Entrevista

'Países que recebem imigrantes não têm nenhum prejuízo'

O diretor-geral da Organização Internacional de Migrações fala dos benefícios e dos desafios de um planeta por onde circulam hoje quase 1 bilhão de migrantes

Cecília Araújo
Os imigrantes geralmente ocupam cargos que os locais não querem ocupar: são os chamados trabalhos sujos, difíceis ou perigosos

Os imigrantes geralmente ocupam cargos que os locais não querem ocupar: são os chamados trabalhos sujos, difíceis ou perigosos (John Moore/Getty Images/VEJA)

"Os governos devem pensar desde já em formas de lidar com um número cada vez maior de migrantes, que somam atualmente a 1 bilhão entre os 7 bilhões de habitantes do planeta."

A migração é uma prática tão antiga quanto a espécie humana. E os motivos para se migrar também são semelhantes há séculos: as pessoas se mudam quando resolvem seguir seus sonhos, melhorar sua qualidade de vida, procurar novas oportunidades de estudo e trabalho, ou mesmo dar apoio financeiro à família. Mas qualquer que seja a razão, esse movimento é profundamente positivo tanto para o país recebe esse imigrante quanto para sua terra-natal, destaca o diplomata americano William Lacy Swing, diretor-geral da Organização Internacional de Migrações (OIM), entidade que completa 60 anos nesta segunda-feira. "A imigração é, de forma esmagadora, positiva para a maioria das pessoas envolvidas. Não há prejuízo para os países que recebem imigrantes. Muitos deles, especialmente os desenvolvidos, que são vistos como problemáticos nesse aspecto, necessitam desses imigrantes", disse ao site de VEJA.

Segundo ele, atualmente vivemos um recorde numérico de pessoas em movimento no mundo: 214 milhões de migrantes internacionais e 740 milhões de migrantes que se deslocam dentro de seus próprios países, somando quase 1 bilhão no total. O Brasil é membro da OIM desde 2004, e essa parceria foi ratificada recentemente pelo Senado. Swing esteve no país em meados de outubro para participar da XI Conferência Sul-Americana de Migrações, encontro que contou com a participação de representantes de todos os 12 países-membros do continente e que a partir de agora será anual. Em Brasília, também foram discutidas as principais tendências migratórias do mundo e uma maior cooperação dos países sul-americanos para coordenar e desenvolver programas relacionados ao tema. Para acompanhar a evolução de perto, a OIM espera estabelecer um escritório no Brasil até a segunda metade de 2012. Confira abaixo a entrevista completa, concedida de Genebra, Suíça:

Como a imigração pode beneficiar estados? Os benefícios são muitos, tanto para os países dos quais os imigrantes saem quanto para aqueles a que eles chegam. Nos países-destinos, os imigrantes frequentemente respondem às demandas do mercado de trabalho. Cada vez mais o Japão e a Coreia do Sul, por exemplo - assim como a maior parte dos países industrializados -, recebem essas pessoas. São países que sofrem com a escassez de mão de obra, por questões demográficas: lá, mais pessoas morrem do que nascem. Por isso, precisam trazer pessoas de fora para preencher essas vagas. E os imigrantes geralmente ocupam cargos que os nativos não querem ocupar: são os chamados trabalhos sujos, difíceis e perigosos. Só eles estão dispostos a ocupá-los, na tentativa de melhorar sua qualidade de vida. Os imigrantes também trazem habilidades complementares e inovação, e muitos deles estabelecem negócios que dificilmente seriam abertos nesses países. É importante ressaltar que os imigrantes que se deslocam legalmente, com os papéis corretos, também pagam impostos. Aqui na Suíça, por exemplo, a população imigrante ajuda a apoiar o sistema de saúde do país. Sem eles, seria muito mais difícil.

E quanto aos países de origem? Os imigrantes geralmente enviam para suas casas bilhões de dólares por ano, de acordo com números do Banco Mundial. Os brasileiros representam apenas 1% desse montante, o que já é um valor considerável e uma contribuição importante. O total de dinheiro destinado aos países de origem de imigrantes pelo mundo afora é equivalente ao total do Produto Interno Bruto (PIB) de estados como Kuwait ou Finlândia, por exemplo. É muito dinheiro! Vários desses imigrantes também retornam depois para se restabelecer em seus países e levam para lá novas habilidades, conhecimentos mais apurados e capital para investir. É uma interação muito rica.

Oscar Bonilla

O diretor da OIM, William Lacy Swing, em 2008

William Lacy Swing, em 2008

Muitos países, porém, têm problemas com imigrantes. Esse é um dos "mitos" ou "lendas", não são verdadeiros. A imigração é, de forma esmagadora, positiva para a maioria das pessoas envolvidas. Não há prejuízo para os países que recebem imigrantes. Muitos deles, especialmente os desenvolvidos, que são vistos como problemáticos nesse aspecto, necessitam desses imigrantes. A real questão é a seguinte: como um país pode desenvolver uma política que garanta que a imigração seja uma experiência positiva para todos? É preciso aprender a gerenciar o crescimento da diversidade social em um país, pessoas que são diferentes na aparência, na forma de se vestir, na língua materna, em seus hábitos, em sua religião. É responsabilidade do estado pensar e aplicar políticas, inclusive proporcionando informações públicas, que ajudem as pessoas do país a entender a contribuição que esses imigrantes trazem e por que essas diferenças não são prejudiciais ao país. Muitos deles querem se integrar à sociedade e não conseguem.

