Internacional
Bolívia
Imagens do difícil dia-a-dia
A revista VEJA esteve na capital boliviana La Paz para contar um pouco da realidade do país. As fotos são de Anderson Schneider, que viajou com o repórter Duda Teixeira.

'A oligarquia não passará', gritava na quarta-feira, dia 18, um grupo de indígenas em frente ao Palácio do Governo, em La Paz. Nos cartazes e faixas, palavras de ordem contra os governadores dos departamentos de oposição. Após meia hora de manifestação, todos se reuniram para incluir o nome em uma lista de presença. Entre os indígenas, quem não comparece ao ato pode ter um pedido recusado, como o de ter luz elétrica em casa ou asfalto na rua. 'Fazemos porque somos obrigados', disse uma das índias.

Fábricas de roupas, móveis e jóias se beneficiam atualmente de um acordo feito com os Estados Unidos para exportar sem pagar impostos. O tratado vence em dezembro e ninguém acredita que será renovado depois da expulsão do embaixador americano, há duas semanas. Cerca de 50 000 empregos devem ser perdidos. 'O setor industrial não faz parte do programa de governo nacional. Para eles, somos os inimigos capitalistas', diz Eduardo Bracamonte, dono de uma fábrica de jóias que vende para as cadeias Wal-Mart, JCPenney e Bloomingdale's.

A deputada Ninoska Lazarte, do partido de oposição Podemos, construiu sua carreira política denunciando as fraudes eleitorais e a atuação dos cartéis de cocaína na região de Chapare. Tem sido constantemente agredida pelos movimentos sociais de Morales. A primeira vez foi em fevereiro, quando estava prestes a entrar no congresso. A segunda ocorreu na última terça-feira, dia 16. Puxaram seu cabelo, jogaram lixo sobre ela e a empurraram. Em ambas vezes, os policiais que resguardam a praça nada fizeram para impedir a agressão. 'Há pelo menos quatro meses, vivemos em plena ditadura', diz ela. 'Nossos direitos não são mais respeitados.'

Marcelo Cortez, lojista e dirigente dos trabalhadores do setor de artesanato de La Paz, fala com orgulho sobre a quantidade de gente que levou para as duas passeatas da semana passada. Em cada uma delas, arrastou 1200 pessoas. Como ele consegue tal proeza? 'Porque é obrigatório, quem não vai sofre sanções', diz. Cortez explicou para VEJA como funcionam as punições. Quem falta a uma passeata leva uma bronca ou tem de fechar sua loja por três dias. Os que não comparecem a duas seguidas são obrigados a não trabalhar por uma semana. Se escapar de quatro passeatas, o estabelecimento deve ser fechado para sempre. O controle é feito com tíquetes de freqüência, entregues após cada ato público. 'Precisamos participar da política para que possamos ser respeitados', diz.

'Aqui tem fila todo dia', diz a boliviana Miguelina Choque, de 65 anos. A cada quinze dias, ela chega cedo para a fila do botijão de gás, distribuído pela empresa estatal YPFB em caminhões que estacionam na rua. Como a nacionalização do setor de energia afastou investidores, a produção de gás liquefeito está no limite e não atende a demanda interna. A fila começa a se formar às 4 da manhã e chega a ter centenas de metros. Miguelina afirma que a situação piorou nos últimos dias. O botjão que antes durava um mês hoje não chega à metade disso e os bloqueios nas estradas a obrigam a passar pelo mesmo martírio para comprar óleo, carne, pão e arroz.

Em frente à catedral de La Paz, um casal passeava maquiado de palhaço na última semana. 'Não queremos brigar, só queremos mostrar nossa indignação', diz Annel Vargas, 25 anos, diplomada em agronomia há um ano. Os dois enfrentam um problema comum a todos com a mesma idade: arrumar emprego em um país onde as perspectivas se afunilam com velocidade inédita. Annel se graduou com o sonho de ensinar novas técnicas para os indígenas do altiplano. 'Estão todos muito temerosos. Quando me aproximo, pensam que sou do Oriente ou que sou espiã dos Estados Unidos', diz ela. Saul Selaes, formado em advocacia, também reclama: 'O sistema judiciário está totalmente corrompido e não há perspectivas.'




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