Internacional
Terremoto no Caribe
Corpo de diplomata brasileiro é encontrado no Haiti
Sobreviventes correm para pegar ajuda trazida por helicóptero dos EUA em Porto Príncipe (AP)
O corpo do brasileiro Luiz Carlos da Costa, chefe-adjunto civil da missão de paz da ONU no Haiti (Minustah), foi encontrado neste sábado nos escombros da sede da organização, em Porto Príncipe, devastada pelo terremoto de terça-feira. O corpo do chefe da Minustah, o tunisiano Hedi Annabi, também foi encontrado.
Em pronunciamento, o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, afirmou que Costa era uma "lenda em operações de paz da ONU". Ele acrescentou que Annabi era um "verdadeiro cidadão do mundo" e um "ícone dos esforços de paz da ONU".
Também foi encontrado o corpo de um terceiro funcionário da Minustah, o chefe de polícia, Doug Coates.
O ministro da Defesa, Nelson Jobim, afirmara na sexta-feira que não havia esperança de encontrar com vida os cinco brasileiros ainda desaparecidos - quatro militares e um civil, Luiz Carlos da Costa. Jobim elevou para 17 o número de brasileiros mortos no país - 14 militares e mais três civis, entre eles a médica Zilda Arns, fundadora da Pastoral da Criança.
Jobim previu neste sábado que o Brasil deverá ficar pelo menos mais cinco anos no Haiti, a fim de colaborar com a reconstrução do país.
Ele afirmou estar certo de que o Brasil continuará no Haiti depois de 2011, quando termina o mandato brasileiro à frente da Missão de Paz da ONU no Haiti (Minustah). "Não vejo menos de cinco anos (de permanência das tropas brasileiras)", disse Jobim na Vila Militar, no Rio de Janeiro, centro de treinamento de militares que embarcam para a missão no Haiti. "É preciso reconstruir o país."
O governo brasileiro procurava amenizar o clima de tensão surgido por causa do aumento das atribuições dos Estados Unidos, que passaram a controlar o conturbado aeroporto da capital haitiana, Porto Príncipe, a fim de organizar a chegada de ajuda humanitária internacional.
O embaixador Antônio Simões, subsecretário-geral da América do Sul do Ministério de Relações Exteriores, negou que a expressiva presença americana pós-terremoto possa gerar situações de duplo comando. "Tudo se passa em clima de harmonia e entendimento", afirmou ele.
Além de controlar o aeroporto a pedido do governo haitiano, os EUA prometeram enviar até 10.000 soldados para ajudar a distribuir ajuda e manter a ordem. O Brasil mantém cerca de 1.300 militares no Haiti e lidera a força de paz de 12.000 homens da ONU, que tem a mesma missão de garantir a segurança no país caribenho.
Pouso liberado - A aparente tensão entre Brasília e Washington diminuiu neste sábado, depois que mais cinco aeronaves da Força Aérea Brasileira (FAB) com suprimentos e equipes médicas conseguiram aterrissar no aeroporto de Porto Príncipe, autorizados pelos EUA.
De acordo com informações da FAB divulgadas na manhã de sábado, três aviões com suprimentos, remédios e equipes médicas que aguardavam autorização para pousar em Santo Domingo, na vizinha República Dominicana, partiram durante a madrugada de sexta-feira e já pousaram na capital haitiana. Outras duas aeronaves que aguardam em Boa Vista (RR) também já decolaram e chegaram ao local na manhã deste sábado.
Caos - Barricadas de pneus incendiados, escombros e pelo menos quatro corpos bloqueavam a estrada principal que liga a capital do Haiti à cidade de Carrefour, neste sábado, enquanto um grupo protestava exigindo a remoção dos corpos que apodreciam ao sol.
"Já foram retirados alguns corpos, mas há muitos, muitos mais", afirmou o sacerdote vodu Charles Weber, de 52 anos, em meio a cerca de 40 manifestantes que se concentravam nas imediações da barreira improvisada em chamas.
Enquanto Weber falava, uma viatura policial da combalida Força Nacional haitiana foi obrigada a dar meia-volta rapidamente para evitar a ira dos moradores.
Funcionários das Nações Unidas advertem que não podem estender suas operações às áreas próximas até que haja garantias de segurança.
Uma equipe da ONU informou neste sábado que Carrefour, uma pobre cidade a oeste de Porto Príncipe, com 334.000 habitantes, tinha sido destruída em 40% a 50% pelo terremoto de terça-feira. Quase 90% das construções da cidade vizinha de Leogane, também na mesma direção, estavam danificadas pelo terremoto.
Leogane, a área "mais afetada" fora da capital, segundo Elisabeth Byrs, porta-voz da Agência de Coordenação de Assuntos Humanitários da ONU, é atualmente o túmulo de cerca de 10.000 pessoas, muitas delas presas dentro das construções que desabaram.
A ONU ativou um centro de operações no aeroporto central de Porto Príncipe para coordenar as equipes de busca e resgate de 27 países.
Moradores famintos brigam entre si por sacos de comida entregues pelos caminhões da ONU no centro de Porto Príncipe.
A ONU alertou que a fome vai provocar caos generalizado se a ajuda não chegar mais rápido, embora a situação permaneça sob controle "por enquanto".
"Houve alguns incidentes nos quais as pessoas estavam saqueando e brigando por comida. Eles estão desesperados, estão há três dias sem comida ou qualquer assistência", afirmou o sub-secretário-geral da ONU para a manutenção da paz, Alain Le Roy, ao programa The PBS NewsHour, dos EUA.
Vítimas - O número de mortos pelo terremoto no Haiti pode chegar a 200.000, disse na noite desta sexta-feira à Reuters o ministro do Interior, Paul Antoine Bien-Aime. "Já recolhemos cerca de 50.000 corpos e achamos que haverá entre 100.000 e 200.000 mortos no total, mas talvez nunca saibamos o número exato", disse.
Horas antes, o secretário de Estado para Segurança Pública, Aramick Louis, afirmara que 40.000 corpos haviam sido enterrados e que 100.000 pessoas poderiam ter morrido no terremoto.
Ele acrescentou que grupos armados estavam tomando as ruas e que o governo temia um aumento da violência.
Leia no blog Terremoto no Haiti, do enviado especial Diego Escosteguy:
Percebo a preocupação do público em saber com precisão o número de mortos e de feridos na tragédia. Pelo que vi nas ruas de Porto Príncipe, isso é impossível: o país desmoronou. Não há como calcular o número de casas ou de prédios que desabaram, tamanha a destruição.
Mas talvez a força da tragédia que matou o Haiti esteja na história de quem restou para sofrer as consequências do terremoto. Histórias como a do jovem haitiano que carregava o corpo de uma familiar num carrinho de bebê, zanzando sem direção pelo acostamento da principal pista de Porto Príncipe. Ele não chorava - apenas suava e caminhava, mecanicamente. Pessoas e carros passavam por ele sem estranhar aquela tétrica cena. Era como se o rapaz carregasse um carrinho de supermercado.





Comentários