O que explica a falta de informação do tipo? Os problemas de certos países com os imigrantes em seu território se intensificam com a crise econômica mundial. Em qualquer crise profunda, desde a grande depressão de 1929, é feita uma correlação direta entre o fracasso econômico e a imigração. Essa é uma visão totalmente estereotipada. Na Espanha, onde há a maior taxa de desemprego da Europa no momento, é muito fácil culpar a imigração - o que é um erro categórico. A maior parte dos empregos ocupados por imigrantes não coincide com o que os nacionais estão reivindicando. E a taxa de desemprego para os imigrantes é muito mais alta do que para os nacionais.

Qual país seria um exemplo na criação de boas políticas para os imigrantes? Um país que lida muito bem com os imigrantes é o Canadá. O governo tem uma política multicultural, da qual são muito orgulhosos. Falam abertamente de sua comunidade vinda do exterior ou de outros estados, mostrando e ressaltando para o restante da população os diferentes backgrounds de seus habitantes e sua importância. Historicamente, países que recebem um amplo número de imigrantes anualmente, e que também recebem refugiados e pessoas deslocadas, têm muito mais facilidade em aceitar diferentes características e religiões.

Os imigrantes pelo mundo

214 milhões é o número de imigrantes internacionais (3% da população global)

740 milhões de pessoas migram dentro de seus próprios países, de áreas rurais para urbanas

1 bilhão é o total de pessoas que se deslocam no mundo hoje, regional e internacionalmente

1 em cada 7 pessoas migra tanto dentro de seu próprio país quanto internacionalmente

Mais de 65% dos casos de deslocamento internacional ocorrem no Hemisfério Sul, e mais de 80% deles são entre países vizinhos

59 bilhões de dólares é o valor da transferência feita por imigrantes latino-americanos aos seus países de origem

325 bilhões de dólares é o montante enviado por imigrantes aos países em desenvolvimento

404 bilhões de dólares é o valor a que essas transferências feitas  devem chegar até 2013

Fonte: Organização Internacional de Migrações (OIM)

E como tem sido a performance brasileira? A entrada de imigrantes legais no Brasil aumentou consideravelmente nos últimos anos. O primeiro passo foi dado com a criação do Conselho Nacional de Imigração, vinculado ao Ministério do Trabalho. Depois, foi criada a Subsecretaria-Geral das Comunidades Brasileiras no Exterior, dentro do Ministério das Relações Exteriores, que desenvolve projetos em parceria com consulados e embaixadas de diferentes países. E o trabalho da OIM, em parceria com o Brasil, também está expandindo. Nosso principal projeto no país ajuda a regularizar os imigrantes - especialmente os bolivianos, já que a fronteira permite a entrada e saída irregular de ambos os lados. Além disso, até agora foram investidos milhões de dólares no restabelecimento de cidadãos brasileiros na fronteira. Ajudamos centenas de famílias que viviam em uma zona perigosa e demos a elas a segurança e integração em uma nova área. Vejo ainda perspectivas para outras ações no Brasil. Em Brasília, conversei com algumas autoridades sobre a possibilidade de abrirmos um escritório da OIM no país até o final de 2012, para que possamos ter um contato mais próximo e conhecer melhor as demandas do governo sobre o assunto.

Já somamos 7 bilhões de pessoas no mundo. Como os governos podem se preparar para futuros movimentos migratórios que certamente vão surgir? Recentemente, o número de pessoas que vive em cidades se tornou maior do que o daquelas que moram em áreas rurais no mundo. Uma barreira já foi cruzada, e a urbanização ainda deve continuar. Na China, os centenas de milhares de casos de migração dentro do próprio país se devem ao crescimento das aglomerações urbanas, grandes e médias. E os governos devem pensar desde já em formas de lidar com um número cada vez maior de migrantes, que somam atualmente a 1 bilhão entre os 7 bilhões de habitantes do planeta. Primeiramente, as autoridades precisam explicar à população o papel dos migrantes e dar a eles acesso aos serviços básicos de educação e saúde. Eles também devem ser incluídos nos programas do governo.

Quais são as principais conquistas da OIM em seu 60º aniversário? Temos orgulho de dizer que dezenas de milhares de pessoas em todo o mundo foram treinadas por nossos funcionários e aprenderam a gerenciar a imigração, especialmente nas fronteiras, ajudando imigrantes a obterem seus passaportes e vistos. Já por meio de nossos programas de combate ao tráfico de pessoas, milhares puderam ser acolhidas em abrigos da OIM. Também estivemos envolvidos em todos os últimos casos de emergência no mundo. Trabalhando em parceria com a Acnur (Agência da ONU para Refugiados), possibilitamos que milhares de refugiados começassem uma nova vida em locais seguros em dezenas de países diferentes. Inclusive na Líbia, ajudamos cidadãos a fugirem da violência no país. Para isso, proporcionamos atendimento médico para essas pessoas deslocadas, o que possibilita que problemas sejam diagnosticados antes que elas cheguem aos países de destino, e orientação cultural, para que tenham no mínimo conhecimentos básicos sobre o outro país - como noções da língua oficial. A OIM ainda teve um papel central na situação de enchentes no Paquistão, em 2010 e neste ano. Também ajudamos vítimas do terremoto no Haiti - aumentando o número de nossos funcionários no país para trabalhar nos abrigos e ajudar a reconstruir o país. E damos apoio a países que tentam reintegrar ex-combatentes de guerra, como é o caso na Serra Leoa, no Sri Lanka e na Colômbia, por exemplo. O que devemos fazer agora é analisar essas práticas anteriores e aprender novas lições para o futuro.

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