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Tiago Fernandes: nas pegadas de Guga
(Laílson Santos)
A Academia Larri Passos, na cidade de Camboriú, parece um oásis em meio ao calor de mais de 30 graus do litoral catarinense. Para sombrear sua propriedade, Larri plantou alguns coqueiros e outras árvores que dão um refresco aos visitantes. De lá, o tenista Tiago Fernandes despontou para o mundo do esporte mundial no sábado, dia 30 de janeiro - um dia depois do seu 17º aniversário -, ao vencer o Aberto da Austrália juvenil, um dos quatro torneios do Grand Slam, os mais nobres do tênis. Alagoano, Tiago trabalha com a equipe de Larri há dois anos - o que neutralizou seu sotaque nordestino - e tem sido entalhado para, talvez, substituir o vazio desde a aposentadoria de Gustavo Kuerten. Com o mesmo técnico, mesmo empresário e mesmo tipo físico, Tiago tem tudo para se tornar um campeão. Confira a conversa exclusiva com VEJA:
Você esperava começar o ano com um título de Grand Slam?
Ano passado, meu primeiro ano como juvenil, joguei alguns Grand Slams da categoria para pegar experiência, já que era um ano mais novo que os demais. No US Open, em setembro, cheguei até as quartas. Então nesse ano eu queria pegar um pouco mais forte, já que estaria jogando com garotos da mesma idade. Treinamos bastante, foi bem puxado. A confiança se ganha durante o torneio, durante aquela semana específica. Pouca gente sabe, mas na primeira rodada eu quase perdi o primeiro jogo. Eu estava perdendo para um francês por 6 a 3, no primeiro set, e 3 a 2 no segundo. Primeira rodada é difícil, normalmente sem ritmo de jogo. Mas nas oitavas ganhei de um americano que era o cabeça-de-chave número quatro e foi ali que peguei bastante confiança e já estava jogando quase no automático.
E depois de fechar o jogo final. Qual foi a sensação?
Nem sabia o que pensar direito, a ficha não cai direto na hora, mas jogar naquela quadra, a Rod Laver, foi muito especial. Não estava lotada, mas tinha bastante gente. Quando fechei o jogo não sabia o que pensar, o adversário estava jogando em casa (Sean Berman), então era uma situação meio complicada, não sabia como reagir. Só quando saímos do complexo deu para ter uma noção. O telefone não parava de tocar. Liguei para os meus pais, eles estavam chorando, todos muito emocionados. Aí quando chegamos ao Brasil vimos o tamanho do impacto. Acho que nunca dei tanta entrevista, mas acredito que é só o começo. Agora é continuar fazer tudo o que vinha fazendo.
Agora os adversários, além da torcida brasileira, vão acompanhar seus passos mais de perto. Não é uma pressão muito grande?
No mundo do esporte sempre vem a pressão, ainda mais com os resultados aparecendo. É uma consequência natural. Se o cara quer ser campeão vai ter de saber lidar com isso. O Roger Federer sempre entra nos torneios como cabeça-de-chave número 1, ou seja, todo mundo quer ganhar dele. Mas eu procuro ficar tranquilo e usar isso com um incentivo.
E o assédio no colégio, o pessoal já sabia quem era você antes do título? - (Tiago está no 3º ano do Ensino Médio)
Só alguns amigos tinham noção de que eu jogava, sabiam porque mudei para cá. Com certeza agora estão sabendo mais.
Como é sua rotina aqui em Santa Catarina?
Estudo de manhã, das 7h até meio-dia. Venho para cá, almoço e fico na quadra de 13h30 até umas 17h; depois, até as 18h, faço musculação. Quase não tenho tempo livre. Moro na praia (divide apartamento com um colega tenista em Balneário Camboriú), mas mal a vejo. Das 52 semanas do ano, passo entre 30 a 35 semanas viajando. Saio mais quando estou em Maceió. Quando o Larri me dá folga aí relaxo.
O Larri Passos tem fama de general. Como é ter de andar na linha sempre?
Nos esportes de alto nível só dá certo se for dessa maneira. O Larri fez um número 1 do mundo e sabe que esse é o caminho. Ele tem umas regrinhas básicas: viajar com a namorada só depois de virar Top 10 no profissional, chegou mais tarde no treino, paga dez flexões por minuto de atraso.
E quando surgiu a decisão de mudar de vez para Camboriú?
Eu treinava aqui, viajava para algum torneio e depois voltava para Maceió. Perdia muito tempo e me cansava mais. Não conseguia manter a escola lá e treinos aqui. Com mais torneios, não dava mais para fazer esse bate-e-volta.
Seus pais não ficaram preocupados em morar tão longe?
A preocupação principal deles é saber se estou feliz. Se faço o que amo - e eu amo jogar tênis - e eles me apóiam. Aqui é o melhor para alcançar o meu objetivo, virar profissional.
Qual é a parte mais difícil de estar fora de casa?
O que pega mais é ficar longe de casa e da família. Sou muito apegado a eles. Meus irmãos são da mesma idade, então a gente acaba fazendo tudo meio junto. Como também moram fora, a casa fica vazia. Aí sobra para minha mãe, ela sofre muito.
Você não acha que um resultado desses lhe obriga a se tornar um profissional mais cedo?
Esse título não mudou o planejamento. Estou em um processo de formação física. Ainda não estou 100% estruturado. Tenho de ganhar massa muscular e dar um passo de cada vez. Ganhei mais confiança de continuar trabalhando duro. No próximo ano vou mesclar alguns torneios juvenis com profissionais.
E abdicar da vida de um adolescente comum, não é difícil?
O Larri conversou comigo exatamente isso. Ele disse que tudo na vida tem de ter equilíbrio. Não posso ser um extremo ou o outro. O treino é fundamental, tem de ser sempre 100%, mas não posso deixar de fazer as coisas que me dão alegria. Sair de vez em quando, ver a família e amigos é importante. Comemorar quando ganha, e saber que é preciso treinar mais quando perde. Mas nunca deixar isso virar uma obsessão. Tenho de abrir a cabeça.
Como foi jogar uma partida oficial com o Guga (jogou duplas com o catarinense em 2008)?
Só tenho a agradecer essa oportunidade que os dois me deram. O Larri até brincou: "Eu devo ser louco, né? Botar um guri de 15 anos para jogar com o Guga, um fenômeno do esporte, no último torneio da carreira dele." Na hora eu fiquei muito nervoso, com medo. Mas foi muito legal da parte deles.
E como é conviver com ele na academia?
Peguei um período de seis meses que ele estava trabalhando aqui. O Guga é um cara muito humilde. A maneira como ele trata todo mundo é impressionante. as dicas que ele dá para os mais novos; a forma com que se esforçava mesmo com a lesão no quadril. Tudo isso faz dele meu maior ídolo no tênis. Agora, meu ídolo é o Federer, pela maneira como joga e por ser um pouco parecido com o Guga fora das quadras.
As comparações com o Guga são inevitáveis, mesmo treinador, mesmo empresário. Como você as encara?
Acho bom que existam essas comparações com o Guga. Afinal, é o cara em quem eu me espelho e quem o Larri pede para que siga o exemplo. Não dá para falar em o "novo Guga". Acho que as comparações nascem por ele ter sido número 1 do mundo e existir a necessidade de suprir o vazio de um brasileiro entre os Top 10.
Mas vocês se parecem na quadra?
Acho que somos bem parecidos, até porque temos quase a mesma altura (Tiago tem 1,88m e Guga 1,90). No jeito de sacar, no estilo agressivo, na direita. Na esquerda, não. A esquerda do Guga...


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