'O filme tem que arrebatar a pessoa, e não deixá-la distante' - VEJA.com

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Entrevista: Daniel Filho

'O filme tem que arrebatar a pessoa, e não deixá-la distante'

08/01/2009 21:37

Apesar de não empolgar a crítica especializada, o filme Se Eu Fosse Você 2 vem quebrando recordes de bilheteria no cinema nacional. Duas notas sobre o sucesso da comédia (sobre os números da estréia e a marca de um milhão de espectadores), publicadas na coluna Radar on-line de VEJA.com, motivaram mais de 200 comentários de leitores, e a grande maioria elogiava a sequência. Para mostrar a receita de sucesso da produção, a reportagem de VEJA.com conversou com o diretor Daniel Filho:

A continuação de Se Eu Fosse Você já é um sucesso, repetindo o ótimo resultado do primeiro filme. Qual a fórmula certeira para fazer o público sair de casa e decidir ver um filme brasileiro?
Se ela foi um sucesso no primeiro, já sabemos o caminho das pedras. Minha experiência já me fazia acreditar que seria possível ter um novo sucesso. Sabia que poderia repetir os bons números nas bilheterias. As pessoas já têm uma simpatia pelo tema do filme, mas você precisa conhecer uma maneira de não decepcioná-lo. O filme deve chegar facilmente a pelo menos 2 milhões de espectadores.

Por que os filmes bem avaliados pelo público, como os dois Se Eu Fosse Você, ainda apanham da crítica no Brasil?
Isso é normal. Atualmente a critica só sabe pulverizar. Cada jornal tem quatro ou cinco críticos que acabam criando uma competição entre eles próprios dentro do jornal. Eles lutam para ter uma personalidade, para o público saber quem é o critico tal, do jornal tal. O nome do crítico não é a mesma coisa que era no passado. Isso está acontecendo no teatro também. Com Se Eu Fosse Você, as críticas foram um pouco mais suaves. E esses críticos foram suavizados pelas opiniões dos blogueiros, pela internet, porque o cinema, assim como o esporte, é uma coisa que todo mundo entende. Todo mundo fala a escalação do time mas não está lá para escalar. Normalmente, leio as críticas mais truculentas pela internet. E quando leio, vejo que as pessoas não entendem muito de cinema.

Quais das seguintes afirmações o incomodam: "o filme é para a família"; "o filme é puro entretenimento"; "o filme é para dar risada"; "o filme é para esquecer da vida por duas horas"?
Nenhuma delas me incomoda. É um filme para a família mesmo, e é isso que eu quero ouvir. O cinema é um entretenimento. Como você vai tirar alguém de casa dizendo: "Vocês precisam pensar mais na vida"? Não, você precisa algum tipo de diversão, de emoção, seja para rir, seja para sonhar, para suspirar de amor com alguém na tela vivendo algo que você gostaria de viver e não está vivendo. O filme tem que arrebatar a pessoa, e não deixar ela distante do processo. Acho pretensioso dizer que vou fazer uma obra de arte.

Existe algum segredo para fazer com que tanto o público como a crítica elogiem um filme?
Não sei. Mesmo porque eu não consigo fazer. Mas os críticos estão revisando a fórmula deles. Três críticos me disseram que só iriam assistir o filme com o público, porque na exibição fechada aos jornalistas eles se sentiam isolados. Se você for ao show da Madonna sozinho, você não vai gostar. O legal é a platéia, mas o crítico não se senta com ela, não sente a vibração. Quando fiz o programa Sai de Baixo, colocava uma platéia de classe média, que estava rindo igual às pessoas em casa. Isso ajudava e muito. A platéia é uma peça integrante.

Como acabar com a postura do "não vi e não gostei", muito usada, por exemplo, no caso dos trabalhos do escritor Paulo Coelho?
Fico penalizado pela pessoa que pensa assim. Você pode deixar de tomar um ótimo vinho pensando assim, você pode perder um amor. A pessoa que usa isso está precisando de análise. A vida é um provar. Os que pensam assim precisam ver que muita gente está aproveitando a vida.

Você acha pertinente ser comparado a Paulo Coelho, já que ele, como você, é um produtor de best sellers?
Acho uma honra, pelo amor de Deus. Acho que o cara que faz um best seller é fantástico. Dentro desta linha, eu estaria me comparando até ao Steven Spielberg. Que bom!

Depois do sucesso do primeiro filme, você não teve medo de fracassar repetindo a fórmula no segundo?
Não, porque só aceitei fazer a segunda parte quando tive uma boa idéia para a história, ainda que com o mesmo tipo de humor do primeiro. Eu não contava com esse sucesso todo, mas sabia que poderia atingir um bom público.

Que reação do público você colhe quando anda nas ruas ou vai ao cinema? O que as pessoas comentam?
Vou ao cinema escondido para ver o filme, e o que vejo é delicioso. Você vê que as pessoas embarcam na sua história. O mais interessante é que encontro com algumas pessoas e cada uma comenta uma cena diferente. Isso quer dizer que o filme agradou como um todo. Se existe algo de bom no entretenimento é fazer algo na vida de alguém, como contar uma boa piada. Uma mãe me disse que o filho não conseguia contar uma cena de tanto que ele ria ao lembrar da piada. Isso é o melhor que uma pessoa que trabalha com o entretenimento pode esperar. Você faz alguém feliz por um instante.

Haverá um terceiro Se Eu Fosse Você? Em que você está trabalhando agora?
Vou começar a rodar Chico Xavier e depois tenho outro filme na fila de produção. Mas, se me ocorrer uma boa história, por que não? Não devemos perder a franquia. Se Indiana Jones teve quatro partes e Guerra nas Estrelas teve seis, porque nós, brasileiros, temos de parar? Mas repito: só farei quando tiver uma boa história.

Você aceitaria fazer um seriado com essa história?
Nem pensar. Na quarta semana a história já estaria desgastada.

(Por André Pontes)

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