Pesquisa

A nova - e promissora - ciência do sangue 

Na semana passada, a ciência se aproximou da detecção do Alzheimer e do câncer por meio de exames de sangue. O avanço na compreensão dos biomarcadores permite que uma gota da substância que percorre nossas veias se torne uma fonte inesgotável de informações sobre o corpo humano

Marco Túlio Pires
No futuro, novos exames de sangue poderão ajudar no tratamento de várias doenças

No futuro, novos exames de sangue poderão ajudar no tratamento de várias doenças (Comstock Images)

Os novos exames de sangue podem substituir ou evitar que procedimentos dolorosos e invasivos, como as biópsias, sejam realizados sem necessidade

Doenças antes indetectáveis por meio de exames, como o Alzheimer e o autismo, em breve estarão ao alcance de uma gota de sangue

Qualquer pessoa que já tenha se submetido a um check-up comum sabe da riqueza de informações que um exame de sangue fornece aos médicos. Uma amostra ínfima dos cerca de 5 litros de sangue que, em média, circulam pelo corpo de um adulto, revela a invasão do organismo por parasitas, vírus e bactérias, a carência de nutrientes essenciais ao funcionamento dos órgãos ou a presença de substâncias que podem prejudicá-los. Na semana passada, duas notícias serviram de lembrete para um fato extremamente positivo: a ciência do sangue continua a progredir em grande velocidade, e oferece possibilidades extraordniárias de diagnóstico e monitoramento. Como mostra o quadro abaixo, a detecção de doenças que antes requeriam procedimentos muito mais complicados e invasivos já pode, em diversos casos, ser feita por meio desse exame indolor (está bem, "agulhofóbicos": quase indolor). Novas técnicas deixarão em breve de ser experimentais e chegarão aos hospitais e laboratórios.

A primeira novidade ligada aos exames de sangue veio na última segunda-feira, quando pesquisadores do Hospital Geral de Massachusetts, nos Estados Unidos, firmaram uma parceria de 30 milhões de dólares com a empresa Johnson & Johnson para viabilizar um teste capaz de detectar uma célula cancerígena entre bilhões de outras saudáveis. A segunda notícia, divulgada na sexta-feira, foi a de que cientistas do Instituto de Pesquisa Scripps, na Flórida (EUA), desenvolveram um teste capaz de detectar com precisão o Alzheimer. Atualmente, a doença só é detectada quando o paciente apresenta sintomas, e mesmo assim só é possível confirmá-la após análise do cérebro depois da morte.

Substância dedo-duro — Esta nova geração de exames surgiu na esteira do sequenciamento do genoma humano, em 2000, e do aparecimento de novas técnicas de análise de substâncias químicas, a partir de 2005, que permitiram que os médicos acelerassem a complicada tarefa de vasculhar o sangue atrás de substâncias conhecidas como biomarcadores. 

Os biomarcadores são, em geral, proteínas específicas que o corpo produz por causa de alguma doença. Em alguns casos, o biomarcador pode ser uma célula ou um fragmento do material genético do paciente.

"A busca por biomarcadores ocorre há pelo menos 30 anos, mas sempre foi uma tarefa muito difícil. A tecnologia deixou esse processo menos complicado, possibilitando o surgimento de novos exames", diz o médico americano Robert Christenson, diretor do laboratório de biomarcadores da Universidade de Maryland (EUA).

Mirian Silva

O sangue fala

 

Rede de pesca — Para saber se o paciente está doente, os cientistas misturam o sangue com uma substância química que só reage ao entrar em contato com o biomarcador da doença que estão examinando. É como uma rede de pesca que só aprisionasse um tipo específico de peixe. Caso o peixe — o biomarcador — fique preso, quer dizer que o paciente tem a doença.

Um dos biomarcadores mais assediados pelos médicos são os anticorpos, substância formada por proteínas e produzida pelo sistema imunológico para combater organismos invasores ou células cancerígenas. Se o corpo está doente, ele provavelmente irá produzi-los. 

Cientistas do mundo todo estão procurando por esses "peixes". Um deles foi encontrado em 2007 pela médica americana Mary Whooley, da Universidade da Califórnia (EUA). A equipe da pesquisadora conseguiu identificar um tipo específico de proteína que passava a ser liberada em pacientes que já haviam sofrido ataque cardíaco quando estavam sob stress. O exame desenvolvido é capaz de prever o risco do paciente sofrer novo ataque. “A vantagem é que, para monitorarmos a doença, não precisamos colocar um pedaço de metal dentro do paciente ou submetê-lo à radiação”, afirma Whooley.

DNA — O oncologista romeno Victor Velculescu, da Universidade Johns Hopkins (EUA), publicou no início de 2010 um estudo dizendo que o material genético das células cancerígenas possui padrões de DNA específicos. “Muitas vezes, esse material é arremessado na corrente sanguínea tornando possível identificar o câncer mesmo quando não se consegue pelas vias normais”, explica Velculescu. “Esperamos que em cinco anos o exame esteja disponível para os pacientes”, diz.

Até a identificação de doenças de difícil diagnóstico, como o autismo, poderá ser facilitada com os exame de sangue em um futuro próximo. O médico britânico Anthony Monaco, chefe do laboratório de neurogenética da Universidade de Oxford, conseguiu encontrar uma relação entre o DNA e o autismo. De acordo com Monaco, existe uma diferença marcante entre o material genético de pessoas saudáveis e as que manifestam o problema. Nas doentes, alguns pedaços de DNA são duplicados ou apagados, alterando o comportamento de alguns genes, o que contribui para a manifestação do autismo. “Quanto mais cedo conseguirmos identificar que uma pessoa possui autismo, melhores serão as condições de tratamento e entendimento da doença”. O médico acredita que em três anos será possível ter um exame confiável que ajudará no diagnóstico.

Cura - Muitos médicos acreditam que os novos exames de sangue podem, ao menos indiretamente, encurtar o caminho para a cura de várias doenças. “As pesquisas que buscam entender o sangue e os biomarcadores nos dão condições de aprender mais sobre as doenças”, diz Christenson. Além disso, os exames de sangue ajudam a monitorar a evolução das doenças, acrescenta Velculescu. “Isso é muito importante para descobrir tratamentos que levam à cura”, completa.

Em geral, afirma a médica Lecia Sequist, da escola de medicina de Harvard — uma das pesquisadoras envolvidas com o dispositivo que detecta células cancerígenas —, as novas pesquisas também estão tentando entender a genética humana. “Quais seriam os genes das doenças?”, pergunta a médica. “Poderemos aprender sobre a predisposição genética das pessoas por meio dos exame de sangue. Estamos apenas no início, ainda temos muito a aprender.”

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