OlimpÃadas
Legado olÃmpico: depois das medalhas, o maior desafio
Fazer uma OlimpÃada custa caro demais. Melhorar a cidade-sede tornou-se a única forma de justificar o gasto. O problema é que isso raramente dá certo...
Se fracassar na tentativa de garantir transformações positivas nas cidades que recebem os Jogos, o COI se arrisca até mesmo a ficar sem candidatas dispostas a receber as edições seguintes
A cena já virou clichê: diante de um telão instalado em praça pública, uma multidão aplaude e celebra a escolha de sua cidade para receber a próxima OlimpÃada. Tivessem em mãos a conta exorbitante da maior festa esportiva do planeta, a imagem seria bem diferente: os moradores da futura cidade-sede provavelmente acabariam vaiando o resultado da eleição promovida pelo Comitê OlÃmpico Internacional (COI). Cada vez mais caras e complicadas, as OlimpÃadas são, numa análise fria, uma péssima aposta e um risco gigantesco para qualquer cidade que se disponha a promovê-las. Desde 1896, os Jogos da era moderna já passaram por 23 cidades, incluindo gigantes ricas e desenvolvidas (como Paris, Londres e Los Angeles), metrópoles caóticas (Moscou, Pequim e Cidade do México) e sedes menores e mais modestas (Seul, Montreal, Melbourne). Cada uma recebeu o evento à sua maneira, mas todas sofreram mudanças, em maior ou menor escala, em decorrência dos Jogos. O impacto sofrido pelas sedes olÃmpicas tem aumentado de forma exponencial nas edições mais recentes, à medida em que o evento torna-se ainda maior e mais complexo - St. Louis (1904), Antuérpia (1920) e Helsinque (1952), por exemplo jamais seriam capazes de fazer uma OlimpÃada em sua versão atual. Na primeira vez que foi sede olÃmpica, Londres recebeu cerca de 2.000 atletas de 22 paÃses. Dentro de três meses, a capital britânica terá de abrigar mais de 10.000 competidores de mais de 200 paÃses - sem contar um contingente imenso de torcedores, jornalistas e autoridades em constante movimento, numa cidade que já sofre de superlotação e de uma implacável disputa por espaço. Dar conta desse terremoto urbano, ainda que ele dure pouco mais de duas semanas, custa muito caro. E o pior: quando uma cidade embarca na aventura olÃmpica, jamais tem a certeza de quanto gastará, já que os orçamentos iniciais sempre acabam sendo inflacionados.
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Elogios a Londres: Jacques Rogge, do COI, com David Cameron, primeiro-ministro britânico, e Sebastian Coe, presidente do Comitê Organizador Local para 2012
Para quem tem dúvida do tamanho da encrenca financeira em que se metem as sedes olÃmpicas, basta dizer que uma das edições mais recentes dos Jogos teve poder destrutivo suficiente para ajudar a mergulhar na crise o continente mais desenvolvido do planeta. É consenso entre os economistas europeus que a gastança desenfreada promovida para a OlimpÃada de Atenas, em 2004, foi uma das grandes culpadas pelo atoleiro de que a Grécia tenta fugir hoje. Mais catastrófica ainda é a constatação de que a dinheirama consumida pelo evento foi simplesmente jogada no lixo - as milionárias instalações olÃmpicas de Atenas agora são inúteis e estão abandonadas. É por isso que o caso grego é o mais emblemático quando se discute a armadilha econômica de se realizar uma OlimpÃada. O custo estratosférico do evento é inevitável. Resta aos defensores da realização dos Jogos insistir no valor do legado olÃmpico - ou seja, justificar a montanha de despesas sustentando que o dinheiro, na verdade, serve de investimento para melhorar a cidade no futuro. É um argumento legÃtimo, é claro - mas que precisa ser avaliado com extrema cautela e desconfiança. Isso porque a história recente dos Jogos mostra que não é nada simples fazer uma OlimpÃada de sucesso e ainda deixar para trás uma cidade melhor para se viver (confira no quadro abaixo). Até por uma questão de sobrevivência de seu maior patrimônio, o COI vem priorizando cada vez mais os projetos de legado urbano e esportivo na hora de selecionar uma futura sede olÃmpica. Se fracassar na tentativa de garantir transformações positivas nas cidades que recebem os Jogos, o comitê se arrisca até a ficar sem candidatas dispostas a receber as edições seguintes. É por isso que, ao dar inÃcio à inspeção final antes dos Jogos de Londres, no mês passado, o presidente do COI, Jacques Rogge, bateu tanto na tecla da herança olÃmpica. "Londres criou um novo padrão de como entregar um legado duradouro. Já é possÃvel ver resultados palpáveis da incrÃvel revitalização da região leste da cidade. Esta grande e histórica cidade já deixou sua marca no legado para os próximos Jogos", sentenciou o cartola.
