Saúde
Entrevista: Aaron E. Carroll
Medo embala mitos sobre saúde, diz pediatra
(Reprodução)
"As pessoas não estão dispostas a abandonar as crenças que explicam seus mundos e suas ações", afirma o pediatra Aaron E. Carroll, professor de pediatria e diretor do Centro de Pesquisa em Políticas de Saúde e Profissionalismo da Universidade de Indiana, nos Estados Unidos. Daquela confiança cega, conclui o médico, vêm a força e a longevidade de muitos mitos - que sobrevivem até mesmo na área de saúde. Um exemplo: se a mulher faz uso de anticoncepcionais, não pode passar por uma terapia de antibióticos, sob o risco de engravidar. "Mito", diria taxativamente Carroll. Ele é coautor - ao lado de Rachel Vreeman - do livro Não Engula o Chiclete! - Mitos, Verdades e Mentiras Descaradas Sobre o Corpo e a Saúde (leia trechos), que seleciona 87 crendices relativas à saúde e as confronta com pesquisas cientificas. Não sobra quase nada de pé. Leia a seguir a entrevista que Carroll concedeu a VEJA.com.
Como surgiu a ideia de escrever o livro?
Na nossa vida profissional, gastamos um bom tempo ensinando pessoas – desde pais até outros médicos – a entender uma pesquisa de saúde. Primeiro, investigamos certos mitos da saúde para lembrar aos médicos, de uma maneira esclarecedora, que é preciso considerar as pesquisas por trás das coisas em que eles acreditam. Quanto mais você olha para essas lendas da medicina, mais percebe o quanto esses fatos são amplamente explicados pela ciência e como pode ser divertido explorar o que é verdade e o que não é sobre o nosso corpo.
O senhor acredita que as pessoas em geral têm uma visão errada sobre esses temas?
Com certeza, muitas têm. Nós sempre nos perguntamos por que esses mitos sobreviveram mesmo quando encontramos estudos tão bons que conseguiam desmenti-los. Não existe uma boa resposta para justificar isso. Alguns mitos ganham poder porque são reproduzidos por pessoas em quem confiamos como especialistas (familiares, professores, médicos etc.). Temos que lembrar que médicos são pessoas comuns e, às vezes, eles também são suscetíveis a crenças em certos mitos. Às vezes, esses mitos parecem ser verdadeiros porque nos ajudam a explicar as coisas que acontecem ao nosso redor. Se nós vemos duas coisas acontecendo ao mesmo tempo, nós gostamos de pensar que elas estão relacionadas. Na verdade, elas devem ser só uma coincidência. Muitos desses mitos também procuram dar explicações a perguntas para as quais ainda não temos resposta. E as pessoas não estão dispostas a abandonar as crenças que explicam seus mundos e suas ações.
Qual a importância do livro para a medicina?
É pouco provável que a crença na maioria desses mitos deixe as pessoas doentes. Pensar que, ao engolir um chiclete, ele ficará sete anos no seu estômago e acreditar que o açúcar pode deixar uma criança agitada são atitudes que podem causar preocupação e stress, mas não farão com que você fique doente. Como pediatras, atendemos crianças muito doentes, com doenças como coqueluche. Essa doença poderia ser prevenida se os pais não tivessem acreditado que as vacinas poderiam causar autismo. Não vacinar uma criança por medo do autismo pode trazer consequências horríveis para elas.
Qual foi a maior dificuldade em escrever o livro?
Algumas lendas foram claramente desmistificadas. Por outro lado, não encontramos evidências claras por trás de outros assuntos. Foi muito difícil escrever sobre essas coisas e fizemos extensas pesquisas para ter certeza que não estávamos esquecendo nada.
O senhor recebeu alguma reclamação de pais que discordaram de algo que está no livro?
Diretamente dos pais, não. Não Engula o Chiclete! é bastante popular entre o público. Quando fazemos entrevistas no rádio ou em programas de TV, as pessoas ficam espantadas ao ouvir a verdade sobre coisas que elas escutaram a vida toda. Alguns se recusam a acreditar, mas outros estão ansiosos para trazer mais mitos para investigarmos.
Sua mãe o advertiu alguma vez para que não engolisse o chiclete?
Com certeza, ela ainda diz isso!







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