Entrevista

'Eu sou o messias das lésbicas na Síria', diz autor de blog

Tom MacMaster, americano heterossexual que se passou por uma blogueira lésbica síria por meses, revela ao site de VEJA quais foram suas reais intenções

Nana Queiroz
Tom Macmaster posa no lobby do hotel em que está hospedado, na Turquia

Tom Macmaster posa no lobby do hotel em que está hospedado, na Turquia (AFP/VEJA)

Muito diferente da audaciosa Amina Abdullah, blogueira lésbica que comoveu o mundo com sua luta contra a repressão sexual e política na Síria, Tom MacMaster, verdadeiro autor do blog Gay Girl in Damascus (Garota Gay em Damasco), é dono de uma voz hesitante e insegura. Com longos intervalos de silêncio para medir suas palavras, MacMaster explicou ao site de VEJA porque só nesta semana resolveu revelar que era o homem por trás dos relatos. “Eu queria receber crédito por esse trabalho. Sou como um messias para as lésbicas da Síria”, disse. 

MacMaster, um estudante americano de pós-graduação de 40 anos - casado e que se define como heterossexual -, não demonstra arrependimento. Apesar de ter mentido sobre sua identidade aos leitores e à imprensa durante cinco meses e de ter assustado os internautas com a falsa notícia da prisão de Amina, ele acredita que seu trabalho serviu a um bom propósito. “O que importa é que, mesmo recebendo tantas críticas, atingi meus objetivos: fiz com que as pessoas discutissem o tema”, afirma. Confira alguns trechos da entrevista que MacMaster concedeu ao site de VEJA por telefone.

Quem é esse homem por trás de Amina? Posso dizer que sou uma lésbica presa no corpo de um homem. Sinto o sofrimento delas profundamente. Mas não quero falar muito sobre minha vida pessoal, acredito que isso tira a atenção do que realmente é importante: a repressão homossexual na Síria. 

Com tantos grupos sendo oprimidos na Síria, por que o senhor escolheu criar a personagem de uma garota lésbica? Eu usei Amina como uma analogia de toda a comunidade gay. Queria libertar esse grupo social, dar voz a essas pessoas. Queria que elas viessem a público e vencessem a opressão. Eu também esperava trazer a questão religiosa à tona. Além do governo, o Islã também reprime. Com hábitos como o véu, essa religião apenas condena e não ressalta a beleza da sexualidade humana. Amina personificava isso. 

O senhor tem recebido muitos e-mails de seus leitores? Sim. Minha caixa de entrada tem mais de 9.000 mensagens. Alguns expressam preocupação, outros, profunda repulsa. Fiquei tão sobrecarregado com as reações que não consegui responder a todas as mensagens. Eu entendo o sentimento de revolta. Mas é errado que me condenem por criar e retratar uma heroína homossexual. Era preciso que essa história da sexualidade fosse contada. Também houve algumas respostas positivas, pessoas que acreditam que, apesar de meu personagem ser ficcional, eu fui muito corajoso de escrever aquelas coisas e mergulhar nas reflexões tão profundamente. Muitas pessoas não teriam coragem de fazer isso. Sou como um messias para as lésbicas da Síria. 

E de onde o senhor retirava as informações sobre as quais escrevia? Minha esposa conhecia algumas lésbicas sírias reais que eram forçadas a reprimir sua sexualidade. Essa foi minha motivação para começar o blog e onde me inspirei para escrever as experiências de Amina. Além disso, colhi informações em uma variedade de veículos de imprensa. Saber mais sobre o assunto se tornou uma obsessão para mim. 

O senhor falou com Jelena Lecic, a garota cuja foto o senhor usou no blog, alegando que se tratava de Amina? Infelizmente não. Eu vi a entrevista que ela deu à rede britânica BBC, ouvi o que disse, mas não estabeleci contato ainda. Na verdade, sinto que essa pergunta é irrelevante.Ela ignora todo o esforço que eu dediquei para que a comunidade gay da Síria estivesse no centro das discussões. Tudo que a imprensa tem feito é distorcer minhas intenções como se tivessem sido maliciosas. Minha história tem sido comparada ao conto “O Menino e o Lobo” [em referência ao conto no qual um menino mente tantas vezes que, quando diz a verdade, ninguém acredita]. Eu não vejo nada de errado no que fiz. A mensagem que transmiti era muito positiva e justa. A personagem era falsa, mas todos os fatos de que falei eram muito reais e estão acontecendo na Síria hoje. 

Por que o senhor não deixou claro desde o princípio que se tratava de uma obra de ficção baseada em fatos reais? Eu queria que as pessoas levassem o blog a sério. Se eu dissesse que era uma ficção, as pessoas não iriam lê-lo nem pensar sobre o assunto. Mas muito além disso, será que nós podemos caracterizar meu blog como ficção? Não totalmente. Histórias reais de milhares de pessoas estão fundidas em um único personagem ficcional. E tudo em que as pessoas estão focando, neste momento, é nesse único fator irreal: o personagem. 

Por que, então, o senhor decidiu revelar sua identidade depois de tantos meses? Em algum momento eu olhei para o meu blog e achei que era irrelevante se eu era, de fato, Amina ou fingia ser. A mensagem era válida por si só, independentemente da realidade da personagem. Eu também queria receber os créditos por esse trabalho. 

O senhor considera errado o que fez? Eu acredito que os fins justificam os meios. Para mim, o que fiz não interessa, o que importa é o que precisava ser feito. A comunidade gay vê meus meios como desprezíveis, mas eu fiz isso pelo bem maior, para ajudá-la. Eu queria libertar esse grupo. E mesmo que eu tenha recebido tantas críticas, atingi meus objetivos: fiz as pessoas discutirem o tema. 

Por que o senhor decidiu simular a prisão de Amina? Não temeu que a história saísse do controle? A prisão foi criada para dar dimensão à história. Para manter as pessoas ligadas, conscientes sobre os problemas da Síria. Eu queria forçá-las a ter uma crise de moralidade. 

O senhor não teme que os blogs de ativistas sírios reais percam credibilidade? Não creio que será o caso. Pelo contrário, acho que haverá um efeito-dominó entre os ativistas sírios e que eles começarão a escrever mais, pois ganharam mais atenção depois do meu blog. Atenção atrai leitores e mais leitores dão força à causa. 

O senhor pretende escrever um livro sobre Amina? Considero a possibilidade de escrever um livro, Mas neste momento estou ainda amadurecendo essa ideia, não há um projeto definido. 

E o blog, vai continuar? Isso vai depender de como eu vou lidar com esse estresse. A mídia e os leitores estão me sufocando. Eu não consigo mais sentar, me concentrar e escrever. Mas, de toda maneira, acho que o blog já realizou seu objetivo, mesmo se parar por aqui.

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