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Londres, de fato, parece estar seguindo uma receita vencedora. Inspirada em Barcelona-1992, medalha de ouro entre os projetos recentes de legado olÃmpico, a capital britânica baseou seu plano para 2012 na reformulação de uma região esquecida da cidade. Construir o parque olÃmpico numa área carente de valorização é tacada certeira, já que desencadeia uma série de ações benéficas à população, com efeitos que vão muito além do perÃodo de disputa dos Jogos. Além de cultivar uma nova e próspera comunidade num bairro antes irrelevante, essa estratégia acaba criando novos eixos urbanos - surgem novas vias de trânsito, novas linhas de trem e metrô, novos centros de comércio e atividade econômica. O desafio, nesse caso, é saber o que fazer com as instalações esportivas depois dos Jogos. Para evitar o surgimento dos já famosos elefantes brancos, o comitê organizador de Londres decidiu, por exemplo, construir instalações temporárias, cujos componentes serão reutilizados em outras cidades do paÃs. Os britânicos ainda não resolveram, porém, o problema mais crÃtico de seu projeto: o destino do Estádio OlÃmpico, justamente a peça central do parque erguido no leste da cidade. O mais provável é que vire a nova casa do West Ham, time de futebol tradicional da cidade - mas isso já seria uma distorção do projeto original, já que a ideia era preservar o estádio como palco para competições de atletismo. Planos como esses sempre esbarram na dificuldade de equacionar as finanças de uma instalação olÃmpica depois dos Jogos. Abrir suas portas à população parece uma alternativa sensata. Mas só parece - os equipamentos olÃmpicos são construÃdos para uso por atletas de ponta, e mantê-los em ordem exige despesas constantes. Transforma-los em instalações públicas, portanto, também é um desperdÃcio. Entre pagar com verba pública a manutenção de um estádio ou ginásio cujo uso é pouco frequente e entregá-lo à iniciativa privada num contrato "camarada", a escolha parece ser entre o péssimo e o ruim - e ilustra bem como, na ponta do lápis, promover uma OlimpÃada poucas vezes vale a pena.
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Entre o lucro e a ruína: os destinos de 6 cidades olímpicas
Los Angeles-1984
Na passagem anterior dos Jogos pela América do Norte, a Olimpíada tinha deixado uma herança maldita - as dívidas de Montreal-1976 só foram liquidadas três décadas depois, em 2006. Para evitar desastre parecido, Los Angeles elaborou um plano olímpico bem diferente - e surpreendentemente modesto. Ao invés de torrar dinheiro com novas instalações esportivas, a cidade, que sempre teve forte tradição esportiva, simplesmente renovou os estádios e ginásios já existentes (só o centro de esportes aquáticos e o velódromo foram construídos do zero). O "jeitinho americano" também ajudou a pagar a conta: o comitê organizador local conseguiu fechar bons negócios, e parte das despesas foi parar nas mãos da iniciativa privada. O novo centro aquático, por exemplo, ganhou patrocínio do McDonald's; o velódromo, do 7-Eleven. Sem pirotecnia desnecessária e sem obras faraônicas, Los Angeles fez uma Olimpíada eficiente e bem sucedida. Resultado: os Jogos deram um lucro de 200 milhões de dólares, o primeiro balanço financeiro positivo de uma Olimpíada desde 1932.


