Tarja - Brasil 2014

Estádios

Prepare o bolso: os elefantes brancos estão à solta no país

Eles consumirão um total de 7 bilhões de reais, mas essa gastança será só o começo - os estádios ainda custarão muito dinheiro ao contribuinte brasileiro

Giancarlo Lepiani
  • Vista aérea do Estádio do Maracanã

    Christophe Simon/AFP

  • Estádio Mané Garincha em abril de 2013

    Ueslei Marcelino/Reuters

  • Arena Fonte Nova, na Bahia recebe os últimos ajustes para inauguração. O estádio receberá jogos da Copa das Confederações

    Vanderlei Almeida/AFP

  • Obras do estádio Mané Garrincha, em Brasília, que receberá partidas da Copa 2014

    Ueslei Marcelino/Reuters

  • Arena Pernambuco: as obras em setembro de 2012

    Divulgação

  • Obras do Estádio Nacional de Brasília no fim de outubro de 2012

    Ademir Rodrigues/Ministério do Esporte/Divulgação

  • Arena Amazônia em Manaus, setembro de 2012

    Gideão Soares/ME/Portal da Copa

  • Arena Pantanal em Cuiabá, setembro de 2012

    José Medeiros/ME/Portal da Copa

  • Visita de integrantes da Fifa e do Comitê Organizador Local da Copa de 2014 ao Itaquerão, em São Paulo; a menos de dois anos da abertura do Mundial, que acontecerá na futura arena do Corinthians, as obras estão chegando à metade de sua conclusão

    Nelson Antoine/AP

  • Visitação pública às obras do Maracanã, no Rio de Janeiro

    Celso Pupo/Fotoarena

  • Valcke e Ronaldo nas obras da Arena Amazônia: estádio acima do preço

    Divulgação/Fifa

  • Foto aérea do Maracanã: obras serão abertas à visitação

    Angular Fotografias Aéreas

  • As obras do Itaquerão, em São Paulo

    Odebrecht/Divulgação

  • Ronaldo fala em cerimônia sobre a prevenção de acidentes no local de trabalho, durante uma visita ao Maracanã, no Rio de Janeiro

    Vanderlei Almeida/AFP

  • Reformas no Maracanã para a Copa de 2014, no Brasil

    Bia Alves/Fotoarena

  • O ministro dos esportes, Aldo Rebelo, confere o andamento das obras do Maracanã, no Rio de Janeiro

    Livia Villas Boas / AGIF / Agência O Globo

  • Reforma do estádio do Maracanã, Rio de Janeiro

    Ricardo Moraes/Reuters

  • Trabalhadores na construção do estádio de Brasília para a Copa do Mundo da FIFA de 2014

    Evaristo Sá/AFP

  • Vista aérea do estádio de futebol Mineirão durante a reforma para a Copa do Mundo 2014, Minas Gerais

    Washington Alves/Reuters

  • Andres Sanchez, presidente do Corinthians, e ex-presidente da república Luiz Inácio Lula da Silva visitam as obras do estádio do clube, apelidado de Itaquerão

    Nelson Antoine/FotoArena

  • Obras do Estádio Verdão em Cuiabá (MT)

    Sérgio Dutti

  • Obras do Estádio Verdão em Cuiabá (MT)

    Sérgio Dutti

  • Reforma no estádio Mineirão em Minas Gerais (MG)

    Bruno Magalhães/Nitro

  • Reforma no estádio Mineirão em Minas Gerais (MG)

    Bruno Magalhaes/Nitro

  • Reforma no estádio Mineirão em Minas Gerais (MG)

    Bruno Magalhães/Nitro

  • Reforma no estádio do Maracanã no Rio de Janeiro (RJ)

    Paulo Bissoli/My Zoom

  • Reforma no estádio do Maracanã no Rio de Janeiro (RJ)

    Paulo Bissoli/My Zoom

  • Resconstrução do estádio Mané Garrincha em Brasília (DF)

    Sérgio Dutti

  • Resconstrução do estádio Mané Garrincha em Brasília (DF)

    Sérgio Dutti

  • Obras do estádio Arena Fonte Nova em Salvador (BA)

    Claudio Gatti

  • Obras do estádio Arena Fonte Nova em Salvador (BA)

    Claudio Gatti

  • Terreno onde será construído o Estádio do Corinthians, mais conhecido como Itaquerão, São Paulo (SP)

    Fernando Cavalcanti

  • Terreno onde será construído o Estádio do Corinthians, mais conhecido como Itaquerão, São Paulo (SP)

    Fernando Cavalcanti

  • Terreno onde será construído o Estádio do Corinthians, mais conhecido como Itaquerão, São Paulo (SP)

    Fernando Cavalcanti

  • Obras no estádio Castelão, Fortaleza (CE)

