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A nova e a velha Alemanha

06/11/2009 20:11


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Esperanças modestas

Luiz MaximianoFrank Eigenfeld e seus colegas de subversão em Halle, na Alemanha Oriental, tinham muito o que fazer em 1989: pendurar cartazes com palavras de ordem em viadutos, durante à noite; fazer a recontagem informal de votos para provar que o Partido Comunista fraudava as eleições; imprimir panfletos de oposição que, teoricamente, só podiam circular dentro das igrejas protestantes. Nas manifestações de outubro organizadas por Eigenfeld e seus amigos, pedia-se eleições livres na RDA, respeito aos direitos humanos e proteção do meio ambiente, mas ninguém pensava em derrubar o Muro. "Na noite do dia 9 de novembro, incrédulo como todo alemão, peguei meu Trabant e viajei a Berlim para encontrar meu irmão, que vivia no ocidente", diz Eigenfeld. De volta a Halle, ele comandou, um mês depois, a ocupação da central da Stasi na cidade. Era preciso impedir que os funcionários destruíssem os arquivos secretos da repressão estatal. "Da minha ficha, só encontrei a capa, onde o burocrata anotou que os oito volumes de espionagem sobre mim haviam sido incinerados dias antes em uma fábrica de papel", conta o geólogo aposentado.

 

O milagre de Halle

Luiz MaximianoA Igreja do Mercado, em Halle, tem história. Ali o reformista Martinho Lutero fez três pregações, o compositor Georg Friedrich Händel foi batizado e o gigantesco órgão inagurado por ninguém menos que Johann Sebastian Bach. Na década de 80, a paróquia abrigava reuniões de grupos que faziam oposição à ditadura comunista, aproveitando-se da relativa liberdade que as igrejas dispunham. "O estado até tentava exercer influência sobre os bispos evangélicos, mas muitos resistiam", diz o pastor Harald Bartl. Pouco mais da metade das quatro dezenas de pastores protestantes de Halle, incluindo Bartl, abriram as portas de suas igrejas a atividades subversivas. No final da década de 80, as "orações para a paz" às segundas-feiras e as "orações noturnas" a cada dois meses eram protestos políticos em que havia até quem empunhasse cartazes dentro da Igreja do Mercado pedindo liberdade de expressão ou direito de viajar.

"No dia 9 de outubro de 1989, a polícia cercou a igreja para impedir que 600 pessoas que participavam de uma dessas orações se juntassem a 1.000 manifestantes que estavam do lado de fora, apanhando", conta Bartl. Ele e outros 23 pastores saíram da igreja e postaram-se diante dos policiais para impedir que a violência continuasse. Nas semanas seguintes, os protestos intensificaram-se em Halle e em outras cidades da Alemanha Oriental, numa sequência de eventos que culminou com a queda do Muro, um mês depois. "Foi um milagre", recorda Bartl.

 


O negócio da nostalgia

Luiz MaximianoA comerciante Kerstin Rank, de 39 anos, teve durante sete anos uma loja com produtos dos tempos da Alemanha Oriental. Este mês ela vendeu o estabelecimento para se dedicar a produzir a imitação de um refresco em pó intragável que desapareceu há 20 anos, junto com o muro. "Eu ensino ao meu filho, nascido na década de 90, que nem tudo era tão ruim na RDA," diz Kerstin. "Ao menos havia garantia de emprego e ninguém precisava se preocupar com a segurança pública." O fato de alguns cidadãos serem abatidos na fronteira tentando sair do país era, para ela, apenas um efeito colateral do sistema. "Se era proibido, porque insistir?", pergunta Kerstin.

 

Família dividida

Luiz MaximianoGisela Kallenbach, deputada do Parlamento Europeu pelo Partido Verde da Alemanha, conhece o sofrimento que um estado opressor é capaz de causar. A construção do Muro a separou para sempre da avó, que vivia na Alemanha Ocidental. Gisela não pode sequer ir ao seu enterro. Na juventude, ela recusou o serviço militar e, como milhares de outros alemães orientais que se negavam a se sujeitar à doutrinação do estado, foi impedida de cursar uma universidade. "Quem fala, hoje, nas supostas vantagens do regime comunista se esquece de como realmente era a vida na Alemanha Oriental", diz Gisela. Ela enumera: faltavam alimentos básicos, os aposentados tinham um rendimento miserável e as crianças eram educadas para o cinismo, obrigadas a dizer uma coisa em casa e outra na escola. "O problema é que muitos alemães orientais não sabiam o que fazer com a liberdade que conquistaram e tinham uma imagem irreal do mundo externo - eles achavam que no sistema capitalista todo mundo dirigia uma Mercedes e vivia numa mansão", diz Gisela.

 

Sem futuro e sem informação

Luiz Maximiano"Eu não sei nada sobre a Alemanha Oriental", diz o skatista Robert M., de 20 anos, de Leipzig. Pudera. Robert era um bebê quando o Muro de Berlim caiu e nunca foi muito assíduo na escola. Sem ambição em buscar uma formação profissional, ele diz estar fadado a se juntar à massa de desempregados. Seu amigo Christian L., de 19 anos, está fazendo um curso profissionalizante para ser pintor de parede. "A escola dá uma versão negativa sobre a RDA, mas nossos pais dizem a verdade: naquele tempo tinha menos problema de desemprego e tudo era muito mais barato", diz Christian. O que os pais não lhes contam é que, nos tempos do comunismo, três trabalhadores faziam o serviço de um e o dinheiro sobrava porque não tinha o que comprar. Jovens como Robert e Christian, crentes em uma visão rósea de um passado que não conheceram, engrossam o eleitorado do partido saudosista A Esquerda.


O medo do desconhecido

Luiz MaximianoUm sentimento comum a alemães que cresceram sob o regime totalitário é o de não saber o que fazer com a liberdade conquistada. A organizadora de eventos esportivos Gudrun Neumann, de Leipzig, sente falta do paternalismo estatal da RDA. "O Partido Comunista nos ajudava até em questões pessoais, como brigas entre casais. Hoje é cada um por si", diz Gudrun. Até a proibição de viajar, que para outros era problema, para ela era solução: "Com as fronteiras fechadas, a gente sabia que estava protegido das más influências da imigração", diz Gudrun, que associa a presença de estrangeiros à criminalidade e à perda da identidade cultural alemã. "Sou a favor de cada um ficar em seu país e resolver os seus problemas sozinhos", diz Gudrun. Paradoxalmente, os estados do leste alemão têm a menor proporção de imigrantes e a maior de xenófobos.


A escritora turco-alemã

Luiz MaximianoO que é ser alemão?, perguntam-se muitos ex-cidadãos da RDA, apartados que foram da outra sociedade alemã, aquela que se desenvolvia a oeste da cortina de ferro. Pergunta semelhante se fazem os habitantes de origem turca, o maior grupo migratório na Alemanha, equivalente a menos de 3% da população total. A questão da falta de integração dos turcos na sociedade alemã começa a se diluir com a geração dos filhos dos imigrantes, como Dilek Güngör, autora de romances que tratam do cotidiano das famílias turcas na Alemanha. "A divisão ainda é muito visível, e isto é culpa tanto dos turcos quanto dos alemães", diz Dilek. Os turcos achavam que a migração era passageira e nada fizeram para criar laços locais, enquanto os alemães nunca quiseram de fato que eles fizessem parte de sua sociedade.

A escritora diz que há turcos vivendo na Alemanha há mais de 30 anos que ainda acham que um dia vão voltar ao seu país. "Eu tive uma educação mais liberal porque, por sorte, meus pais nunca caíram nesse engodo", diz Dilek. Ao contrário das amigas de infância, ela nunca foi impedida de namorar rapazes alemães. "Será preciso mais uma ou duas gerações de descendentes de turcos para as divisões desaparecerem", diz Dilek, casada com um alemão, com quem tem uma filha.

 

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Últimas notícias (Agência Estado/AFP/Reuters)

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