06/11/2009 20:18
|
Tony Judt é um dos maiores especialistas do mundo em história da Europa. Intelectual londrino formado no King's College e na École Normale Supérieure, hoje ele é professor titular de estudos europeus na New York University e autor do best-seller Pós-Guerra - Uma História da Europa desde 1945. Ele concedeu a seguinte entrevista a VEJA:
Na sua opinião, nós vivemos em um mundo pós-Guerra Fria ou pós-11 de setembro? Qual desses dois eventos foi mais relevante para moldar a ordem mundial como a conhecemos hoje e por quê?
Obviamente, ambos. Mas na visão mais geral das coisas os eventos de 1989 são mais importantes. Sem eles a União Europeia não teria a forma que tem hoje, os EUA não teriam tropeçado tão catastroficamente no Oriente Médio, a Rússia não estaria retornando à ambição imperial e às regras autoritárias. (Ao contrário, estaria lutando para emergir da paralisia soviética.) Mesmo a globalização (e certamente o comércio) seria diferente se não fosse pelo colapso das divisões da Guerra Fria. De modo inverso, a facção terrorista do Islã radical estaria igualmente raivosa com ou sem a queda do Muro. E os atentados de 11 de setembro talvez tivessem acontecido de qualquer maneira, como consequência da crescente frustração no Oriente Médio e das diásporas muçulmanas da Europa. Nada no nosso mundo foi significativamente alterado pelo 11 de setembro, embora haja muito exagero em relação a isso. Havia muçulmanos terroristas muito antes de 2001. A única diferença é que eles não tiveram sucesso em atacar os EUA.
Em que aspectos a queda do Muro de Berlim influencia os novos papéis internacionais da Europa e dos países em desenvolvimento como a China, Índia e o Brasil?
A queda do muro ofereceu um novo papel internacional para a Europa que ela não conseguiu explorar totalmente. De fato, a UE expandiu-se rapidamente para o leste, onde se mostra fundamental para melhorar a gestão pública e manter a estabilidade. Mas ela falhou ao não aproveitar a opção de integrar a Turquia. Esta era uma maneira de se mostrar aberta e moderar os cidadãos islâmicos. Isso explica, em parte, porque a Europa perdeu força no Oriente Médio. Quanto à China e a Índia, não vejo o fim da Guerra Fria como uma etapa significativa em seus papéis enquanto economias de mercado. De modo inverso, parece-me que o Brasil, particularmente, foi um grande beneficiário do fim do sistema de "blocos" fechados. Os principais países da América do Sul e, talvez, da África (por exemplo, a Nigéria) foram excluídos de um papel autônomo por causa da Guerra Fria, mas desde então moveram-se rapidamente para exigir, e até certo ponto adquirir, uma parte da influência internacional proporcional ao seu tamanho e poder local. O G20 é uma ilustração disso, assim como a influência que o Brasil e os outros têm exercido na OMC e em outros fóruns internacionais.
Quando o Muro de Berlim caiu existiam esperanças de que uma nova era de segurança e paz começaria. Os últimos 20 anos nos mostraram algo diferente. Por quê?
A ilusão de que a Guerra Fria entre o Ocidente e o comunismo era a única fonte de instabilidade e de conflitos foi, ela mesma, um dos acidentes de 1989. O Oriente Médio, as tensões da globalização econômica, a escala da pobreza e a desigualdade na África e na Ásia, os problemas na Ásia Central (Afeganistão, Caxemira), todos estes eventos precederam os estágios mais tardios da Guerra Fria. Eu iria além e diria que as "certezas" da Guerra Fria eram, em 1989, de certa forma, uma fonte de segurança. As zonas mais afastadas da Guerra Fria, especialmente, descambaram para conflitos previsíveis.
A revolução de 1998 foi exclusivamente européia. Ditaduras comunistas ainda comandam a China, o Vietnã, a Coréia do Norte, Laos e Cuba. Por quê?
Boa pergunta. Eu acho que isso ilustra o quão importante Gorbachev e o desfecho interno do regime soviético em particular foram para 1989. O império soviético governou de fato o Leste Europeu e o Cáucaso e foram estas regiões, dentre todas, que realizaram a revolução de 1989. As zonas do comunismo que não estavam diretamente sob a hegemonia soviética não foram tão afetadas ou deslizaram para a direção o capitalismo autoritário (como é o caso da China e do Vietnã).