Internacional
Política externa
Embaixadora brasileira na ONU dá sinais de que país vai mudar voto sobre violações de direitos humanos no Irã
Maria Nazareth ofereceu almoço em Genebra à iraniana Nobel da Paz Shirin Ebadi e as duas concordaram "em tudo", segundo relato feito ao site de VEJA
Manifestantes em Berlim homenagearam, em agosto de 2010, cerca de 30.000 pessoas que teriam sido executadas pelo regime iraniano desde 1988 (Getty Images)
“O que eu posso dizer é que para todos os efeitos, nós concordamos em tudo"
Shirin Ebadi, sobre encontro com a embaixadora do Brasil junto às Nações Unidas em Genebra, Maria Nazareth Farani de Azevêdo
O governo brasileiro deu nesta segunda-feira mais um passo para corrigir um grande erro cometido durante os oito anos da administração anterior: apoiar países que violam sistematicamente os direitos humanos, como o Irã. A embaixadora do Brasil junto à Organização das Nações Unidas (ONU) em Genebra, Maria Nazareth Farani de Azevêdo, recebeu a vencedora do Prêmio Nobel da Paz e crítica ferrenha do regime iraniano, Shirin Ebadi, para um almoço em sua casa. O encontro foi realizado em meio às reuniões do Conselho de Direitos Humanos da ONU, que ocorrem desde o final de fevereiro, e que devem culminar com a votação nas próximas semanas de uma resolução, condenando as violações aos direitos humanos no Irã.
A advogada iraniana e Nobel da Paz de 2003, Shirin Ebadi
O almoço desta segunda - que contou ainda com embaixadores de diversos países da América Latina, África e também dos Estados Unidos na ONU - é um sinal de que o Brasil deve apoiar a resolução, que estabelece também o envio de um relator especial da entidade a Teerã. “Por uma questão de princípios e pela maneira como a ONU trabalha, as pessoas não fazem promessas umas às outras fora das sessões oficiais”, disse Ebadi ao site de VEJA sobre a conversa com a embaixadora brasileira no encontro extra-oficial. “O que eu posso dizer é que, para todos os efeitos, nós concordamos em tudo.”
Ebadi sempre criticou duramente a atitude do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva de tratar como amigo o fanático que governa o Irã e nega o Holocausto, Mahmoud Ahmadinejad. A iraniana agora vê mudanças na política externa do Brasil. “O país está prestando muito mais atenção nos direitos humanos.”
Ativistas que também participaram do almoço comemoraram o fato de a embaixadora brasileira ter convidado à sua casa um símbolo contra o regime opressor iraniano e outros representantes na ONU. “ A embaixadora estava muito aberta e ela expressou grande apoio ao que a Shirin Ebadi dizia”, afirmou Julie Gromellon, representante da Federação Internacional de Ligas de Direitos Humanos junto à ONU. “O fato de a embaixadora ter convidado todos é um sinal de que o país vai votar a favor da resolução. Acredito que agora a embaixadora esteja aguardando declarações vindas de níveis mais altos do governo brasileiro para deixar isso ainda mais claro.”
Sinais - Mesmo antes de sua posse, a presidente Dilma Rousseff já vinha dando sinais de que mudará a política externa do Brasil. Em uma entrevista concedida ao jornal americano The Washington Post, em dezembro do ano passado, ela condenou o apedrejamento no Irã e qualquer outro tipo de "prática ‘medieval’ contra mulheres”. Ela se referia à sentença decretada contra a iraniana Sakineh Mohammadi-Ashtiani por adultério pela arbitrária Justiça da Repúlica Islâmica.
A declaração de Dilma marcou um contraste com a política externa que o Itamaraty vinha adotando nos últimos oito anos. Um mês antes da entrevista da presidente, o Brasil - sob a batuta de Lula - se recusou a apoiar uma resolução na ONU que pedia o fim do apedrejamento no Irã. A medida, que acabou sendo aprovada mesmo sem o voto do Brasil, também condenava Teerã por "graves violações de direitos humanos" e por silenciar jornalistas, blogueiros e opositores.





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