Entrevista: David Langridge

União entre games e e-books estimula aprendizado, diz executivo da Microsoft

Responsável por ajudar editoras de livros didátivos a migrar para o ambiente digital fala sobre os desafios — e o potencial — das obras virtuais

Rafael Sbarai
David Langridge, executivo da Microsoft em Londres

David Langridge, executivo da Microsoft em Londres (Divulgação)

A Microsoft ainda não tem um aparelho específico para a leitura de livros digitais (o Surface permite o consumo de e-books, mas trata-se na verdade de um dispositivo com com funções típicas de um tablet). Isso não quer dizer, contudo, que o gigante do software esteja alheio às evoluções do setor de e-books. A empresa vem auxiliando editoras de livros didáticos a transpor suas obras para o mundo digital, fornecendo software e inteligência. O responsável pela tarefa é o inglês David Langridge, executivo de parcerias da Microsoft. Em visita ao Brasil, Langridge participará do 4º Congresso Internacional do Livro Digital, que acontece nesta quinta e sexta-feira na Federação do Comércio de Bens (Fecomércio), em São Paulo. Lá, ele realizará uma palestra sobre o assunto. Na entrevista a seguir, ele fala sobre o presente e o futuro das obras virtuais — que devem, na visão dele, coexistir com livros de papel por muito tempo — sobre como os games podem ajudar na educação e também acerca do desafio do novo formato: "As obras em papel não deveriam ser simplesmente transpostas ao formato digital." Confira a seguir a entrevista que ele concedeu a VEJA.com.

Leia também
Amazon enfrenta obstáculos para lançar Kindle no Brasil

Fotos:  A evoluação dos e-books
Novo Kindle Fire, uma boa alternativa ao iPad

Com o avanço dos livros digitais, qual será o futuro das obras em papel? Vamos acompanhar por longos anos o consumo híbrido de livros físicos e digitais. O que importa é o que se lê. Não onde se lê. Dos mais de 1,4 bilhão de estudantes de educação básica e ensino superior no mundo todo, apenas 8% têm acesso a um tablet ou PC. A Microsoft acredita que o universo virtual exerce fascínio nos jovens e, com o auxílio desses e-books, pode apresentar a leitura para esse público de maneira surpreendente. A companhia sabe o quanto esse novo formato pode acelerar o processo de aprendizado de muitos estudantes.

Podemos dizer o mesmo das bibliotecas convencionais? Sim. Elas terão um papel ainda mais importante, principalmente nos países mais pobres. Existem muitas nações com um acesso limitado à tecnologia. As informações mais confiáveis estão armazenadas nesses ambientes.

O senhor acredita que os games podem ser um aliado dos livros e da educação? Sem dúvida. O conceito de gamificação (uso da lógica dos jogos em atidades não lúdicas, como o aprendizado) é um estímulo à leitura que não deve ser ignorado – principalmente entre as novas gerações. Aliar elementos dos jogos a enredo envolvente e uma recompensa no fim da jornada pode trazer benefícios à educação.

No século XV, os tipos móveis de Gutenberg permitiram que um livro fosse reproduzindo em larga escala, revolucionando o acesso à informação e ao conhecimento. É possível estabelecer um paralelo entre aquele evento e a popularização do livro digital hoje? Infelizmente não tenho uma resposta a essa pergunta. Isso vai depender exclusivamente dos usos que serão conferidos às obras digitais. O formato digital terá um papel nada desprezível no conhecimento coletivo. Mas isso vai depender de qual modelo será adotado: apenas replicar o livro impresso em um dispositivo móvel não traz nenhuma vantagem.

Suponha que o senhor tem duas versões de um mesmo título à disposição: a física e a digital. O que o faria escolher o formato tradicional? Não depender nunca de bateria e não precisar consertá-lo. No máximo, estragarei algumas páginas.

Na mesma situação, o que o faria escolher um e-book? Antes de responder sua pergunta, gostaria de frisar que, na minha visão, as obras em papel não deveriam ser simplesmente transpostas ao formato digital. Dito isso, creio que eu optaria por um e-book em busca sobretudo de interatividade. Assim, poderia fazer anotações, grifar passagens, ouvir a leitura de textos em vários idiomas, compartilhar trechos e frases, facilitando até um trabalho coletivo entre leitores de uma mesma obra. O e-book estimula a criação de habilidades necessárias para o século XXI: a colaboração de conhecimento.

Os livros digitais preocupam autores e editoras por causa da facilidade de reprodução ou modificação dos arquivos digitais. Qual é sua opinião a respeito? A propriedade intelectual sempre foi tratada com prioridade para a Microsoft e para alguns escritores. Considero benéfica, contudo, a interferência de um estudante em uma obra, por exemplo, para tentar compreender o que foi escrito. Cada pessoa tem um modelo de aprendizado – e isso deve ser respeitado. As leis de propriedade intelectual beneficiam a todos: fortalecem as economias, criam oportunidades de emprego, estimulam o progresso tecnológico e fornecem aos clientes uma experiência que eles merecem.

A Amazon iniciou suas operações no Brasil no ano passado oferecendo um vasto catálogo de obras digitais e seu leitor, o Kindle. Até o momento, a companhia apresenta números tímidos. O senhor arriscaria uma explicação? É uma questão cultural que eu não tenho condição de responder com propriedade. Talvez eles não ofereçam o que os consumidores brasileiros buscam.

Que papel a Microsoft quer desempenhar no mercado de livros digitais? A tecnologia mudou o modo como consumimos informação. Hoje, estudantes aprendem a qualquer hora, em qualquer lugar – dentro e fora da sala de aula. A Microsoft precisa estar no meio desse caminho para auxiliá-los a acessar um volume ainda maior de conhecimento.

Em 2012, a Microsoft investiu 300 milhões de dólares na rede de livrarias Barnes & Noble. No mês passado, as ações da rede subiram 18% devido à expectativa de que a Microsoft faria uma oferta de 1 bilhão de dólares pela Nook Media, setor responsável pela produção de tablets e e-readers. Sua empresa está disposta a fazer essa aquisiçãoInfelizmente, não posso falar nada sobre o assunto no momento.

Conheça os leitores digitais vendidos no Brasil

1 de 7

Kindle

O modelo de Kindle que chega ao Brasil é o básico, de quinta geração. Ele tem uma tela de 6 polegadas, 2 GB de memória interna – o que garante capacidade para 1.400 livros –  e Wi-Fi para baixar obras pela internet. É o mais leve dos dispositivos comercializados pela Amazon, pesando apenas 170 gramas. Suas medidas são 165,75 x 114,5 x 8.7 milímetros. A recarga pode ser feita via tomada, com um adaptador AC, ou pela entrada USB do desktop. Um dos pontos mais notáveis do aparelho é duração da bateria: são mais de quatro semanas seguidas, caso a conexão sem fio esteja desabilitada.

Formatos de arquivos aceitos: PDF, AZW3, AZW, MOBI, TXT, HTML, DOC, DOCX, PRC, JPEG, GIF, PNG e BMP
Preço: 299 reais

Assinaturas



Editora Abril Copyright © Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservados