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Do sequestro à fuga: Natascha Kampusch relembra seus 3.096 dias em cativeiro

Cecília Araújo, de Viena
Rua Melangasse, onde Natascha Kampusch foi sequestrada no caminho da escola

Rua Melangasse, onde Natascha Kampusch foi sequestrada no caminho da escola (Emiliano Capozoli/VEJA)

Era manhã do dia 2 de março de 1998 quando Natascha Kampush, 10 anos, foi desviada de seu caminho à escola. Ela saíra de casa sem se despedir da mãe, após uma briga. Na lembrança de Natascha, o ato do sequestro se deu numa “coreografia perfeita”. Ela foi carregada à força por um homem e colocada dentro de uma van branca, com destino a Strasshof an der Nordbahn. Nessa cidade, a 50 quilômetros de Viena, que Natascha permaneceria presa até 23 de agosto de 2006. O espaço entre essas duas datas perfaz a cifra que serve de título às memórias de cativeiro da jovem austríaca: 3.096 Dias, livro que chega ao mercado brasileiro nesta semana, pela editora Record.

Wolfgang Priklopil sequestrador de Natascha Kampusch

Priklopil (AP)

“Era magro, não muito alto e olhava ao redor sem interesse, como se esperasse por alguma coisa que não soubesse o que era", conta Natascha. Seu nome: Wolfgang Priklopil, um engenheiro de telecomunicações da Siemens. "Tinha olhos azuis e, com os cabelos talvez excessivamente compridos, parecia um estudante saído de algum filme antigo feito para televisão na década de 1970. Seu olhar parecia estranhamente vazio. Pobre homem", pensou ela, considerando-o perdido e frágil.

 

Natascha Kampusch criança

Natascha Kampusch

Quando era pequena, Natascha via pela TV os casos horripilantes de quadrilhas de pornografia infantil. Na escola, recebia dicas: “Nunca converse com estranhos!”. Porém, imaginava que o perfil das vítimas de sequestro seguia uma regra: as meninas eram geralmente “loiras, pequenas e muito magras, quase transparentes, que flutuavam pelo mundo de modo angelical e indefeso. Eu, ao contrário, tinha cabelos escuros e me sentia gorda e normal”. Depois que tudo aconteceu, se perguntava: "Por que eu?" 


Nos primeiros seis meses, Natascha permaneceu fechada num porão de 5 metros quadrados e 2,4 metros de altura. O cômodo era privado de luz natural e cheirava mal. A apreensão era grande: o lugar era tão bem camuflado e protegido, que se acontecesse qualquer coisa que impedisse o sequestrador de visitá-la, sua morte seria certa.

Por fim, Natascha começou a frequentar o “andar de cima”. Começava um novo tipo de calvário. Priklopil a tratava ora como uma criança pequena, ora como uma mulher independente, sendo que ela não era uma coisa nem outra. Ele lia histórias para Natascha adormecer e lhe dava beijos de boa noite na testa. Jogava com ela - ludo e xadrez chinês -  e satisfazia muitos dos seus pedidos. Deu-lhe material escolar, computador (um Commodore C64 antigo, com disquete de jogos), videogame, walkman, livros, TV e rádio. Ao mesmo tempo, Priklopil cumulava Natascha de obrigações. Ela tinha de realizar todas as tarefas da casa, e trabalhava seminua, para que não pudesse fugir. Ela era forçada a pintar o cabelo de loiro ou raspá-lo, conforme os caprichos de Priklopil. Foi diante dele, que ela teve sua primeira menstrução. 

Emiliano Capozoli

Casa onde Natascha Kampusch permaneceu em cativeiro durante 8 anos

Casa onde Natascha permaneceu em cativeiro

Aos 14 anos, Natascha passou pela primeira vez a noite na cama do sequestrador. O assunto “sexo” é o único que Natascha insiste em manter reservado - como a “última porção de privacidade que lhe resta”. Natascha revela no livro apenas um detalhe sórdido: Priklopil usava algemas de plástico para unir seu pulso ao dela. “Eu sentia a respiração dele atrás do pescoço e enrijecia”, conta. Ela também admite que sofria abusos sexuais diários, mas "menores". Ela, no entanto, se recusa a chamar Priklopil de “monstro sexual” - um epíteto muito usado pela imprensa austriaca na época de sua libertação. “Quando ele me algemava, não se tratava de sexo. O homem que me batia, me trancava no porão e me deixava sem comer queria alguém para abraçar”.

