Entrevista

As sementes da destruição do comunismo

Archie_Brown.jpg

(Divulgação/VEJA)

O espectro do comunismo rondou não somente a Europa, mas todo o planeta durante o século XX. Nada menos que 36 países aderiram à ideologia de Karl Marx em algum ponto de sua história. Cinco regimes comunistas sobrevivem, mesmo que nominalmente, vinte anos depois da queda do muro de Berlim. Apenas dois ainda mantêm economias de estado. A história desta aventura política foi retratada pelo historiador inglês Archie Brown em seu novo livro, The Rise and Fall of Communism (A ascensão e queda do comunismo, em tradução livre). Professor da Universidade de Oxford e um dos mais conhecidos estudiosos da União Soviética, Brown tenta responder a perguntas simples sobre um tema complexo. Como o comunismo conquistou tantos adeptos no século XX? Como um reformista como Mikhail Gorbachev pode ascender à liderança do Partido Comunista Soviético? A queda do muro de Berlim foi um acaso? Karl Marx dizia que o capitalismo continha as sementes de sua própria destruição. Para Archie Brown, a sentença é válida para o próprio comunismo. Ele concedeu a seguinte entrevista ao repórter de VEJA Thomaz Favaro:

O colapso da União Soviética foi inevitável?
Em 1985, o sistema comunista tinha muitos problemas, mas não estava em crise. O Politburo, a KGB e os militares estavam empenhados em manter uma frente unida, ainda que atrás da fachada monolítica houvesse muita divergência entre eles. Foi a implementação da glasnost e perestroika que deu início à crise. Sem elas, acredito que o sistema soviético poderia ter se adaptado e sobrevivido por mais algumas décadas. Se tivesse durado até 2000, a União Soviética teria se beneficiado do aumento no preço do petróleo que permitiu ao presidente Vladimir Putin ganhar tanta popularidade na Rússia. As reformas, feitas apenas parcialmente, acabaram piorando a situação. No final dos anos 1980, a economia estava no limbo: já não era uma economia planificada do período soviético, mas tampouco fora transformada em uma economia de mercado. E este meio termo não funcionou.

Como um líder como Mikhail Gorbachev pode surgir dentro de um regime totalitário como o da União Soviética?
O escritor russo Alexander Soljenítsin já dizia que não era possível surgir uma liderança reformista dentro do Partido Comunista, pois esta seria eliminada politicamente antes de chegar ao topo da hierarquia partidária. Gorbachev conseguiu porque manteve muitas de suas ideias para si mesmo. Se seus colegas soubessem o conteúdo de suas propostas, jamais o deixariam assumir o posto de secretário-geral do Partido Comunista. O segundo ponto é que ele se tornou ainda mais radical uma vez que chegou ao poder. No início de sua carreira, Gorbachev acreditava que o sistema soviético era reformável. Somente em 1988, quando parte do partido se opôs firmemente contra suas reformas é que Gorbachev percebeu que a transformação precisava ser radical. No final, a única maneira que os comunistas linha-dura encontraram para tentar voltar o relógio foi colocar Gorbachev em prisão domiciliar em 1991, mas já era tarde demais. Com eleições livres, o sistema já havia mudado de tal forma que não era fácil para eles retomarem o poder.

Levantes populares exigindo maiores liberdades individuais fracassaram na China, na Checoslováquia e na Hungria. Por que nunca deram certo?
A idéia de um comunismo reformado não faz sentido. Em determinado momento, o sistema acaba se contradizendo. Se há liberdade de expressão, concorrência partidária e eleições competitivas, não é mais um estado comunista. O caso da Checoslováquia é um pouco diferente, pois foi a invasão dos tanques soviéticos que colocou um fim à Primavera de Praga. Até então, havia uma crescente pluralização da sociedade checa. Eles ainda não tinham eleições livres, mas já tinham boa dose de liberdade de expressão.

O que une regimes tão díspares quanto os que foram implementados na Coreia do Norte, na União Soviética e na Hungria?
O sistema comunista pode ser definido por três características. No campo econômico, o estado controla os meios de produção e a economia planificada. No plano político, o traço principal é monopólio do poder por um Partido Comunista extremamente hierarquizado e centralizado. Por último, há um componente ideológico, que consiste em pertencer a um movimento internacional que está no processo de construção do comunismo, uma sociedade utópica sem divisão de classes. Todos estes países se definiam socialistas e declaravam que o comunismo ainda não havia sido alcançado. Eu prefiro chamá-los de comunistas, uma vez que o termo socialista se aplica a uma ampla variedade de correntes partidárias, incluindo os social-democratas.