    Manoel Marques

  • Obras no estádio Castelão, Fortaleza (CE)

    Manoel Marques

  • Obras do Estádio Arena Pernambuco, Recife (PE)

    Manoel Marques

  • Obras do Arena Pantanal, em Cuiabá, para a Copa do Mundo de 2014

    Sérgio Dutti

  • Obras do Estádio Arena Pernambuco, Recife (PE)

    Manoel Marques

  • Estádio Machadão, onde será construído o Arena das Dubas, Natal (RN)

    Leo Caldas

  • Estádio Arena da Baixada, Curitiba (PR)

    Humberto Michalchuk

  • Estádio Arena da Baixada, Curitiba (PR)

    Humberto Michalchuk

  • Obras do estádio Arena da Amazônia, Manaus (AM)

    Manoel Marques

  • Obras do estádio Arena da Amazônia, Manaus (AM)

    Manoel Marques

  • Tratores trabalham no terreno onde será construído o estádio do Corinthians, em Itaquera

    Daniel Augusto Jr./Fotoarena

  • Tratores e caminhões no primeiro dia de obras de construção do estádio do Corinthians, em Itaquera

    Nelson Antoine/ Fotoarena

  • Arquibancada que deve ser impolida para dar continuidade as obras no estádio Mané Garrincha, em Brasília. A construção segue dentro do cronograma e a arena pode receber a abertura da Copa de 2014

    Sérgio Lima/Folhapress

  • Vista aérea das obras de reforma do estádio do Maracanã, Rio de Janeiro

    Genilson Araujo/Agência O Globo

  • Vista aérea das obras de reforma do estádio do Maracanã, Rio de Janeiro

    Genilson Araujo/Agência O Globo

  • Vista aérea das obras de reforma do estádio do Maracanã, Rio de Janeiro

    Genilson Araujo/Agência O Globo

  • Vista aérea das obras de reforma do estádio do Maracanã, Rio de Janeiro

    Genilson Araujo/Agência O Globo

  • Vista aérea das obras de reforma do estádio do Maracanã, Rio de Janeiro

    Genilson Araujo/Agência O Globo

  • Implosão do estádio estádio Fonte Nova, em Salvador

    Manuela Cavadas/EFE

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Nas próximas cinco décadas, porém, esses projetos poderão consumir um montante bem maior, com um custo de manutenção e preservação de mais de 27 bilhões de reais - e um custo total de até 33 bilhões de reais

Obras atrasadas, orçamentos estourados e escassez de investimentos privados marcaram a empreitada brasileira para construir os palcos da Copa do Mundo de 2014. Para alívio dos organizadores, porém, os estádios deverão estar prontos, ainda que em cima da hora (e, em alguns casos, ainda perigosamente incompletos no ensaio geral para o Mundial, a Copa das Confederações). Superado esse desafio, o país terá de encarar outra grande encrenca, talvez até maior: a administração e conservação das modernas arenas erguidas para o torneio. Os especialistas alertam que os custos de construção são apenas uma fatia do valor consumido por um novo estádio durante suas primeiras décadas de existência. Ou seja, a longo prazo, gerenciar e preservar uma construção desse tipo custa até mais caro que erguê-la. Resultado: o Brasil ainda gastará muito dinheiro com os estádios, mesmo depois de 2014. Para complicar, pelo menos cinco cidades-sede terão arenas que dificilmente serão utilizadas com a frequência necessária para pagar as contas. O contribuinte brasileiro precisa estar preparado desde já. Afinal, nove dos doze estádios da Copa são empreendimentos públicos, o que abre uma perspectiva preocupante. É bastante provável que muitos estados carreguem o peso dos gastos com a Copa por anos a fio, sem que o retorno pela realização das partidas do torneio seja suficiente para fechar a conta. Longe disso, aliás: o fluxo de visitantes atraídos por três ou quatro jogos num período de um mês certamente será insuficiente para recompensar os cofres públicos pela gastança.