23 de agosto de 2005: Pelo menos 60 tapas no rosto. 10-15 socos na cabeça que me deixaram com náusea, quatro tapas com a palma da mão aberta na cabeça, um soco com toda a força na orelha direita e na mandíbula. Minha orelha ficou preta. Estrangulamento, soco no queixo, fazendo a mandíbula estalar, mais ou menos 70 golpes com o joelho no cóccix e no bumbum. Socos no cóccix e na coluna, na costela e entre os seios. Golpes com uma vassoura no cotovelo esquerdo e braço (hematoma preto-amarronzado) e no pulso esquerdo. Quatro socos no olho que me fizeram ver luzes azuis. E muito mais. (Texto de seu diário, citado no livro)

Com o estreitamento do contato, as mudanças de humor de Priklopil se tornaram mais evidentes e frequentes. Ele chegou a jogar um saco de cimento em cima de Natascha e enfiar um canivete em seu joelho. Igualmente dolorosas eram as ofensas pessoais: ele a chamava de burra, inútil, feia, gorda. E repetia: "Seus pais não amam você. Eu a salvei. Você deveria me agradecer". Admirador de Hitler e xenófobo assumido, Priklopil frequentemente dava indícios de sua paranoia. “Eu sou um deus egípcio”, repetia. Ao tentar explicar porque havia seqüestrado Natascha, dizia: “Você foi até mim como um gato de rua. E podemos ficar com gatos”. Como um bicho de estimação, deu até um novo nome à garota, passando a chamá-la de Bibiana.

Nos primeiros anos de clausura, o que Natascha mais queria era fugir. Só que achava que vivia numa prisão de segurança máxima, com explosivos nas janelas. Quando concluiu que a empreitada era impossível, tentou se suicidar várias vezes e de diversas formas, sem conseguir, no entanto, chegar ao fim: experimentou se enforcar, cortar os pulsos, se asfixiar. Tinha certeza de que ninguém mais falava em Natascha Kampusch no mundo exterior. O sequestrador tomava o cuidado de censurar algumas notícias para garantir que ela não escutasse eventualmente que ainda estavam procurando por ela. Um dia, porém, ela teve uma surpresa: ouviu seu nome ser pronunciado no rádio. Nesse momento, a esperança voltou, e Natascha se colocou uma meta nada fácil: estar livre aos 18 anos.

Entre outras estratégias de sobrevivência, Natascha se negou até o fim a chamá-lo de “meu mestre” ou se ajoelhar diante dele, como exigido. Isso ajudou a construir uma relação entre vítima e sequestrador cada vez mais “igual”. Criou-se entre ambos um dependência vital que resultou no suicídio de Priklopil quando ele se deu conta da fuga de Natascha. Ele se jogou na frente de um trem em uma estação do norte de Viena. “Deve ter ficado claro que ele não havia acorrentado apenas minha vida à dele, mas também a dele à minha. E que qualquer tentativa de romper essa corrente terminaria na morte de um de nós”, diz Natascha no livro.

Antes de finalmente conseguir escapar, Natascha foi levada pelo próprio Priklopil para alguns passeios fora da casa. Ao olhar pela janela do carro, se sentiu como num “show de Truman”, onde ninguém é real. Chegaram a entrar em uma loja de cosméticos e outra de materiais de construção. A jovem não ousava falar nada: acreditava na promessa do sequestrador de que mataria a todos diante de qualquer movimento da parte dela. Também fizeram um passeio de esqui, sua maior oportunidade de fuga. Mas Natascha não era capaz de fugir. No livro, relata que sentia ter os pés atados. Por fim, num dia em que Priklopil falava ao telefone distraído no jardim de sua casa, deixando-a sozinha do lado de fora pela primeira vez, Natascha deixou de lado o carro que limpava e correu pelo portão milagrosamente aberto. Alcançava a tão esperada liberdade.

Emiliano Capozoli

Fundos da casa onde Natascha Kampusch permaneceu em cativeiro durante 8 anos

Fundos da casa por onde Natascha conseguiu fugir em 23 de agosto de 2006

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