A queda do muro de Berlim foi uma obra do acaso?
O porta-voz dos comunistas alemães, Günter Schabowski, falando de improviso à rede americana NBC, deu a entender que os cidadãos da Alemanha Oriental estavam livres para deixar o país. Um canal de televisão da Alemanha Ocidental retransmitiu a mensagem dizendo que "os portões do muro de Berlim serão escancarados", o que não era verdade. Mas a multidão que se aglomerou no local era tão grande que os guardas nada puderam fazer a não ser deixá-los passar. Por conta do fuso horário, o Politburo soviético inteiro estava dormindo. Na manhã seguinte, o embaixador da Alemanha Oriental em Moscou foi avisar Mikhail Gorbachev sobre o ocorrido. O líder soviético então disse que os alemães tinham feito a coisa certa. Embora o momento específico tenha sido obra do acaso, não havia nada de acidental na queda do muro de Berlim em 1989. Gorbachev e seus aliados já haviam decidido que não usariam a força militar soviética para manter o comunismo em nenhum país do Leste Europeu. Caberia aos governos locais conseguir o apoio da população se quisessem manter o regime. Uma vez removida a ameaça de intervenção armada, era uma questão de tempo para que os alemães começassem a derrubar o muro.

Uma pesquisa recente afirma que 57% dos habitantes da Alemanha Oriental acreditam que "a vida era melhor e mais feliz nos tempos do comunismo do que hoje". O que explica esta saudade?
Tenho certeza que se você perguntar a estas pessoas se elas querem a volta da censura e de todas as restrições impostas durante a época comunista, elas dirão que não. Muitos alemães sentem saudades do tempo em que tinham uma garantia de emprego. Este fenômeno pode ser observado também no Leste Europeu. Sempre há perdedores. Observe que em todos estes países há partidos comunistas concorrendo nas eleições, mas eles nunca voltaram ao poder.

Como o comunismo perdura em países como Cuba, Coreia do Norte, Vietnã e Laos, mesmo duas décadas depois do fim da União Soviética?
O movimento comunista internacional acabou. Nem mesmo estes países acreditam seriamente que no futuro o mundo inteiro será comunista. A China já é um regime híbrido. O Partido Comunista chinês encontrou uma maneira de reformar o sistema, introduzindo a economia de mercado, sem perder a hegemonia política. Esta aparente contradição pode continuar por algum tempo. A China está se saindo melhor que a maioria dos países nesta crise econômica. Os demais regimes comunistas mantêm-se apoiados em inimigos externos, em especial os Estados Unidos. No caso de Cuba, a política externa americana contribuiu para a perpetuação do regime. Ninguém jamais imaginou que o comunismo cubano iria sobreviver mais duas décadas depois do fim da União Soviética. Fidel Castro nem era comunista quando tomou o poder. A política americana de isolamento e hostilidade agregou um viés patriótico à ideologia comunista em Cuba. Muitos cubanos se enxergam como Davi diante de Golias.

O regime cubano é o único que ainda conta com simpatizantes no resto do mundo. Por quê?
Fidel Castro foi o Lênin de Cuba. O fato dos irmãos Castro estarem no poder desde o começo da revolução traz um apelo romântico ao regime cubano. Na União Soviética, Lênin e Stálin foram substituídos por Kruschev, que ainda tinha certa popularidade, mas depois por burocratas desconhecidos e chatos. Em comparação, as lideranças cubanas são muito mais carismáticas. Nos países mais pobres, os partidos comunistas perceberam que as pessoas respondem mais entusiasticamente a grandes líderes do que a qualquer ideologia. Estive na China este ano e pude ver que Mao Tse Tsung ainda é reverenciado no país, apesar da ditadura brutal que ele impôs.

