Se ter alguns quilos a mais já perturba o cotidiano de muita gente, imagine sofrer da doença do milênio, como a Organização Mundial de Saúde classificou a obesidade. "Pedir ajuda para encontrar um número é ter de ver a cara de má vontade da vendedora. Você sai se achando a maior das mulheres", diz a psicóloga curitibana Manu Maciel, de 29 anos, 80 quilos, sobre a experiência banal de entrar numa loja para comprar roupas.
As manifestações de preconceito em matéria de raça, sexualidade e religião são unanimemente condenadas, ainda que apenas da boca para fora – e nesse campo é uma homenagem que o vÃcio presta à virtude -, mas os muito gordos são sempre julgados pelo peso. Na vida real ou na ficção, espera-se que sejam engraçados, espirituosos ou piadistas.
Qualidades morais indesejáveis, como falta de força de vontade, gula incontrolável e até carência emocional, são automaticamente associadas ao excesso de peso. "As pessoas enxergam o gordo como responsável pelos próprios males. É como se a sociedade dissesse que quem quer ser tratado com respeito deve emagrecer, quando, na verdade, todo ser humano deve ser respeitado, independentemente do seu tamanho", diz Allen Steadham, criador de uma ONG que promove a criação de leis para garantir os direitos dos obesos nos Estados Unidos.
As consequências deletérias da obesidade para a saúde são amplamente conhecidas, mas fala-se menos nos males psÃquicos. "A probabilidade de doenças psiquiátricas aumenta conforme o peso do paciente. Quanto mais estressante é o meio ambiente em que o indivÃduo se encontra, maior é a probabilidade de ele desenvolver sintomas de depressão, agressividade ou isolamento social", diz Adriano Segal, diretor do Departamento de Psiquiatria e Transtornos Alimentares da Associação Brasileira de Estudo da Obesidade e da SÃndrome Metabólica (Abeso).
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