Chile
Posto de musa dos protestos chilenos soa como um déjà-vu
Em 2006, outro movimento estudantil também contava com uma figura feminina jovem, forte e esquerdista - María Jesús Sanhueza era a Camila Vallejo de hoje
Camila Vallejo, líder estudantil chilena, durante manifestação em Brasília (Elio Rizzo/Futura Press)
María Jesús Sanhueza, líder estudantil em 2006
Em junho de 2006, a socialista Michelle Bachelet, então presidente do Chile, se surpreendeu com um movimento semelhante ao que vemos hoje no país, que ficou conhecido como Revolução dos Pinguins. O nome se refere ao uniforme usado pelos estudantes à ocasião: jaleco e gravata. Insatisfeitos com o sistema educacional, os manifestantes ocuparam escolas e realizaram greves que se estenderam por semanas - sem obter grandes conquistas. A líder dos “pinguins”, María Jesús Sanhueza, reunia características que se assemelham às da “musa” do movimento estudantil atual, Camilla Vallejo, presidente da Federação de Estudantes da Universidade do Chile (Fech) - que esteve nesta quarta-feira no Brasil, mas volta ao Chile para um encontro com o presidente da Câmara dos Deputados e a ministra de Direitos Humanos na quinta-feira. Ambas são jovens, figuras marcantes da esquerda tradicional e que defendem um discurso revolucionário firme em defesa de ideais comunistas.
Camila sorri pouco e fala muito - mas apenas quando é questionada. Não vê graça nas piadas dos repórteres que insistem em perguntar sobre sua beleza. Responde, apenas: "Tive sorte de estar nesse momento histórico e presidir a Federação dos Estudantes. Mas isso não se deve à minha imagem. O que eu sou é graças a um coletivo maior de estudantes", declarou ela, na Câmara dos Deputados, em Brasília. Mais tarde, durante um encontro de universitárias, ouviu assovios gaiatos e endureceu o discurso com os homens: "Agora vamos falar sério. Guardem suas cantadas para depois." A indiscutivelmente bela jovem é hábil com as palavras. Não gagueja nem titubeia. Também evita elevar o tom de voz, mesmo do alto do carro de som onde seguiu durante a manifestação de estudantes brasileiros. Demonstra certa vaidade, mas se veste de forma simples - passeou pelo Congresso Nacional de calça jeans, camiseta e boné.
Leia também: No Brasil, Camila Vallejo refuta título de 'musa dos protestos'
Popularidade - Contudo, Camila não é tão popular quanto era María Jesús Sanhueza - embora ambos os protestos contem com a solidariedade dos chilenos. O movimento que Camila encabeça, ao lado de Giorgio Jackson, presidente da Federação de Estudantes da Universidade Católica do Chile (Feuc), conseguiu movimentar todos os setores educacionais, não apenas o ensino médio - como no caso dos "pinguins". Além disso, teve apoio da Central Única dos Trabalhadores (CUT) e de vários sindicatos - um deles fez uma doação de 10 milhões de pesos chilenos (34.190 reais) para o movimento. Na greve geral promovida em conjunto com essas instituições, nos últimos dias 24 e 25 de agosto, o apoio foi de mais de 250.000 pessoas. Diferentes pesquisas feitas no país apontam que entre 75% e 80% da população é a favor das demandas relativas à educação. Não é à toa que, com atualizações diárias sobre política, o perfil de Camila no Twitter some nada menos que 210.780 seguidores. Mas pessoalmente, a personalidade forte não provoca apenas admiração. Pelo contrário.
“É uma líder forte, mas não é levada muito a sério”, constata Joaquín Fermandois Huerta, professor do departamento de História da Universidade Católica do Chile. A ele, incomoda tamanho rechaço à palavra lucro no discurso de Camila. “Lucrar não é um grande pecado. Assim como em outras áreas, no âmbito educacional também pode continuar havendo uma mescla entre privado e público”, opina ele. Por outro lado, defende fortemente a maior reivindicação da líder estudantil de melhorar a qualidade do ensino. Quem também faz distinção entre o movimento e a figura da jovem é Paulina Martinez, 22 anos, estudante da Faculdade de Educação da PUC, que percebe importância no movimento mas critica o posicionamento intransigente e político de Camila. “Pessoalmente, ela não me passa simpatia. Sempre começa falando de educação, para acabar em um discurso político. O tema em questão não é o direcionamento do governo ou o partido comunista dela, é a qualidade da educação”, defende. Paulina acredita ainda que por trás da líder estejam outras pessoas que comandem seus passos e suas falas. “Nem tudo o que defende são ideias próprias como parece”, diz.
Para Sebastian Vielmas, 22 anos, secretário-geral da Feuc, Camila é uma líder "excelente". Porém ele reconhece que sua aceitação é limitada. "Giorgio Jackson, seu braço direito, é mais moderado e alcança setores do movimento a que Camila causa rejeição", explica. Ele admite que o movimento estudantil como um todo tem um posicionamento ideológico de esquerda bastante claro. "Camila Vallejo nunca negou a ninguém ser militante do Partido Comunista. Mas acredito que o descontentamento com o sistema educacional chileno vai muito além dos ativistas políticos", defende. "Existem outros setores sociais que não concordam em seguir por um discurso tão ideológico e filosófico." Segundo ele, muitos jovens já não encontram mais sentido nas direções políticas “esquerda” e “direita” - a crítica, eles dizem, é aos políticos em geral.
Entenda o caso
- • Em maio, estudantes chilenos tomaram as ruas do país para protestar contra a má qualidade do ensino - e as manifestações seguem ocorrendo quase que diariamente.
- • Entre as reivindicações, das quais recebem apoio da maioria da população, exigem principalmente educação gratuita.
- • Em resposta, o presidente, Sebastián Piñera, lançou um plano de reforma para o setor, que amplia bolsas de estudos e créditos a taxas baixas a alunos pobres, mas a proposta não foi bem recebida.
- • No dia 26 de agosto, os confrontos entre polícia e manifestantes causaram a primeira morte: um adolescente de 16 anos, que foi baleado durante a greve geral (quando centrais sindicais se uniram aos jovens).
Vandalismo - Quando começou na federação, no início deste ano, Vielmas não tinha ideia de que o protesto estudantil teria um momento tão relevante pouco depois. “As frustrações são antigas. A educação pública deixada de lado e o endividamento do povo chileno, são coisas que se vê no dia a dia. O movimento estudantil que começou em maio deste ano foi uma forma de toda uma população canalizar suas insatisfações”, define. Entretanto, há duas semanas, o movimento se exaltou de tal forma nos centros estudantis, que culminou em paralisações que não têm data para terminar. Na Universidade Católica, 26 faculdades de um total de 33 decidiram entrar em greve. E quem decide são os próprios estudantes, em votações semanais, por meio de plebiscitos ou assembleias abertas. Depois de uma semana, 22 faculdades continuavam aderindo à greve. Nesta semana, o número caiu para 16. “A faculdade de Educação, por exemplo, retomou as aulas nesta semana, por três votos de diferença. Mas só vamos saber se vamos ter aula na semana que vem, depois da próxima votação”, conta Paulina. Já na Universidade do Chile, onde também se mantém o mesmo sistema de votações entre os estudantes, apenas uma faculdade retomou as aulas em todo o campus.
Desde então, se promovem debates em fóruns quase diários - com participação de professores que compartilham de algumas das ideias defendidas pelo movimento. A decepção é o quórum, muitas vezes baixíssimo se comparado ao grande volume de pessoas que se aglomeram nos atos pelas ruas. Outro problema é que os protestos acabam, de certa maneira, incentivando o vandalismo. Nesta quarta-feira, cerca de 50 estudantes do ensino médio invadiram as dependências do Ministério da Educação gritando slogans contra o ministro do Interior, Rodrigo Hinzpeter, e exigindo sua renúncia pelo caso de Manuel Gutiérrez, jovem de 16 anos morto pelo disparo de um policial. Os manifestantes, que criticam a Fech ou a Feuc por não darem voz a colégios da periferia, quebraram vidros e se dirigiram aos pisos superiores até entrarem no escritório do ministro da Educação, Felipe Bulnes - que hoje participou de uma sessão do Senado em Valparaíso, onde os estudantes também causaram danos. Durante a audiência, as acusações contra Hinzpeter foram rechaçadas, mas a oposição não descarta apresentar uma nova difamação acusatória pelo assassinato do adolescente, a primeira (e, espera-se, única) vítima fatal dos confrontos entre jovens e policiais nas ruas chilenas.
Leia na coluna de Ricardo Setti:
"Mudei de opinião sobre o movimento dos estudantes chilenos. Ainda mantêm o núcleo na suposta melhoria da educação, mas de demonstrações até há pouco pacífica passaram a promover baderna, lançam pedras e coquetéis molotov contra a polícia e edifícios públicos e, inequivocamente, estão se mobilizando mesmo é contra o governo “de direita” do presidente Sebastián Piñera, legitimamente eleito em segundo turno em janeiro do ano passado – vencendo, por maioria absoluta, o ex-presidente Eduardo Frei, da coalização de centro-esquerda Concertación."



Comentários
Emanuel Nunes Silva
A menina Camila Vallejo nunca deveria ter aparecer por aqui, pois não passamos de um bando de inúteis acomodados, iludidos e conformados, que jamais entenderá a simplicidade dos seus argumentos. Ela mostra a todos que basta cumprir o que está explícito na CONSTITUIÇÃO, que sobre a qual todo presidente, Governador... Faz o se(..)
04.09.2011
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Renata
Muito bem Camila! Sendo rica ou nao.. pelo menos aparece e luta contra o que esta mal. Educacao tem que ser de qualidade e isso tem que ser uma luta dos pobres e dos ricos!
01.09.2011
Pedro Calvo
O plano do governo chileno é, na verdade, privatizar o sistema público de ensino do Chile, EU estive la e busquei essa informação. Não tem muito a ver conosco ou com algo que devíamos fazer, mas tenho certeza que se caso o governo brasileiro tentasse fazer algo similar, as caras iam voltar a ser pintadas!
01.09.2011
ruben rodrigues
isso me lembra que na época dos "carapintadas" que ajudaram a derrubar o collor, estava o "muso" lindberg farias. hoje o gatuno faz o jogo sujo de sempre dos nossos políticos, abraçadinho com o collor e o que de mais podre existe em brasilia....
01.09.2011
Geraldo
Já não bastam os arruaceiros brasileiros, temos que aturar uma arruaceira chilena dando pitaco aqui? é pracabá!!!!!
01.09.2011
Karl Marx da Silva
Amigos, tudo isso é "fashion"! Poderia ser baile "funk", UNE (de hoje) briga peleo vale-transporte ou coisa parecida. NÕ existe democracia! Nunca existiu! Ainda bem! O povão, NÃO tem capacidade nenhuma para se auto-gerir! Lógico! Só não vê quem não quer (ou faz de conta).
01.09.2011
RODRIGUES DE FREITAS
O engraçado de história, é que esses jovens são de classe média alta, que vivem na mordomia dos país ricos, e que para aparecerem na mídia adotam posturas radicais, como o marxismo. Passado o "rebú", vão para os EUA, morar lá.
01.09.2011
SCF
Pois é, são os velhos agitadores da esquerda, com o velho lobo em pele de cordeiro. Primeiro, fazem rebuliço usando um pretexto qualquer (nesse caso, a Educação). Depois, mostram sua verdadeira face, buscando enfrentamento e desestabilização dos adversários políticos democraticamente eleitos.
31.08.2011