Direitos Humanos

Para dissidentes, nada muda com visita de Dilma a Cuba 

Oposição criticou diplomacia brasileira por não intervir em direitos humanos

Maritza Pelegrino, viúva do dissidente Wilman Villar, durante coletiva em Havana

Maritza Pelegrino, viúva do dissidente Wilman Villar, durante coletiva em Havana ( EFE/Alejandro Ernesto)

Em uma entrevista coletiva realizada nesta segunda-feira, em Havana, dissidentes cubanos afirmaram que não esperam "nada de relevante" em relação à situação dos direitos humanos na ilha com a visita da presidente Dilma Rousseff, que desembarcou em Cuba na noite desta segunda.

O ativista Elizardo Sánchez, da Comissão de Direitos Humanos e Reconciliação Nacional (CCDHRN), afirmou que a política externa do governo brasileiro é marcada por uma interpretação anacrônica do princípio de não intervenção. "A diplomacia brasileira tem uma disciplina pendente em relação à atualização de seu enfoque do princípio de não intervenção, válido do ponto de vista político e do direito internacional, mas não para os direitos fundamentais".

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O ex-preso político José Daniel Ferrer, líder do grupo dissidente União Patriótica de Cuba, também expressou suas preocupações: "Há outros interesses, outras questões envolvidas e acho que isso (a questão dos direitos humanos) ficará para trás, assim como fez o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva quando morreu (Orlando) Zapata", disse Ferrer em referência ao ativista político morto após fazer uma greve de fome de 83 dias, pouco antes da visita de Lula à ilha em 2010.

"Acho que no (âmbito) pessoal, Dilma pode estar preocupada com o que acontece em Cuba em matéria de direitos humanos. Mas não espero que ela trate o caso de Wilman Villar abertamente", declarou Ferrer sobre a morte de outro ativista, ocorrida em 19 de janeiro, também após fazer uma greve de fome –  o governo cubano, porém, negou o jejum e se recusou a classificar Villar como dissidente.

Caso Villar – Durante a entrevista coletiva dos dissidentes, Maritza Pelegrino, a viúva de Wilman Villar, voltou a rejeitar a versão oficial sobre o caso de seu marido. O governo considerava Villar como um "recluso comum", condenado por causa de um episódio de violência doméstica.

A viúva nega a agressão de seu marido, como sustenta a versão oficial, em uma disputa matrimonial que tiveram em julho de 2011 e que acabou com a prisão de Villar. Porém, o preso acabou sendo libertado três dias depois. Em setembro, ele se uniu à organização dissidente União Patriótica de Cuba, mas Maritza afirma que seu marido já era contra o governo cubano por conta da morte de seu pai em uma prisão, cinco anos atrás. 

Em um ato de protesto com a participação de outros dissidentes em novembro passado, na cidade de Contramestre, onde morava, Villar foi detido, julgado e condenado a quatro anos de prisão por "desacato, atentado e resistência". Ferrer indicou que Villar, que não sofria de doença alguma antes de ser preso, esteve em uma cela em condições insalubres, o que pode ter provocado a pneumonia diagnosticada como causa da sua morte.

Segundo a esposa do dissidente, Villar não recebeu atendimento médico adequado e que só foi transferido para um hospital quando sua saúde já estava muito deteriorada. "Estão mentindo. Querem matar também sua imagem", disse Maritza em relação aos argumentos oferecidos pelo governo cubano. 

Atualizado às 21h27

(Com agência EFE)

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