Tarja para o tema Tsunami no Japão
 
15/03/2011 - 14:41
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Japão

Radioatividade cai ‘drasticamente’, mas ainda preocupa

AIEA alerta que atenção sobre status da central Fukushima 1 deve continuar

Moradores de Yamagata, próxima a Fukushima, aguardam ônibus para sair da cidade e fugir da radiação

Moradores de Yamagata, próxima a Fukushima, aguardam ônibus para sair da cidade e fugir da radiação (Mike Clarke / AFP)

Após três explosões e um incêndio em quatro dias, a situação na central de energia atômica japonesa de Fukushima 1 tornou-se mais séria nessa terça-feira, chegando a níveis indiscutivelmente perigosos. Mais tarde, porém, a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) informou que a radiação detectada na usina nuclear caiu de forma significativa após a extinção do incêndio no reator 4 do complexo.

O nível de radiação registrado às 21 horas (horário de Brasília) de segunda-feira, nas imediações da usina, era de 11,9 milisieverts por hora. Seis horas depois, o nível caiu para 0,6 milisieverts por hora, segundo a agência. Sievert é a unidade que procura medir os efeitos biológicos da radiação, em vez dos efeitos físicos, que são mensurados por outra unidade, chamada 'gray'. Para se ter uma ideia, uma pessoa recebe em média uma exposição à radiação de aproximadamente 2,4 milisieverts por ano por fontes naturais. Já a exposição a mais de 100 milisieverts por ano pode levar ao câncer, segundo a Associação Nuclear Mundial. Ou seja, nas condições atuais de radiação em Fukushima, uma pessoa terá mais chances de desenvolver um câncer após sete dias de exposição.

Anteriormente, chegaram a ser registrados entre os reatores 3 e 4 da usina um nível bastante superior, de 400 milisieverts por hora. Para a agência nuclear da ONU, ele representa "um nível muito elevado", mas é algo observado em um momento e local específico. Devido a esse grau elevado de radiação, "o pessoal não indispensável foi evacuado da usina, de acordo com o Plano de Resposta a Emergências", indicou, sem precisar quantos funcionários permaneceram na central.

A AIEA informa também que cerca de 150 pessoas receberam assistência por exposição a altos níveis de radiação. Para 23 delas, foi necessária a tomada de medidas de descontaminação - uso de medicamentos específicos, isolamento e banhos com água e sabão.

Preocupação - Apesar da diminuição do vazamento, a AIEA alerta que a preocupação com a central nuclear de Fukushima continua. O sistema de resfriamento parou de funcionar por causa da falta de energia elétrica e da subsequente exaustão dos geradores de apoio, necessários para dar energia às bombas que levam a água do mar até o sistema de resfriamento. Sem a agilidade do sistema, a água chega muito devagar aos reatores e  ferve rápido demais. Com a temperatura elevada, as varetas de combustível, que isolam o urânio (o combustível nuclear), podem derreter.

A partir daí, as barras de controle, o vaso de controle (que abriga as varetas e as barras de controle) e ainda a contenção (que abriga o vaso de controle) podem ser danificados com o derretimento do urânio. A situação é considerada grave porque há risco de vazamento do material radioativo. Além disso, o derretimento faz com que o núcleo do reator fique instável podendo ocorrer explosões - elas ocorrem porque o calor faz a água evaporar e no processo sobra hidrogênio, que é altamente inflamável. No limite, o interior do vaso de controle transforma-se em uma bomba.

A agência nuclear da ONU afirmou nesta terça que teme que tenha acontecido um dano no núcleo do reator 2 da usina de Fukushima após o devastador terremoto e o posterior tsunami da última sexta-feira.

"Pode ter acontecido um dano no núcleo do reator", declarou à imprensa em Viena o japonês Yukiya Amano, diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA). Os sistemas de refrigeração de três dos seis reatores da central de Fukushima 1 estão danificados e três explosões de hidrogênio ocorreram nos reatores 1, 2 e 3.

Estados Unidos - O secretário americano de Energia, Steven Chu, também disse nesta terça-feira ante o Congresso que os Estados Unidos deverão "aprender lições" com a crise nuclear no Japão, mas estimou que as medidas de segurança nas centrais nucleares de seu país são "muito rígidas". "O povo americano deve ter plena confiança de que os Estados Unidos têm regras rigorosas de segurança e que os construtores das usinas claramente consideram coisas como tsunamis e terremotos", afirmou Chu ante um comitê do Congresso.

Quando os Estados Unidos constroem uma usina nuclear perto de uma linha de falha geológica, os funcionários "avaliam qual é risco máximo de um tremor potencial e a usina é construída levando isso em conta", afirmou o secretário. No entanto, a maior parte dos estados do país - entre os quais figuram aqueles em que estão instaladas centrais atômicas - não estão preparados para enfrentar uma catástofe nuclear, advertiu, por sua vez, a secretária de saúde em um estudo publicado na segunda-feira.

Medo - Nesta terça, o governo admitiu pela primeira vez que a radiação tinha atingido um patamar prejudicial à saúde das pessoas. Horas depois, porém, as autoridades japonesas informaram que o nível de radioatividade já tinha diminuído. Não adiantou: o clima de apreensão com a possibilidade de uma catástrofe nuclear se espalhava por toda a região sob risco de contaminação.

Várias pessoas deixaram Tóquio nesta terça-feira e moradores permaneceram dentro de suas casas em meio a temores de que a radiação de uma usina nuclear atingida pelo terremoto de sexta-feira afete uma das maiores e mais densamente povoadas cidades do mundo.

Apesar das garantias do governo municipal de que os baixos níveis de radioatividade detectados até o momento na capital japonesa "não são um problema", moradores e turistas decidiram que permanecer na cidade era simplesmente arriscado demais. Várias empresas retiraram seus funcionários de Tóquio, visitantes reduziram as férias e companhias aéreas cancelaram voos. A Administração de Aviação dos Estados Unidos informou que está se preparando para redirecionar rotas caso a crise nuclear se agrave.

Aqueles que permaneceram na capital japonesa estocavam alimentos e outros suprimentos, temendo os efeitos da radiação, que levou pânico à cidade de 12 milhões de habitantes. No principal aeroporto da cidade, centenas de pessoas se enfileiravam, muitas delas com crianças, para embarcar em voos deixando o país.

Estoque - Em pânico por causa da crise nuclear japonesa, os asiáticos começaram a fazer estoques de pílulas de iodeto de potássio, chegando a pagar 500 dólares por uma cartela em leilões na internet. Mas especialistas em saúde alertam que a eficácia destes comprimidos é limitada para bloquear os efeitos nocivos da exposição a altos níveis de radiação. Depois de mais uma explosão na central nuclear de Fukushima 1, na costa nordeste do Japão, equipes de técnicos trabalham dia e noite para tentar resfriar os reatores, que estão emitindo níveis preocupantes de radiação que ameaçam contaminar Tóquio.

Empresas americanas que comercializam o iodeto de potássio, que protege contra doenças provocadas pela radiação, viram seus estoques evaporarem, enquanto farmácias da costa oeste, banhada pelo Oceano Pacífico, não estão dando conta da demanda pelo medicamento.

O iodeto de potássio é um sal utilizado para saturar a tireóide com iodo, condicionando-a a bloquear o iodo radioativo (iodine 131), altamente cancerígeno. A Anbex, que também fabrica comprimidos da substância, indicou que seus estoques terminaram, e que não deve disponibilizar novos lotes até 18 de abril.

De acordo com a OMS, o sal "não é um antídoto à radiação", e não oferece proteção contra elementos radioativos como o césio. Além disso, pode representar um risco para algumas pessoas, incluindo mulheres grávidas. A OMS também lançou um alerta urgente na Ásia, onde as pessoas estavam comprando iodo líquido (usado para curar pequenos ferimentos) e bebendo ou injetando o líquido diretamente na veia.

(Com agências France-Presse, EFE e Reuters)

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