossomos são construídos com substâncias químicas, a partir de informações contidas em computadores. Para criar a célula sintética, eles introduziram um genoma artificial numa célula natural. Segundo Venter, aprender a copiar sinteticamente organismos que já existem na natureza é o passo inicial para que outros avanços – bem mais espetaculares – aconteçam.  

O professor do departamento de Bioquímica e Imunologia da Universidade Federal de Minas Gerais, Sérgio Pena, acredita, porém, que construir genomas originais será uma tarefa dificílima. "Na medida que os genomas aumentam de tamanho, a dificuldade não é linear, é exponencial”. Isso porque o genoma sintetizado pela equipe de Craig Venter é um dos mais simples. “Se dobrarmos a complexidade do genoma o trabalho será quatro ou oito vezes maior". No entanto, ele acredita que a pesquisa abre campo para a humanidade construir microorganismos que executem tarefas específicas, como a sintetização de moléculas provenientes do petróleo.

Para a presidente da Sociedade Brasileira de Genética Mara Helena Hutz, grandes avanços na área de genética ocorrem desde a década de 1970, mas o desejo do homem em encontrar cura para doenças pouco se concretizou. "Quando o genoma humano foi sequenciado pensavámos que a cura para várias doenças seria encontrada nos cinco ou 10 anos seguintes, mas nada disso ocorreu". A pesquisadora não acredita que a criação da chamada "célula sintética" irá causar revolução no panorama atual. "O estudo apresenta uma nova perspectiva, assim como ocorreu com as células-tronco e a terapia gênica", explica.

 

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