tarja-rio+20

Meio Ambiente

Negociações emperram no confronto entre G-77 e países desenvolvidos

Países em desenvolvimento não estão dispostos a pagar a conta da degradação ambiental histórica dos países desenvolvidos. Nações rica, entre elas os Estados Unidos, esperam que as responsabilidades sejam compartilhadas entre todos

Luís Bulcão, do Rio de Janeiro
Bandeiras de países participantes da Rio+20 tremulam no Forte de Copacabana, na capital do Rio de Janeiro

Bandeiras de países participantes da Rio+20 tremulam no Forte de Copacabana, na capital do Rio de Janeiro (Ricardo Moraes/Reuters)

Os embates que se prolongam parecem não ter mudado ao longo de todo o processo — e qualquer semelhança com os embates históricos da diplomacia pós-guerra fria não é mera coincidência. Os países desenvolvidos, em crise, se negam a maiores comprometimentos pelos países em desenvolvimento. Isso trava pelo menos duas das grandes questões da conferência: o princípio de responsabilidade diferenciada e a parte que trata dos meios de implementação

Estatisticamente, as negociações para o documento final da Rio+20 evoluíram muito pouco após terem iniciado no Rio. O documento chamado "o futuro que nós queremos" tinha apenas 21% do texto marcado com acordos consensuais quando a última rodada de discussões terminou em Nova York no início de junho. Após um dia e meio de tratativas no Rio, os consensos passaram a representar apenas 26%. "As estatísticas mentem", afirmou confiante o chefe do secretariado da Rio+20, Nikhil Seth. Segundo o diplomata indiano, apenas quatro ou cinco grandes questões travam as negociações. "Se essas questões forem resolvidas, o texto evolui rápido", considera.

O problema é que as grandes questões — que não foram resolvidas após três rodadas de discussões em Nova York e não avançaram significativamente no Brasil — têm apenas um dia para serem resolvidas até o fim do Comitê Preparatório. O sentimento entre os diplomatas é que as negociações devem ser estendidas durante todos os dias que seguem até a cúpula de chefes, que tem início no dia 20. No entanto, a própria burocracia da ONU não permite que isso seja admitido antes de uma reunião com o consentimento dos grupos que representam os 193 países membros da entidade. "Precisamos decidir o que fazer, caso os acordos não fiquem prontos até amanhã. É uma assunto que precisamos discutir e essa discussão ocorrerá ainda hoje", afirmou o diplomata indiano.

Os embates que se prolongam parecem não ter mudado ao longo de todo o processo — e qualquer semelhança com os embates históricos da diplomacia pós-guerra fria não é mera coincidência. Os países desenvolvidos, em crise, se negam a maiores comprometimentos pelos países em desenvolvimento. Isso trava pelo menos duas das grandes questões da conferência: o princípio de responsabilidade diferenciada e a parte que trata dos meios de implementação.

Meios de implementação — Diante da crise econômica, a proposta feita pelo G-77 de criação de um fundo de 30 bilhões de dólares por ano para recursos destinados a fomentar o desenvolvimento sustentável parece insustentável. Seth é categórico sobre a rejeição. Mas afirma que a proposta, feita ainda em Nova York, é parte de um primeiro estágio das negociações, em que os países se posicionam firmemente para depois conseguirem acordos de meio termo. O parágrafo que ganha mais força na questão do financiamento é o que trata da criação de fundos voluntários para o desenvolvimento sustentável. Assim, ninguém se compromete e os países em crise não saem porta a fora da Rio+20.

Princípios — O embaixador Luiz Alberto Figueiredo Machado já afirmou que o os países em desenvolvimento não estão dispostos a pagar a conta da degradação ambiental histórica dos países desenvolvidos. A posição bate de frente com a atuação dos Estados Unidos na conferência. De olho no crescimento de China, Índia e Brasil, os americanos esperam que as responsabilidades sejam compartilhadas entre todos. Por isso, relutam em destacar o princípio de responsabilidades diferenciadas, que é um legado da Rio 92, e afirma que os países que contribuíram mais para a degradação e têm mais condições de recursos devem responder por uma parcela maior da conta ambiental e social. Se resolvido, esse grande embate poderia destravar duas grandes partes do documento, que tratam sobre os compromissos com o desenvolvimento sustentável e sobre a reafirmação dos compromissos do Rio.

O secretário-executivo destaca os avanços na representatividade até agora alcançados. Seth nega, por exemplo, que o documento discutido não tenha a ambição proposta inicialmente pela ONU. "Essa ênfase na participação da sociedade civil através dos Grandes Grupos no processo de formulação de políticas não é encontrada em nenhum outro documento da ONU", afirma. No entanto, os grandes temas da Rio+20: economia verde, objetivos para o desenvolvimento sustentável, reforma institucional e meios de implementação ainda continuam presos entre dois grandes colchetes — que na linguagem diplomática significa contestações no texto — o dos países em desenvolvimento e o dos países desenvolvidos.

Para o secretário da ONU, as esperanças de um acordo moram em uma tendência recente da diplomacia que parece ser a química da Rio+20. "São diferentes processos políticos. Há uma tendência para resoluções de último minuto", afirmou. 

Serviços

Assinaturas



Editora Abril Copyright © Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservados