Especial

A saúde da República, nas mãos do Hospital Sírio-Libanês

Como funcionam as engrenagens da nonagenária instituição paulistana, que reunindo excelência técnica e um time de médicos com trânsito entre os poderosos recebe protagonistas da política nacional

Natalia Cuminale
Sírio-Libanês: recursos materiais e humanos preparados para lidar com o poder

Sírio-Libanês: recursos materiais e humanos preparados para lidar com o poder (Breno Rotatori)

Divergências e polarizações são parte essencial da vida política. Por vezes, elas são levadas para a esfera pessoal. Há adversários que evitam o aperto de mãos. Outros se recusam a citar o nome do rival ou a dividir o mesmo ambiente. As principais lideranças nacionais, contudo, convergem para o mesmo ponto quando o assunto é saúde: o Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo. De tucanos a petistas, cardeais de todos os partidos recorrem à instituição quase nonagenária, cravada no tradicional bairro da Bela Vista, para cuidar de enfermidades graves, realizar check-ups regulares ou para uma simples consulta com o especialista de confiança. O ex-vice-presidente José Alencar, que permanece internado, há anos desafia bravamente um câncer abdominal com ajuda do Sírio. Dilma Rousseff, diagnosticada há dois anos com um linfoma já debelado de cerca de 2 centímetros na região da axila, também se tratou ali. Costumam passar pelos andares do hospital (doze no bloco A, oito no B) os tucanos Geraldo Alckmin, governador de São Paulo, e José Serra, candidato derrotado à Presidência, o petista e ex-ministro Luiz Gushiken e o atual titular da Previdência Social, Garibaldi Alves Filho, um peemedebista. Em 2010, morreram ali, após longos tratamentos, o também peemedebista e ex-governador de São Paulo Orestes Quércia, vítima de câncer de próstata, e o democrata Romeu Tuma, que morreu em decorrência de falência múltipla de órgãos.

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Lailson Santos

Cardiologista Roberto Kalil, do Hospital Sírio-Libanês

 

Esses líderes, é claro, fazem uma boa escolha. O Sírio é um hospital de ponta, que oferece no Brasil recursos materiais e humanos comparáveis aos de centros de excelência de países ricos. Mas esses políticos poderiam ter optado, por exemplo, pelo Hospital Israelita Albert Einstein, a cerca de 8 quilômetros dali, outro gigante da medicina, que de longe o supera em números. A estrutura do Einstein chega a ser duas vezes maior do que a mantida pelo Sírio em indicadores como área total (200.000 x 100.000 metros quadrados), número de leitos (698 x 333), salas cirúrgicas (38 x 19), funcionários (8.567 x 3.765) e em investimentos: em 2010, foram 255 milhões ante 135 milhões de reais. Políticos de tão elevado poder correm ao Sírio pela mesma razão que leva boa parte dos demais brasileiros a escolher um especialista: a indicação de um familiar, de um amigo ou de outro político de equivalente quilate. São os médicos, com reconhecido saber e largo trânsito político, que atraem a elite dirigente para as salas de consultório, leitos e centros cirúrgicos da instituição – embora, é importante frisar, o Einstein também receba figuras de igual estatura. Em 2009, por exemplo, a atual governadora do Maranhão, Roseana Sarney (PMDB), corrigiu um aneurisma cerebral ali. No ano passado, o então senador Aloízio Mercadante (PT) passou por cirurgia para desobstrução da próstata. "O hospital não tem poder e não é forte. Quem tem poder são o corpo clínico e os funcionários", diz Roberto Kalil, diretor do Centro de Cardiologia do Sírio. Ao que Gonzalo Vecina, superintendente corporativo da instituição, acrescenta: "A maioria das pessoas tem um médico de confiança e esse médico fica no hospital. Os políticos procuram o Sírio devido a seu corpo clínico. Essa é a nossa marca."

Media training – Outra particularidade colabora para ampliar a visibilidade do atendimento do Sírio à elite política. Sua direção permite que os membros do corpo clínico concedam entrevistas (literalmente, às vezes) diante da entrada principal do hospital, explicando sob o brasão da instituição o quadro clínico de seus pacientes. "A primeira regra é perguntar ao paciente se ele quer que a imprensa saiba de sua situação", diz Paulo ChapChap, superintendente de estratégia coorporativa. No caso do tratamento do ex-vice-presidente José Alencar, as explicações médicas acabaram ganhando dimensões espetaculares, com dezenas de jornalistas e câmeras se revezando diante da instituição à espera de uma notícia. Acabaram por transformar os médicos em estrelas. Graças a isso, o grande público aprendeu a reconhecer as feições de Kalil, do oncologista Paulo Hoff e do cirurgião Raul Cutait, entre outros. O Einstein segue política diferente, raramente postando suas próprias “estrelas” diante dos flashes e da porta de entrada. "Você já me viu conceder entrevista diante do hospital?", indaga Claudio Lottenberg, presidente do Einstein. Em tempos recentes isso ocorreu uma única vez: quando o jogador Neymar, do Santos, estava internado devido a uma bolada no olho. Oftalmologista, Lottenberg atendeu pessoalmente a imprensa. "A experiência mostra que, quando há alarde desproporcional, a relação entre paciente e hospital é prejudicada", diz.

Breno Rotatori

Cirurgião Raul Cutait, do Hospital Sírio-Libanês

 

Para encarar a imprensa (e eventualmente brilhar), os médicos do Sírio chegam a passar por um treinamento conduzido pela equipe de comunicação da instituição. "Ministramos um media training completo, com o objetivo de ensiná-los a passar a informação correta da forma mais simples possível", afirma Kátia Camata, gerente de comunicação. Os sete profissionais do setor cuidam também de pequenos mas nada desprezíveis detalhes de um pronunciamento médico, como manter sempre à mão jalecos limpos e impecavelmente passados, de diversos tamanhos. Antes de uma fotografia ou entrevista para a TV, as peças são oferecidas aos especialistas com o previsível aspecto de novo. O setor é responsável ainda por redigir boletins médicos à imprensa usando termos técnicos. Os textos passam pela aprovação de cada membro da equipe clínica: muitos demoram a receber o aval definitivo, pois, não raro, há discordância entre os especialistas.

A estrutura material do Sírio também recebeu reparos para lidar com o assédio da imprensa. Se um paciente de grosso calibre está internado, sua assessoria passa a trabalhar no modo "gestão de crise". Os dois ramais disponíveis no escritório ficam congestionados e o celular de plantão, que a cada semana fica com um funcionário, toca uma vez por minuto. Por dia, chegam ao menos uma dezena de solicitações de entrevistas com os porta-vozes da instituição, além de 150 e-mails. No novo prédio do hospital, será inaugurada em breve uma sala com pontos de internet e telefones: dali, os jornalistas poderão disparar suas informações para redações e até diretamente para o público. Os repórteres ganharão ainda um espaço dedicado, onde poderão passar noites em claro à espera de boletins médicos. Caminhões e vans que fazem transmissões ao vivo de TV contarão com fonte de energia exclusiva, a partir de cabeamento subterrâneo.

Breno Rotatori

Oncologista Paulo Hoff, do Hospital Sírio-Libanês

 

Bico fechado – Um hospital que recebe tantas figuras públicas precisa tomar cuidado redobrado com fofocas nos corredores. Funcionária há 15 anos, Ivana Siqueira, superintendente de atendimento e operação, é responsável por comandar o silêncio de quase 2.000 colaboradores, entre enfermeiras, recepcionistas, secretárias, faxineiras e hoteleiros. "Nossa primeira ordem é garantir a privacidade do paciente. Não é um desafio fácil", diz. Ao serem contratados, os profissionais assinam um termo de confidencialidade e recebem orientações rigorosas sobre como proceder. "Se algum deles conceder uma entrevista e falar algo que não lhe cabe, passará a não ser bem visto por aqui." Nem sempre é possível evitar também investidas externas, de jornalistas e curiosos. No passado, o hospital já teve de lidar com um invasor disfarçado de médico e outro que se passou por advogado. Uma medida de segurança adotada, então, foi transportar os prontuários dos pacientes dentro de sacolas lacradas, dificultando o vazamento de informações confidenciais.

Furar o cordão de segurança ficou mais difícil a partir de 2007, quando foram investidos mais de 3,5 milhões de reais em um sistema de segurança. São 500 câmeras de vigilância, que cobrem todo o hospital, e 250 controladores de ponto de acesso entre áreas restritas. Também foram contratados cem profissionais de segurança, divididos em três turnos. Quando o ex-presidente Lula visitava o vice Alencar, por exemplo, o percurso das autoridades pelo interior do hospital era definido em conjunto pelo líder de turno da instituição e pelo chefe da segurança da Presidência. Se um paciente notório pede para não ser percebido, é função da segurança local oferecer rotas alternativas, normalmente em locais de trânsito interno. Os seguranças e os ascensoristas de elevadores mantêm um canal específico de comunicação, facilitando o deslocamento. No momento em que uma autoridade chega, é possível levá-la diretamente para o local desejado – seja um quarto, um consultório ou uma sala cirúrgica – sem paradas indesejadas. "Quando não há visita de grandes autoridades, tudo segue tecnicamente igual", diz Aguinaldo Testa de Lima, líder da segurança.