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Não era isso que se prometia, evidentemente, quando o Brasil foi escolhido para sediar o Mundial, em 2007. O então presidente da CBF, Ricardo Teixeira, anunciava ao povo brasileiro a "Copa do Mundo da iniciativa privada", garantindo que atrairia investidores interessados em erguer as arenas sem qualquer envolvimento das três esferas de governo. A afirmação já despertava profunda desconfiança, é claro. Mas poucos esperavam que a realidade seria tão distante da promessa. Apenas os estádios do Internacional (Beira-Rio), do Atlético-PR (Arena da Baixada) e do Corinthians (Itaquerão) não foram bancados pelos cofres públicos - e, mesmo nesses casos, o papel do governo foi decisivo, através da concessão de incentivos e empréstimos. A escassez de interessados em construir ou reformar as arenas brasileiras já era uma pista do problema que será enfrentado pelo país a partir de 2014. Fossem negócios imperdíveis, com generosas margens de lucro e fluxo constante de receita, os novos estádios certamente despertariam a cobiça do setor privado. Não foi o caso - e não é difícil notar o motivo. Entre as nove cidades-sede com arenas bancadas pelo dinheiro público, quatro não cumprem o requisito básico para abrigar um estádio de futebol caro e moderno: Brasília, Cuiabá, Natal e Manaus simplesmente não têm clubes e campeonatos capazes de encher as arquibancadas e garantir a utilização constante da construção. Outras duas cidades, Fortaleza e Recife, têm times com grandes torcidas e costumam sediar jogos importantes, mas ainda assim não têm como garantir que suas novas arenas serão bem aproveitadas, por causa de deficiências nos projetos e incertezas em relação ao uso das instalações pelos clubes locais. O caso de Recife é mais delicado, já que a Arena Pernambuco fica fora da capital, no município de São Lourenço da Mata, e a utilização do estádio dependerá das facilidades oferecidas ao torcedor para que ele frequente o local (e, até agora, elas não são muitas, já que as obras viárias estão incompletas).

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As outras três sedes com estádios públicos, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Salvador, não deverão ter problemas para manter as arenas ocupadas. Isso não significa, porém, que seu aproveitamento tenha sido bem planejado. O Maracanã abriu a concorrência para a administração privada do estádio apenas na semana passada, com um prazo apertado demais - e que provavelmente culminará num negócio muito mais vantajoso para a empresa vencedora do que para o poder público. Os termos da concessão são extremamente atraentes para quem assumir a administração do estádio (tanto que o número de interessados só cresce desde que o governo lançou o edital). No caso do Mineirão, apenas um dos grandes clubes da capital, o Cruzeiro, deve adotar o estádio como sua casa. O Atlético-MG reclamou dos valores e dos termos propostos para que o time mandasse seus jogos no grande palco da cidade. Avisou que prefere seguir jogando no Independência (que foi reformado com verba do governo estadual e hoje é administrado pela empresa paulista BWA). Em contraste com todas as confusões que cercam os estádios públicos, nas três cidades-sedes com projetos privados para a Copa não há qualquer dúvida sobre o futuro desses empreendimentos. Inter, Corinthians e Atlético-PR terão estádios quase sempre cheios - e, a não ser que seus dirigentes façam grandes barbeiragens na administração, eles serão muito rentáveis. Tanto os estádios públicos como os privados devem seguir um cálculo inescapável nas próximas décadas. A longo prazo, o preço de uma grande obra não se resume ao valor aplicado na construção: ele deve incluir também os gastos necessários para mantê-la em ordem.

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De acordo com o Sindicato da Arquitetura e da Engenharia (Sinaenco), a obra em si geralmente corresponde a entre 17% e 20% do total gasto nos primeiros cinquenta anos de uma edificação. Isso serve para qualquer construção. No caso dos estádios, porém, essas despesas adicionais são ainda mais inevitáveis, pela própria característica dessas edificações - e pelo fato de que não se pode arriscar a segurança de dezenas de milhares de pessoas com um trabalho ineficaz ou negligente de preservação. Tomando-se como base as últimas estimativas de preço dos estádios públicos da Copa, as obras de construção e reforma dessas arenas somarão pelo menos 5,7 bilhões de reais (quando se incluem os privados, chega-se a quase 7 bilhões). Nas próximas cinco décadas, porém, esses projetos deverão consumir um montante bem maior, com um custo de manutenção e preservação de mais de 27 bilhões de reais - e um custo total de até 33 bilhões de reais. Se os estádios são tão caros e algumas das cidades parecem não ter meios de mantê-los sem desperdiçar dinheiro, o que levou, afinal, o Brasil a indicá-las como sedes? Como é de costume no país, culpa da política, que sobrepujou o bom senso e colocou o gasto perdulário de dinheiro público em segundo plano. Houve esforço de sobra para contemplar aliados e atender a interesses muito distantes do futebol. Nas últimas Copas, alguns países-sede - Estados Unidos (1994), França (1998) e África do Sul (2010) - precisaram de apenas nove cidades para realizar um bom torneio, sem apertos nem grandes problemas logísticos. O caso dos americanos, aliás, ilustra bem a comparação com o exagero brasileiro: mesmo num país de dimensões continentais e onde há dezenas de estádios de grande porte já prontos - nenhuma outra nação tem tantas arenas esportivas de alto nível -, nove sedes foram o bastante para o Mundial. Para preservar os bolsos do cidadão brasileiro, melhor seria se a Copa de 2014 seguisse essa mesma receita. Agora, no entanto, já é tarde demais - e a conta dos elefantes brancos será repassada aos nossos filhos e netos.

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