Dieta

Spirulina promete trazer saciedade e emagrecer. Médicos duvidam

Rica em proteínas e nutrientes, a spirulina é vendida com a promessa de provocar saciedade e também pode ser usada como suplemento alimentar, mas até para isso existem melhores alternativas

Juliana Santos
Spirulina

Spirulina: de acordo com o registro na Anvisa, não é permitido fazer de alegações de que ela tenha propriedades de saúde ou efeito emagrecedor (Thinkstock)

Entre as dietas e produtos emagrecedores da moda, nem tudo que aparece é exatamente uma novidade. A mais recente tendência entre as "cápsulas emagrecedoras" é a spirulina havaiana (também chamada de espirulina), que já teve seu momento de fama, mas que, com o lançamento de uma nova variação, foi trazida de volta para uma posição de destaque. Uma grande rede especializada em alimentos saudáveis lançou em agosto as cápsulas de spirulina pacífica havaiana. Do mês de lançamento até outubro, a empresa registrou um aumento de 220% nas vendas do produto.

O surgimento de suplementos no mercado que prometem efeitos emagrecedores ocorre com certa frequência — há poucos meses foi a vez do óleo de coco. O problema é que nem sempre esses produtos apresentam comprovação científica de seus supostos efeitos benéficos. "A spirulina se tornou o produto do momento", diz o médico endocrinologista Henrique Suplicy, da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (Sbem).  "Mas volta e meia surge uma substância desse tipo. As pessoas começam a usar e logo aparece outra."

Marcella Garcez, nutróloga e membro da diretoria da Associação Brasileira de Nutrologia (Abran), relaciona a recente proibição de alguns medicamentos emagrecedores com a procura por spirulina. "Com a proibição, as pessoas passaram a procurar outros meios para emagrecer", afirma.

Bactéria — Apesar de ter sido considerada uma alga por muito tempo — e de ainda ser divulgada como tal — a spirulina é uma bactéria capaz de fazer fotossíntese, denominada cianobactéria. Ela vive em colônias com aparência semelhante a algas, o que colaborou para a confusão que durou anos para ser desfeita. As espécies que costumam ser vendidas em cápsulas são a Arthrospira maxima e Arthrospira platensis. "Elas foram identificadas erroneamente como Spirulina e este nome acabou permancendo comercialmente", afirma Célia L. Sant´Anna, pesquisadora do Instituto de Botânica da Secretaria do Meio Ambiente do Estado de São Paulo.

A spirulina pode ser encontrada em lagos, diferentemente das algas, que costumam ser marítimas. Porém ela se desenvolve apenas em águas alcalinas, com pH muito elevado. Em geral, rios e lagos tem pH em torno de 7 a 8, mas a spirulina se desenvolve em águas de pH entre 10 e 11. No Brasil, um local onde ocorrem as condições adequadas para a reprodução dessa bactéria é o Pantanal.

De acordo com Flávia Morais, coordenadora de nutrição de uma rede de produtos naturais, a grande diferença entre a nova spirulina havaiana e a spirulina comum estaria na pureza do produto: a spirulina havaiana, cultivada na região de Kona, no Havaí, seria livre de contaminantes provenientes da tinta utilizada na pintura de cascos de embarcações, e metais como mercúrio e chumbo, que fazem mal à saúde – mas sua composição é a mesma das spirulinas "anteriores".

Falta de comprovação — A spirulina apresenta uma grande quantidade de proteínas – cerca de 60% de sua composição. Ela também possui vitaminas, como o betacaroteno (que pode ser convertido em vitamina A) e vitamina B12. Apesar da composição, especialistas não se mostram confiantes em relação ao efeito emagrecedor prometido. A principal razão apontada é a falta de comprovação científica.

"A spirulina existe há anos, e, como inúmeros outros fitoterápicos que são ditos emagrecedores, não há nada provado sobre sua eficácia", diz Henrique Suplicy. Para ele, um estudo válido para esse caso teria que ser realizado de forma bastante rigorosa, por um período de pelo menos três a seis meses e com o método duplo-cego, ou seja, os participantes seriam divididos em dois grupos, um tomando spirulina e outro placebo, e os médicos que fizessem o acompanhamento também não poderiam saber quem estava em qual grupo.

Um estudo publicado em 2002 no periódico Journal of the American Nutraceutical Association, feito pelo professor Amha Belay, analisa a potencial aplicação nutricional e terapêutica da spirulina. O artigo relata que a spirulina apresenta grande potencial como anticancerígeno, antiviral e como redutor de colesterol, mas o autor reafirma que são necessários mais estudos para que esse potencial possa ser comprovado. É preciso levar em conta, porém, que Amha Belay é diretor, desde 1989, de uma empresa que vende a spirulina comercialmente e que o periódico em que a pesquisa foi publicada é irrelevante no meio científico.

Outra pesquisa, publicada em 2008 no periódico Evidence-Based Complementary and Alternative Medicine (eCAM), levanta a hipótese de que o efeito anticancerígeno pode estar relacionado à presenta de betacaroteno na spirulina. Por outro lado, os autores desse estudo consideram que não existem evidências de alto nível que indiquem seu potencial antiviral. Para esses autores, a spirulina é considerada um suplemento alimentar seguro, sem efeitos colaterais, mas cujos benefícios ainda carecem de comprovação.

Para o nutrólogo Celso Cukier, do Hospital Albert Einstein, falta uma indicação clínica definida que aponte como a spirulina deve ser utilizada. "A spirulina pode ser consumida em pequenas doses, sem que haja algum malefício, mas ela também não tem benefícios comprovados." Ele explica que é mais aconselhável, no caso de um paciente com alguma deficiência nutricional, indicar uma suplementação alimentar específica, como o ferro ou uma vitamina, que se encontram em concentrações maiores e têm efeitos comprovados. Celso desaconselha o uso em quantidades elevadas, devido ao desconhecimento das consequências a longo prazo. "Em termos de saúde, existem vários outros alimentos mais completos do que ela", afirma Henrique Suplicy.

Reduz o apetite? — O efeito de saciedade que é frequentemente relacionado à spirulina pode ser explicado pelo fato de, após ingerida, ela absorver água, aumentando de volume e, portanto, ocupando um espaço maior no estômago. Para Henrique, porém, esse efeito não é tão intenso que possa causar saciedade, considerando-se a média de consumo diário, de duas a quatro cápsulas. Além disso, esse efeito não é observado exclusivamente na spirulina. "Os alimentos ricos em fibras têm este efeito de absorver água e 'inchar' no estômago. Existem algumas substâncias como o goma-guar e glucomanan (duas fibras alimentares) que também são empregadas com este fim", afirma Henrique.

Para Marcella Garcez, da Abran, o efeito de saciedade pode ser obtido, mas para isso seria preciso consumir uma quantidade significativa de spirulina. "Não há uma recomendação diária para a spirulina, pois ela não é um nutriente essencial, o que há é uma recomendação de dose mínima efetiva e dose máxima para consumo sem riscos, isto é para consumo sem orientação médica. A dose efetiva da spirulina vai de um grama a cinco gramas por dia podendo chegar a 15 gramas, como suplemento. Acima de 1,5 grama por dia é ideal que seja consumida sob prescrição", afirma Marcella. Ela recomenda a spirulina para pacientes vegetarianos, devido ao alto teor proteico. Para isso, porém, é necessário consumir uma dose mais elevada da substância, o que deve ser feito sob acompanhamento médico.

Segundo informações da Anvisa, a spirulina não está registrada na categoria de "alimentos com alegação de propriedade funcional". Assim, ela não pode ser vendida com a indicação de substância emagrecedora. 

Dietas e alimentos da moda que não vingaram

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Óleo de coco

O que promete: Consumir o óleo de coco, tanto em forma líquida quanto na de pílulas, antes das refeições aumenta a saciedade - ou seja, diminui a fome -, acelera o metabolismo e ajuda a perder barriga.

O que realmente provoca no organismo: Contém gordura saturada, que, em excesso, ajuda a aumentar os níveis de LDL, o colesterol 'ruim' no sangue e o risco de doenças cardiovasculares.

Opinião do especialista: "O óleo de coco é uma grande enganação. É rico em gorduras saturadas, ou seja, em excesso faz mal, e não tem nenhuma dessas propriedades sobre as quais as pessoas vêm falando. É uma gordura como outra qualquer: pode ser consumida, mas também é capaz de engordar o indivíduo", diz Alfredo Halpern, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e autor do livro Pontos Para o Gordo.

Saiba mais sobre o óleo de coco

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