Valéria Gonçalvez/AE

Sanitarista Gonzalo Vecina, do Hospital Sírio-Libanês

 

O custo da saúde – Um surrado ditado lembra que não existe almoço gratuito. Pode-se dizer o mesmo dos tratamentos médicos. Os cuidados de primeira classe têm, é claro, um preço alto. O Sírio não foge à regra, mas é consenso que as taxas são justificadamente salgadas. A diária de um quarto simples custa 750 reais. O custo da unidade de terapia intensiva é de 2.133 reais, em média. Uma internação que inclua dez dias de UTI e mais uma semana no quarto não sai por menos de 27.000 reais. Não estão incluídas as despesas com os médicos. No mercado de saúde, comenta-se que o Sírio isentaria os políticos do pagamento de internação e procedimentos em troca de visibilidade. O hospital nega. A hipótese mais provável é que os médicos abram mão da remuneração por consultas, mas é difícil imaginar que façam o mesmo quanto aos honorários relativos a longos tratamentos.

No caso de presidentes e vices, as despesas são custeadas pela própria Presidência. Um ex-presidente, no entanto, não tem direito a isso. No caso de Alencar, as despesas são cobertas por um seguro-saúde particular. O Senado, por sua vez, mantém um convênio com instituições como Sírio e Einstein: os senadores só não têm direito a procedimentos estéticos e experimentais. O benefício continua valendo mesmo depois de o parlamentar deixar o cargo e zela até por sua família, no limite de 32.900 reais anuais. Ministros e ex-ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), que contam com planos de saúde vitalícios, também podem recorrer ao Sírio – além de outras instituições de ponta. Os deputados federais podem buscar ressarcimento por eventuais gastos, mas em breve deverão se igualar a senadores. Segundo o Sírio, a Câmara estuda firmar um convênio com o hospital, nos moldes do existente com o Senado.

A vizinha de Alencar – A despeito de tamanha atenção dedicada à classe política, médicos, gestores e funcionários do hospital repetem insistentemente a versão de que a rotina do hospital não muda. "Com a estrutura que temos, é impossível fechar um andar só para dar mais privacidade a um político, por exemplo", diz Vecina. Ele nega também que haja diferenças entre o tratamento dispensado a pacientes comuns e aos famosos. Assim mesmo, José Alencar está internado no 11º andar, conhecido informalmente como "local dos vips", já que faz parte do setor reformado do hospital e que abriga pacientes de Kalil e Cutait. Por receber muitas visitas, ocupa um quarto duplo, localizado em um dos cantos do hospital – o que lhe garante uma varanda. Mas a acomodação não difere muito das demais, com cama, poltrona, TV de plasma e banheiro. Se solicitado, videogame e notebook. A vizinha de andar Alencar não é vip: Marcela Oka, estudante de psicologia de 21 anos, também internada por conta de um câncer abdominal. Não é muito incomum que, ao caminhar pelo corredor, ela se depare com um ministro ou presidente. Por meio de Cutait, Marcela enviou uma carta a Alencar. "Disse a ele que quando uma pessoa nasce com essa vontade de viver, ninguém pode tirar. Falo isso por experiência própria", diz a vizinha do ex-vice.

Tão importante para os médicos do Sírio quanto o juramento de Hipócrates, feito pelos estudantes no momento de sua sagração como médicos, é o compromisso de tratar com igual zelo os pacientes-políticos e os pacientes-cidadãos. Mas o contato diário com poderosos toca definitivamente a vida dos homens de branco. O primeiro a reconhecê-lo é o oncologista de Alencar, Paulo Hoff. Oficialmente, ele está em férias com a família. Na prática, por conta do delicadíssimo estado de saúde do ex-vice, adiou a viagem. "Quando você tem como paciente aluguém como um chefe de estado, está sujeito à agenda dele, que não é normal", diz. "A consequência disso é um nível maior de estresse." É o preço que se paga por cuidar de alguns dos mais poderosos homens – e agora também uma mulher – da República.

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