Doenças congênitas

Ainda no útero materno, bebê é submetido a cirurgia inédita desenvolvida por médica brasileira

A obstetra Denise Pedreira usou uma técnica desenvolvida por ela mesma para operar um feto diagnosticado com problema congênito da medula. Cirurgia não exigiu cortes e é mais rápida e barata do que as abordagens disponíveis

Vivian Carrer Elias
  • Joaquim Ubaldino

  • A médica Denise Pedreira, responsável pela cirurgia, durante visita à paciente Lidiane Reis Ubaldino, que está internada no Hospital Samaritano, em São Paulo. A foto foi tirada quatro semanas após a operação feita para tratar o bebê Joaquim, diagnosticado com espinha bífida

    Heitor Feitosa

  • A médica Denise Pedreira mostra fotos do ultrassom de Joaquim aos pais Lidiane e Vinícius Ubaldino

    Heitor Feitosa

  • Pelo celular, a médica mostrou fotos do pé, das mãos e de parte do rosto de Joaquim

    Heitor Feitosa

  • Lidiane Ubaldino está na 29ª semana de gravidez. Em 1º de maio, ela passou por uma cirurgia para que seu bebê, Joaquim, fosse operado para tratar a espinha bífida

    Heitor Feitosa

  • O casal no Hospital Samaritano, em São Paulo, onde Lidiane deve permanecer até o parto

    Heitor Feitosa

  • Denise Pedreira, especialista em medicina fetal e perinatal, é a única médica no Brasil que realiza a cirurgia de endoscopia fetal para tratar bebês diagnosticados com mielomeningocele, ou espinha bífida

    Heitor Feitosa

Foto 0 / 7

Ampliar Fotos

Durante o feriado de 1º de maio deste ano, o Brasil foi palco de uma cirurgia feita com uma técnica inédita. No Hospital Samaritano, em São Paulo, a médica Denise Pedreira operou Joaquim, ainda dentro do útero, para corrigir uma doença congênita em sua medula espinhal. A abordagem original, desenvolvida pela médica brasileira, especialista em medicina fetal e perinatal, é mais rápida, barata e segura em comparação com os métodos disponíveis. 

No dia do procedimento, Lidiane Reis Ubaldino, mãe do bebê, estava na 25ª semana de gestação. Em um ultrassom de rotina, Joaquim foi detectado com mielomeningocele, ou espinha bífida, uma anomalia caracterizada pela má-formação dos ossos da coluna vertebral, que não se fecha totalmente até o nascimento e faz com que a medula espinhal fique em contato com o líquido amniótico (fluido que envolve o embrião no útero). Bebês com essa anomalia podem desenvolver hidrocefalia ou perder a capacidade de andar.

Saiba mais

COMO EVITAR, DIAGNOSTICAR E TRATAR
A espinha bífida, um problema congênito que afeta a medula espinhal do feto, tem prevenção. Segundo a médica Denise Pedreira, suplementos de ácido fólico, também chamado de vitamina B9, evitam cerca de 70% dos casos. O ideal é que uma mulher passe a tomar suplementos de 0,4 miligrama da vitamina diariamente um mês antes de engravidar e durante o primeiro trimestre da gestação.

Sinais indiretos da presença do problema já podem ser detectados a partir da 12ª semana no exame de ultrassom morfológico. A confirmação da doença pode ser feita já na 16ª semana. A operação intrauterina somente pode ser realizada entre a 20ª e a 27ª semana de gravidez.

Embora operar o bebê ainda dentro do útero materno também envolva submeter a mãe a uma cirurgia, essa abordagem reduz uma série de riscos. Segundo a médica Denise Pereira, 80% dos bebês com espinha bífida que são operados após o nascimento desenvolvem hidrocefalia e apenas 20% conseguem andar. Por outro lado, 40% dos bebês com o problema operados quando ainda estão no útero materno desenvolvem hidrocefalia, e 40% conseguem andar.

O tratamento padrão para o problema, uma cirurgia "a céu aberto", exige um corte na barriga e no útero da mãe para que o feto seja operado, o que cria um risco de ruptura uterina. A cirurgia endoscópica, por outro lado, faz apenas furos na barriga da gestante, por onde entraram câmera e instrumentos cirúrgicos. A endoscopia fetal é uma tecnologia atual, mas não uma novidade — desenvolvida na Alemanha em 2009, foi feita no Brasil pela primeira vez em fevereiro deste ano pela própria Denise Pedreira.

Mas o método utilizado para operar Joaquim foi diferente dessa vez e, em vez de seguir os padrões alemães, Denise, a partir da endoscopia fetal, fez uso de uma técnica desenvolvida por ela mesma ao longo de 14 anos de estudo. 

Técnica brasileira — "Em fetos com mielomeningocele, os ossos e a dura-máter (uma das meninges que envolvem a medula espinhal) que deveriam cobrir a medula não se formaram, e a medula fica exposta. A cirurgia deve soltar essa medula, colocá-la no canal medular, onde deveria estar desde o começo, e cobri-la com uma película que a proteja e ajude a evitar que a medula se prenda na pele", disse Denise Pedreira ao site de VEJA. "O material dessa película e o lugar onde a prendemos no feto é o que diferencia a minha técnica da alemã."

Na técnica alemã, o médico costura a película do tamanho exato do "buraco" na pele deixado pela medula exposta. Esse trabalho é minucioso, exige que sejam feitos 16 pontos no feto e dura aproximadamente três horas. O método não fecha a pele do feto, mas coloca um curativo nela. Depois, a pele do bebê pode ser fechada naturalmente com a cicatrização ou com pontos depois do nascimento.

O método de Denise não usa a película como um "remendo" da pele, mas sim fecha o buraco costurando pele com pele. A película usada é menor, com tamanho suficiente apenas para cobrir a medula, e não o buraco inteiro deixado na pele. Nesse caso, a película fica entre a pele e a medula – e, por isso, estudos em modelos animais mostraram que o risco de a medula se prender na pele é menor. São necessários apenas de quatro a seis pontos e o procedimento dura uma hora a menos do que o alemão.

Além disso, o material da película utilizada na nova cirurgia foi diferente e nacional – de celulose bacteriana. Segundo Denise Pedreira, enquanto o material alemão necessário para a cirurgia custa no país R$ 5.000, o custo da celulose bacteriana é 99% menor: somente R$ 50.

Usos futuros — Depois de 12 dias da cirurgia de Joaquim, a médica Denise Pedreira realizou a mesma operação em um segundo bebê, Pedro, que foi diagnosticado com problema idêntico. "Acredito que essa técnica vá se tornar padrão. Há inclusive centros de pesquisa nos Estados Unidos interessados em realizar um estudo multicêntrico sobre a abordagem", diz a médica.

É difícil prever, porém, quais serão os efeitos da nova técnica sobre a saúde de Joaquim e de Pedro, já que esse tipo de cirurgia só havia sido feito antes em ovelhas. Mas já é possível observar alguns resultados. Joaquim, por exemplo, embora tenha uma hidrocefalia leve, já não apresenta mais progressão do problema — o que costuma acontecer em outras técnicas. Hoje, a gestação do bebê está na 29ª semana e ele está com 1,3 quilo e mede 38 centímetros.

"Os resultados em animais foram animadores, mostrando um menor risco de a medula se prender na pele após o nascimento. Mas apenas saberemos disso durante os primeiros anos desses pacientes", diz Denise.

info espinha bífida

 

Assinaturas



Editora Abril Copyright © Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservados