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Petismo tipo exportação
31/05/2009 10:59
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Por doze anos, a Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional (FMLN) manteve acesa uma sangrenta opção preferencial pela guerrilha com o objetivo de derrubar o governo e implantar o regime comunista em El Salvador. O conflito deixou um saldo de 75 000 mortos, dividiu o país e o mergulhou em uma profunda crise econômica, social e política. Nesta segunda-feira, 29 anos depois de trocar as armas pelo palanque, finalmente, a FMLN assume o poder. A festa da posse de Maurício Funes, o novo presidente, marcará o triunfo da revolução que começou no século passado, embora pouco ou quase nada reste daquilo que os velhos guerrilheiros imaginavam como modelo de civilização.
Fidel Castro e Che Guevara, os líderes que inspiravam as ações violentas do grupo no passado, serão citados como referências históricas de um tempo que já passou. O destaque da festa será o presidente Lula, que encontrará um cenário muito familiar na menor nação da América Central. Para vencer a eleição, a FMLN abandonou o discurso radical, fez alianças com políticos antes hostilizados, firmou compromisso público de que não haveria rupturas econômicas e se comprometeu com ações que irão priorizar a parte mais pobre da população. Alguma semelhança com a campanha do PT em 2002? Toda.
O modelo brasileiro não só inspirou como ajudou a eleger o novo presidente salvadorenho. A FMLN, assim como o PT, surgiu em 1980, como principal força de oposição a um governo militar. Derrotada no campo de batalha, a FMLN desvestiu a farda e aderiu ao jogo eleitoral democrático. Apareceu à luz do dia dividida em tendências, refratária a alianças, com uma ala ainda nostálgica da luta armada e prometendo desmontar a política econômica capitalista quando chegasse ao poder. A Frente, a exemplo do PT, também foi derrotada em três eleições presidenciais seguidas. Exatamente como o PT, os salvadorenhos perceberam que sem uma reforma interna não chegariam a lugar nenhum. El Salvador ainda é um país polarizado entre o que se convencionou chamar de direita e esquerda e muitas de suas forças políticas ainda vivem como se o mundo estivesse sob a Guerra Fria. Mas a maioria da população já chegou ao século XXI. Na campanha, os adversários de Maurício Funes tentaram associar sua imagem às de Hugo Chávez e Fidel Castro - e assim caracterizá-lo como a ameaça comunista. Não colou.
Usar o exemplo do Brasil foi o antídoto escolhido pelos ex-guerrilheiros para atrair parte do empresariado e do eleitorado tradicional da direita. "Lula é um modelo e um exemplo para mim", disse o presidente Funes na semana passada a VEJA, no escritório do governo de transição, em um hotel de luxo em San Salvador. "Da mesma maneira que Lula, eu sei que não é possível fazer um governo sectário, rompendo com tudo que já foi feito no país. É preciso governar com toda a sociedade para que El Salvador supere sua grave crise econômica."
A participação brasileira na campanha da FMLN não se resumiu a uma mera associação de imagens. O governo brasileiro e o PT despacharam para lá assessores e técnicos para ajudar na campanha eleitoral e, depois da vitória, na transição de governo. O responsável pelo marketing foi o publicitário João Santana, o mesmo da reeleição de Lula. Santana passou três meses instalado em um escritório em El Salvador comandando uma equipe de 30 pessoas - 20 delas brasileiras. Não por coincidência, o símbolo da campanha era uma estrela vermelha, e o candidato Funes sempre aparecia trajando ternos bem cortados, discursando serenamente sobre a "esperança" e a possibilidade de ser ele o homem certo para a "mudança com responsabilidade." A FMLN não informa o quanto foi gasto com propaganda e nem quem foi o responsável pelo pagamento. Os adversários derrotados, é natural, insinuam que a fonte dos recursos pode ser localizada no Brasil.
Apesar da colaboração entre as equipes, o principal elo entre o Brasil e o novo governo salvadorenho é a advogada Vanda Pignato, a primeira-dama. Paulistana do Tatuapé e fundadora do PT, Vanda mudou-se para El Salvador em 1992, pouco depois de um acordo mediado pela ONU para pôr fim à guerra civil. Representante do PT para assuntos da América Central, há 15 anos ela conheceu Funes, então jornalista e apresentador de uma rede de televisão. Vanda foi essencial na escolha do marido como candidato da Frente e na estratégia de campanha plugada na experiência do PT. Centralizadora, brigou com boa parte da velha guarda comunista, mas seu trabalho de aproximação com o Brasil e com o empresariado local lhe rendeu respeito - e inevitáveis comparações com o estilo do ex-ministro José Dirceu. A partir desta semana será possível começar avaliar os resultados da vitória da "revolução" sem tiros.
Leia a reportagem completa em VEJA desta semana (na íntegra somente para assinantes).
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