Qual foi o papel das lideranças ocidentais, como o presidente americano Ronald Reagan e a primeira-ministra Margaret Tatcher, na derrocada dos regimes comunistas?
O fim do comunismo no Leste Europeu foi uma conquista dos reformistas soviéticos. Os ocidentais foram coadjuvantes. Em 1983, Tatcher foi a um seminário para ouvir a opinião de um grupo de estudiosos da União Soviética, do qual eu fazia parte, sobre como lidar com eles. Foi quando o governo inglês passou a buscar o diálogo com os comunistas. Autoridades britânicas visitaram todos os países do Leste Europeu e Gorbachev, que ainda não era secretário-geral do Partido Comunista, foi convidado para vir a Londres. Depois de conhecê-lo, Tatcher viajou a Washington e convenceu seu amigo Reagan que Gorbachev seria um líder confiável. Até então, o presidente americano mantinha um discurso linha-dura que só fortalecia os comunistas mais conservadores. Estados Unidos e a Inglaterra adotaram então uma política externa comum. Uma das coisas que minou o comunismo foi a interação com os países ocidentais. Gorbachev dizia que foi em suas visitas à Europa que ele percebeu que a vida dos capitalistas não tinha nada a ver com o retrato pintado pela propaganda soviética. Ele começou a questionar a superioridade do sistema comunista quando viu com os próprios olhos como era a vida de seus amigos europeus.

Como o comunismo pode conquistar tantos corações e mentes no século XX mesmo sem apresentar resultados econômicos convincentes?
O comunismo ganhou adeptos principalmente a partir da crise de 1929, quando havia massas de desempregados obviamente insatisfeitos com o regime capitalista. Os comunistas também se beneficiaram do fato da União Soviética ter sido uma das principais forças a combater o nazismo. Mas segundo minha definição de comunismo, apenas 16 países adotaram este sistema. União Soviética, Checoslováquia e Iugoslávia eram federações que se desmantelaram em países menores, portanto 36 estados atuais já foram comunistas, e apenas cinco sobrevivem hoje. Havia também os Partidos Comunistas em países democráticos, mas estes não chegaram ao poder. Em geral, os comunistas atraíam pessoas bem educadas, inteligentes, gente que tinha qualificação profissional e que não era pobre.

Que elementos da ideologia comunista a tornavam atrativa para estas pessoas?
A ideologia comunista oferecia certezas, como as religiões. Marx dizia que tudo fazia parte de um processo histórico, que poderia demorar o tempo que fosse, mas que o triunfo do comunismo era inevitável. Isto trazia conforto aos comunistas que viviam em países democráticos e eram atraídos pela esperança de uma sociedade mais justa, um sistema que evitaria as desigualdades do capitalismo.

O senhor afirma que o comunismo continha as sementes de sua própria destruição. Quais são estas sementes?
Um dos sucessos dos regimes comunistas foi a alfabetização em massa da população e o desenvolvimento de um bom sistema de ensino superior. O problema é que quanto mais educação as pessoas recebiam, mais elas ficavam insatisfeitas com as restrições impostas pelo comunismo. Os universitários da União Soviética queriam escolher seus próprios livros, filmes e destinos de viagem. Na época da Revolução Russa de 1917, quando 80% da população era analfabeta, poucos se preocupavam com isso. Neste sentido, o comunismo continha as sementes de sua própria destruição. Quanto mais as pessoas eram educadas, menos elas gostavam de ser tratadas como crianças.

A queda do muro de Berlim completa duas décadas este ano. O que devemos festejar?
Nem mesmo a crise global será capaz de trazer de volta o comunismo, pelo simples fato de que ele não merece voltar. Sua derrota deve ser comemorada. Estes países eram economicamente ineficientes e politicamente autoritários. Mesmo que alguns cidadãos ainda sintam falta da segurança social daquele período, a maior parte da população tem melhores condições de vida hoje. Em contrapartida, acho que poderíamos ter avançado mais. O fim da Guerra Fria trouxe uma oportunidade única para um mundo mais pacífico. Alguns países do Leste Europeu ainda não conseguiram consolidar suas democracias. Outras ex-repúblicas soviéticas da Ásia Central são mais autoritárias hoje do que eram nos tempos comunistas. A contínua expansão da OTAN foi um erro. A Europa deveria ter criado um novo acordo militar que substituísse os pactos da Guerra Fria. Muitos russos encaram a existência da OTAN e sua expansão nos ex-satélites soviéticos como uma ameaça. Esta política só favorece a ala menos democrática da elite russa. Não há nenhuma razão para nos arrependermos do fim do comunismo, apenas penso que poderíamos ter aproveitado melhor a era pós-comunista.

Assinaturas



Editora Abril Copyright © Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservados