19/06/2009 - 19:57
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Irã

Governo prepara repressão sem dó

A ideia de liberdade individual chegou até ao bastião da teocracia mais opressora do planeta. Os jovens iranianos que, desde a semana passada, saem às ruas para denunciar fraude nas eleições que reelegeram uma figura sinistra, o presidente Mahmoud Ahmadinejad, sinalizam algo inesperado no sufocante mundo criado pelos aiatolás. Eles querem igualdade entre homens e mulheres, mais acesso à internet, mais livros e liberdade de empreender. É sintomático que a primeira providência do regime na tentativa de esvaziar as manifestações tenha sido um ataque à internet.

No sábado, o dia seguinte às eleições, as empresas estatais de telecomunicações simplesmente tiraram o plug da tomada, suspendendo a comunicação de internet com o mundo exterior. O volume do tráfego de informações caiu de 5 gigabytes por segundo (Gbps) para menos de 0,3 Gbps. A conexão foi sendo retomada paulatinamente ao longo dos dias subseqüentes, mas ainda em volume reduzido.

É fato que as manifestações foram organizadas com ajuda das redes sociais, como o Twitter, e de mensagens de texto. Ainda é difícil avaliar o impacto real da internet na explosão que ameaça a ditadura xiita. Mas, está evidente, que os aiatolás enxergam na liberdade cibernética um inimigo a ser controlado. Eles têm razão. Em regimes autoritários, a mobilização online preenche o vácuo deixado pela falta de instituições e organizações que, na democracia, agrupam pessoas com interesses comuns. Os manifestantes iranianos não são comandados por ninguém, mas, devido à tecnologia, estão conectados uns com os outros. "Nestes países, a internet é a única forma de um cidadão obter determinados tipos de conteúdo, do entretenimento à política", disse a VEJA Evgeny Morozov, pesquisador do Instituto Open Society, de Nova York.

O blog do jornalista Andrew Sullivan, da revista americana The Atlantic, conseguiu 1,2 milhão de visitas compilando e traduzindo pequenas mensagens enviadas pelo Twitter. "Segundo médicos de hospitais no Irã, os tiros nos civis são da cintura para cima. Eles estão enterrando os corpos antes que as famílias os vejam", escreveu alguém. "Minha mãe acabou de falar com parentes em Shahrak-e-Gharb [bairro nobre em Teerã] que moram em apartamentos (sorte). Centenas de casas foram atacadas, a rua está arruinada", relatou outro.

Em linhas gerais, a situação no Irã é de fácil compreensão. O presidente foi reeleito com a maioria esmagadora de votos, apesar de as pesquisas terem previsto sua derrota para Mir-Hossein Mousavi que, por falta de definição melhor, é considerado o candidato reformista. Em menos de 20 minutos após o fechamento das urnas, 20% das cédulas de votação já haviam sido contadas - um recorde espetacular de velocidadel, visto que no Irã se vota em células de papel que precisam ser apuradas uma a uma. Tudo isso distante de qualquer representante da oposição ou de observadores internacionais, impedidos de acompanhar a votação. Apesar do comparecimento massivo - 85% dos eleitores, indicativo de uma disputa acirrada -, Ahmadinejad venceu com 63,5% dos votos. Mousavi pediu a anulação do pleito, os iranianos saíram às ruas. O governo reagiu com o script usual: prendendo opositores, mandando a polícia e a temível milícia islâmica, os basijs, reprimir os protestos. Na sexta-feira, o aiatolá Ali Khamenei, líder supremo que dá a última palavra sobre tudo no Irã, anunciou que o regime perdera a paciência e mandou parar com as manifestações. Quem insistisse, sentiria a mão pesada dos aiatolás.

É possível que com Mousavi houvesse maior liberdade no Irã. Mas não se pode contar com muito, pois o poder do presidente é limitado. As propostas reformistas do presidente Mohammed Khatami, na década passada, foram logo tolhidas pelos religiosos ultraconservadores. O Conselho dos Guardiães, que zela pela pureza ideológica, é responsável pela aprovação das candidaturas eleitorais (na última, barrou 471 aspirantes). Se Mousavi representasse um perigo à teocracia, não teria passado pelo crivo do Conselho. O que vai ocorrer nesta semana é doloroso de imaginar. As milícias islâmicas e a polícia, que apóiam Ahmadinejad, já receberam autorização do Líder Supremo para iniciar a repressão sem dó. Pobres iranianos.

Leia a reportagem completa em VEJA desta semana (na íntegra somente para assinantes).

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