Internacional
Crise diplomática
Lula obedece Chávez e prejudica Honduras
Lula tem na política o instinto matador que caracteriza os grandes artilheiros do futebol tão admirados por ele. Na semana passada, essa habilidade abandonou o presidente da República. Ele esteve em Nova York para discursar na abertura da 64ª Assembleia Geral da ONU, palco privilegiado para fazer o que ele mais gosta e faz como poucos, enaltecer o Brasil aos olhos do mundo. Em sua fala Lula assinalou os avanços no uso de energias limpas no Brasil e mesmerizou os burocratas internacionais com ataques à caricatura do mercado onipotente. Ficou nisso. A maior parte do tempo passado sob os holofotes foi dedicada por Lula a falar de um país estrangeiro, Honduras, uma nação paupérrima sem nenhuma relação especial com o Brasil.
Politicamente instável, Honduras vem de ejetar do posto e exilar um presidente, Manuel Zelaya, pela tentativa de desrespeitar a Constituição e, por meio da convocação de um plebiscito, perpetuar-se no poder.
Crise em Honduras
28 de junho
Deposição
Militares invadem a casa do presidente Manuel Zelaya. Deposto, ele parte para a Costa Rica.
28 de junho
Interino
O presidente do Congresso, Roberto Micheletti, toma posse como presidente interino.
30 de junho
EUA
O presidente Barack Obama diz que Manuel Zelaya continua sendo o presidente de Honduras.
4 de julho
Suspensão
A Organização de Estados Americanos (OEA) suspende Honduras da entidade.
5 de julho
Barrado
Zelaya tenta voltar a Honduras, mas seu avião não recebe autorização para pousar no país.
5 de julho
Protesto
Simpatizantes de Zelaya entram em choque com apoiadores de Micheletti: uma pessoa morre.
19 de julho
Fracasso
Falha a mediação da crise feita pelo presidente da Costa Rica, Oscar Arias.
24 de julho
Fronteira
Zelaya retorna a Honduras a pé, a partir da Nicarágua, mas fica poucos instantes no país.
4 de agosto
México
Zelaya chega ao México, onde é recebido como chefe de estado.
11 de agosto
Confronto
Novos choques entre seguidores do deposto Zelaya e a polícia local, na capital Tegucigalpa.
31 de agosto
Campanha
Começa em Honduras a campanha para as eleições gerais de 29 de novembro.
1º de setembro
Reconhecimento
Membros da OEA anunciam que não reconhecerão resultado da eleição de 29 de novembro.
3 de setembro
Corte
Os Estados Unidos decidem suspender ajuda financeira a Honduras.
12 de setembro
Cancelado
EUA cancelam visto de Roberto Micheletti e 14 juízes da Suprema Corte de Justiça hondurenha.
21 de setembro
Retorno
O presidente deposto reaparece na embaixada brasileira em Honduras.
Caso típico da contaminação ideológica patrocinada pelo venezuelano Hugo Chávez, Zelaya vendeu a Caracas seu pouco valorizado passado de latifundiário direitista. De repente passou a se pautar pela cartilha populista chavista de miséria moral e material, supressão de liberdades individuais, desrespeito às leis, aos costumes civilizados, associação com o narcotráfico e, claro, eternização no poder - receita que estranhamente passou a ser chamada de esquerda na América Latina.
Em uma operação comandada por Chávez, Zelaya foi conduzido de volta a Honduras e se materializou com numerosa comitiva na casa onde funciona a embaixada do Brasil em Tegucigalpa. Esse hóspede incômodo, de aparência bizarra e com sinais evidentes de distúrbios mentais - se diz vítima de ataques por ondas eletromagnéticas e gases tóxicos que só ele percebe - foi o grande assunto de Lula em Nova York. O Brasil pode esperar outra oportunidade.
Zelaya é um problema dos hondurenhos que encurtaram seu mandato antes que ele o espichasse indefinidamente. É um problema também de Chávez que não se conforma em perder o investimento feito na conversão dele ao seu credo. É um problema dos Estados Unidos pela proximidade geográfica por estar na sua esfera de influência histórica. Pois a semana acabou com Zelaya sendo um problema e constrangimento para o Brasil.
Golpe de mestre de Chávez que evitou alojar Zelaya na embaixada da Venezuela, ordenando a seus amigos na para-diplomacia brasileira chefiada por Marco Aurélio Garcia que o acolhessem na representação brasileira. "Hoje o Brasil tem um problema em Honduras e Chávez, que o produziu, não tem nenhum", diz Maristella Basso, professora de direito internacional a Universidade de São Paulo. Chávez age como o líder do subcontinente americano. Ataca Barack Obama, presidente americano, e ignora Lula.
Com as eleições marcadas para o próximo dia 29 de novembro, o governo interino que derrubou Zelaya se preparava para reconduzir o país à normalidade democrática. O candidato ligado a Manuel Zelaya aparecia até bem colocado nas pesquisas de intenção de voto. Seria uma saída rápida e democrática para um golpe, coisa inédita na América Latina. Seria.
Agora o desfecho da crise é imprevisível. O mais lógico seria deixar o retornado sob os cuidados dos amigos brasileiros até depois das eleições que, se legítimas, convenceriam a comunidade internacional das intenções democráticas dos golpistas. Mas é preciso combinar com os apoiadores e detratores de Zelaya nas ruas e elas costumam ter sua própria e volátil dinâmica. O Brasil, que poderia ser parte da solução da crise de Honduras, tornou-se, graças a Chávez, o problema. A embaixada brasileira agora tem um hóspede que ouve vozes e uma para-diplomacia que ouve ditadores estrangeiros.
Qualquer regime minimamente antiamericano conta com o apoio tático do governo brasileiro - ainda que esteja envolvido em genocídio, como o do Sudão, ou tratado como pária mundial, como o Irã. As estripulias dos governantes de esquerda da região - mesmo que eles estejam agindo contra os interesses brasileiros - são toleradas em silêncio pelo presidente Lula. "Por causa desta política externa, estamos sempre a reboque dos acontecimentos", disse a VEJA Rubens Barbosa, que foi embaixador brasileiro em Washington no governo de Fernando Henrique.
O Brasil poderia ser protagonista de uma solução pacífica em Honduras, cujo formato foi definido por Oscar Arias, Prêmio Nobel da Paz e ex-presidente da Costa Rica, com o apoio dos Estados Unidos e da Organização dos Estados Americanos. Chávez foi mais convincente. Na Assembleia Geral da ONU, em rompante, Lula chegou a dar ultimato ao governo de Honduras. Vai mandar os Fuzileiros Navais? Seria a suprema vitória de Chávez na armadilha que armou para Lula.
Leia a reportagem completa em VEJA desta semana (na íntegra somente para assinantes).




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