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‘Não me considero um grande artista’, diz Tim Burton

Em visita ao Brasil, cineasta falou ao site de VEJA sobre a mostra em sua homenagem, projetos futuros e as dificuldades de viver dentro de sua mente: ‘sou um cientista maluco’

Por: Raquel Carneiro - Atualizado em

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Com seu tradicional cabelo despenteado e vestindo uma camisa vermelha estampada com desenhos de pequenos gatos pretos, o cineasta Tim Burton parece a personificação de sua obra. Ansioso, falante, engraçado, simpático, mas ainda um pouco intimidador. Foi essa a impressão que ele deixou durante sua visita ao Brasil esta semana. Primeiro ele se tornou assunto por curtir como um bom turista o Carnaval carioca. Dias depois, recebeu a imprensa e alguns fãs no Museu da Imagem e do Som (MIS), em São Paulo, que abriga uma exposição dedicada ao diretor, para longas e descontraídas conversas.

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Uma visita à estranha mente de Tim Burton

A mostra O Mundo de Tim Burton, que fica no país até o dia 15 de maio, parece uma viagem pela mente do artista. "Sinto muito por isso", diz ele à reportagem de VEJA, antes de soltar uma de muitas gargalhadas que aconteceriam ao longo da conversa em uma mesa com mais três outros jornalistas. Burton se diz ser um homem fechado, tímido, que gosta da solidão, de filmes de terror e trash (entre eles, produções estreladas pelo brasileiro José Mojica Marins, o Zé do Caixão).

"É assustador ter uma mostra dedicada à minha obra. Não me considero um grande artista, nem um grande cineasta. Acho que só entrei em um museu depois dos vinte anos", conta Burton, que durante a infância gostava de brincar em cemitérios de Burbank, condado de Los Angeles, onde cresceu, ou fazendo experiências estranhas em casa, como o personagem da animação semi-autobiográfica Frankenweenie (2012).

Confira abaixo a conversa com o diretor:

Qual a sensação de ter uma exposição em sua homenagem? Considera algum item o mais particular na coleção? Tudo para mim é muito pessoal. No começo, fiquei bem assustado com a ideia de uma mostra. Eu não tinha a cultura de exposições. Acho que só entrei em um museu depois dos vinte anos. Mas me senti em boas mãos. Jenny He (curadora) passou anos mexendo nas minhas coisas, em caixas e armários, encontrou itens que eu nem lembrava que ainda tinha. E fiquei muito feliz com o modo como foi montada a mostra no Brasil. Parece uma casa de diversão. Fez minha arte parecer melhor do que é (risos).

Ao entrar na exposição, a sensação é de entrar na sua mente. Coitada. Sinto muito por isso (risos).

Exato! Como você consegue? Sempre gostei de projetos estranhos. Sou um cientista maluco. Uma vez, um vizinho chamou a polícia, pois eu assustei as crianças da rua. Acharam que tinha acontecido um assassinato na minha casa (risos). Eu tenho mudanças violentas de humor. São fases. Os sentimentos mudam. Por isso gosto de Frankenstein. Me sinto como uma pessoa que foi costurada e montada. Muitos itens dessa mostra são de projetos que acabaram recusados. O Estranho Mundo de Jack deveria ser um livro infantil, mas foi rejeitado por todas as editoras do mundo por ser muito sombrio.

E hoje você é um dos cineastas mais famosos do mundo. Na verdade, só me sinto sortudo por ter feito na vida o que eu queria. Sempre me expressei do meu jeito. Não me considero um grande artista ou um grande cineasta. Quando fiz estágio na Disney, eu era um animador tão ruim (risos). Em O Cão e a Raposa, meu Deus... minhas raposas pareciam atropeladas por um carro. Eles então me mudaram de setor e me deixaram desenhando o que eu quisesse. Foi quando desenvolvi meu traço. Todo processo é válido.

Seu relacionamento com a Disney, aliás, é antigo. Eles te deram uma bolsa de estudo, mas recusaram muitos de seus projetos por serem sombrios, depois você voltou a trabalhar com eles. Eu costumo dizer que já fui contratado e demitido pela Disney dez vezes (risos). Funciona assim, eles me chamam: "venha". Depois dizem: "agora, vá embora". "Venha de novo, vá de novo."

É verdade que a próxima parceria entre você e o estúdio do Mickey Mouse será a nova adaptação de Dumbo? Vamos ver. Uma coisa que eu aprendi sobre fazer filmes é que nunca tenho certeza que estou fazendo um até estar no set realmente filmando. Pois, às vezes, trabalho em algo e acho que estou firme no projeto, mas ai não acontece. Isso é doloroso e traumático. Então, prefiro não falar antes. Eu sei que estou em um filme quando começamos a rodar, com câmera, pessoas, atores, ai eu digo: sim, estou trabalhando neste projeto.

Você é um grande fã de longas de terror. Mas seus trabalhos são sensíveis, apesar de apresentarem elementos assustadores. Tem a intenção de fazer algo realmente do gênero no futuro? Não sei se tenho a capacidade de fazer um filme de terror, pois eu os amo tanto. Eles nunca me assustam. Eu me assusto com a vida real. Ir para a escola era assustador (risos). Eu tinha mais medo da minha família do que dos filmes de monstros.

Seu novo filme, O Orfanato da Srta. Peregrine para Crianças Peculiares, está previsto para estrear este ano. O que pode adiantar sobre a produção? Ainda estou trabalhando nisso. Não gosto de falar muito antes. E se eu disser que é uma comédia, mas ninguém rir no cinema? Ou disser que é um drama, mas as pessoas derem risada? (risos). Ainda não tenho certeza do que é. Mas adianto que teremos algumas cenas em stop motion.

Stop motion continua sendo uma de suas paixões? Sim. Um dos primeiros filmes que vi foi Jasão e os Argonautas (1963). Sou fascinado pela técnica. Imaginar uma história com bonecos é mágico. Mesmo que seja quase uma arte ultrapassada com tanta animação computadorizada.

Este ano, o Brasil conquistou uma indicação inédita na categoria de melhor animação com O Menino e o Mundo. Você viu? Eu ouvi falar, isso é maravilhoso. Ainda não vi o filme, mas tenho ouvido falar muito. Eu espero que ganhe. A Pixar já tem muitos troféus.

Quentin Tarantino esteve recentemente no Brasil e reforçou que vai se aposentar, parar de fazer filmes para se dedicar a outros projetos. Como um homem de talentos variados, você pensa em desistir do cinema um dia e partir para outros tipos de artes? Aposentadoria... é o que todos dizem (risos). Meus amigos em bandas dizem isso. Eles se separam o tempo todo e logo voltam a tocar juntos. Cada vez que faço um filme me sinto como se fosse a primeira vez. É sempre assustador, novo e animador. Acho que temos que ter essa energia do nervosismo da primeira vez quando se trabalha com algo. Por isso, não tenho planos de desistir do cinema.

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