Internacional
Irã
Os tiranos da internet
A história mostra que qualquer ditadorzinho de aldeia sabe que sua permanência no poder exige censurar seus opositores. Os jornais são asfixiados economicamente ou simplesmente empastelados e as emissoras de televisão passam para as mãos do estado e vivem de cobrir eventos oficiais e de elogiar os mandatários. Mas como censurar a internet, essa rede caótica sem comando central formada por computadores que podem se ligar por cabos, satélites, retransmissores sem fio e cujos usuários têm meios de esconder facilmente sua identidade?
Mais recentemente, esse desafio foi colocado aos ditadores teocratas do Irã. Desde que povo começou a se manifestar nas ruas contra o resultado fraudado das eleições presidenciais, os aiatolás passam dias e noites tentando cortar as ligações via internet dos iranianos como exterior. Como na China, o sucesso dos religiosos nessa tarefa é apenas relativo apesar do governo de Teerã controlar a única empresa de telecomunicações do país. No desespero, os homens de turbante chegaram a desconectar a internet de todo o país por cerca de uma hora. Há suspeita de que a interrupção foi feita para que se instalasse mais um mecanismo de filtragem de mensagens. Esse novo sistema seria ainda mais poderoso do que os usuais censores digitais já bastante eficientes.
Na primeira semana depois da eleição, 82% do tráfego de serviços de trocas de mensagens e arquivos originados no Irã para o exterior e do exterior para o Irã foi bloqueado. Como se viu, as mensagens que conseguiram furar o bloqueio foram as principais fontes de informação e de imagens do que se passava nas ruas da capital iraniana. Talvez a "Primavera de Teerã" seja a primeira evidência de monta de que é impossível para um governo ditatorial nos tempos de internet interromper as correntes de pensamento que ligam seu povo ao resto do mundo.
É digno de nota e de pesar o fato de que os meios técnicos de censura e bloqueio são colocados ao alcance dos ditadores, seja na China ou no Irã, pelas empresas ocidentais de alta tecnologia. "Infelizmente, os iranianos no poder dispõem do que há de mais avançado na área", diz James Cowie, da consultoria Renesys. Normalmente, países que lançam mão de sistemas de censura usam o método de bloquear determinados sites, filtrando o acesso a eles com base em domínios da internet (o nome digitado na barra de endereços do navegador, como "google.com") ou IPs (códigos numéricos que identificam computadores dentro de uma rede e, com isso, permitem dizer, ao menos em tese, qual a origem de uma certa informação). A esta tecnologia, o Irã somou no último mês um novo tipo de filtro, bem mais restritivo.
Desenvolvido em parceria pela finlandesa Nokia e pela alemã Siemens, duas gigantes da tecnologia, o novo filtro faz varreduras inclusive em emails e mensagens postadas em blogs, em busca de palavras “perigosas”. Se um termo proibido for localizado, a transmissão é interrompida e a pessoa recebe uma mensagem de erro. O método é conhecido como "deep packet inspection" (literalmente, inspeção profunda de pacotes, nome dado a um fluxo digitalizado de informações). Ele consegue interceptar até mesmo telefonemas feitos a partir de programas como o Skype.
Piora o cenário uma outra novidade que o Irã implementou recentemente: um segundo sistema de filtros instalado na empresa de telecomunicação estatal. Dessa forma, tudo o que circula pela rede do país é checado em dobro - um avanço até em relação ao severo controle realizado na China. O fato de o tráfego da internet iraniana estar sendo submetido a essas inspeções minuciosas seria uma explicação para a drástica queda de velocidade da conexão no país em relação ao período anterior às eleições.
Não é a primeira vez que grandes companhias contribuem com governos autoritários para restringir a livre circulação de dados na internet. Google, Cisco e Yahoo já foram acusadas de colaborar com a censura, especialmente na China, outro país em que a liberdade de expressão está sob forte repressão. Em 2006, o Google ajustou o seu sistema de busca para bloquear expressões proibidas pelo governo chinês. Uma pesquisa, por exemplo, por "massacre da Paz Celestial" resulta em erro. A modificação aconteceu depois de constantes interrupções no acesso ao buscador na China. À época, a empresa alegou que era melhor filtrar algumas informações do que não oferecer nenhuma.
O argumento é recorrente. Em 1999, a empresa finlandesa Nixu ajudou a implantar a internet na Arábia Saudita. O pacote incluiu desenvolver e instalar filtros de conteúdo na rede. Diz Timo Kiravuo, que participou do projeto: "Houve um questionamento interno. No fim, concluímos que ou era isso ou, ou a população saudita não teria acesso a nada". É óbvio também que, neste caso, as empresas estão pensando em negócios. Um mercado como o da China, por exemplo, que hoje já é o país com o maior número de pessoas conectadas no mundo, não pode simplesmente ser ignorado por um gigante do setor.
Apesar dos avanços da tecnologia que censura a internet - e da falta de pudor de governantes para fazer uso de tais recursos - os regimes autoritários continuam perdendo a batalha pelo controle exclusivo da informação. Em parte, isso deve ao caráter colaborativo da rede, que permite que pessoas do mundo inteiro ajudem os iranianos a espalhar sua mensagem. A velocidade com que o vídeo do assassinato da jovem Neda Agha-Soltan rodou o planeta é um exemplo claro dessa nova forma de resistência. O mesmo se viu com o esforço de fazer chegar ao Irã números válidos de proxies, ou "servidores substitutos": localizados na Europa, nos Estados Unidos, ou mesmo no Brasil, eles intermedeiam as operações realizadas pelos computadores iranianos e permitem, até certo ponto, driblar a censura. Essa tem sido a estratégia mais utilizada no país para furar os bloqueios. Diz Jillian York, coordenadora de pesquisas da OpenNet Initiative, organização internacional que monitora a censura nos meios digitais: !Felizmente, quem usa a internet, costuma estar um passo à frente de quem quer controlá-la. E este é, sem dúvida, um novo obstáculo para os governos ditatoriais".
Leia a reportagem completa em VEJA desta semana (na íntegra somente para assinantes).




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